Covid-19: lembrem-se do exemplo… (de quem faz a coisa certa).

O exemplo a ser lembrado aqui não é o das Mulheres de Atenas, de Chico Buarque (na verdade um contraexemplo). Ele vem de pelo menos uma cidade brasileira e também de um país latino-americano, que de fato estão fazendo a coisa certa no controle da atual pandemia. Afinal, felizmente, nem tudo o que temos assistido, nos últimos tempos, é aquilo que Drummond considerou como “um vácuo atormentado, um sistema de erros”. Coisa que, aliás, a realidade do Brasil, nos impõe a toda hora. Pois bem, o país é o nosso vizinho ao Sul, ele mesmo, El Paisito, nossa antiga Província Cisplatina, o Uruguai. E a cidade é São Caetano do Sul, de prováveis muitas misérias, mas mesmo assim dando exemplos a cidades mais ricas e teoricamente mais governáveis. 

O Uruguai não declarou quarentena obrigatória ou exigiu o uso em massa de máscaras contra a expansão do vírus, mas mesmo assim vem mantendo índices baixos de casos da covid-19 e leitos de UTI desocupados. Coisa de dar inveja a nosotros. Lá o presidente Luis Lacalle Pou, que também é de direita, mas demonstra que mesmo em tal condição possui um cérebro viável, dotado de ingredientes escassos por aqui, como inteligência e bom senso, já anunciou o retorno às aulas a partir de junho, após dois meses de paralisação, decisão a ser confirmada pelos pais ou responsáveis. Lacalle avisa: ” Analisamos a situação com um grupo de especialistas e vimos que o risco da volta às aulas é mínimo”. Em outras palavras, não tirou isso da cartola, como quem mostra uma cartela de cloroquina…

Qual a razão de tanto sucesso, pelo menos até agora, quando o grande vizinho ao Norte do Arroio Chuí padece de humilhação e tristeza sem tamanho? O Ministro da Saúde – sim eles têm tal figura lá – o médico Daniel Salinas, explicou que se parte de orientações de um grupo de profissionais de diferentes áreas, médicos, farmacêuticos, engenheiros, matemáticos e profissionais de estatísticas. Nenhum militar, portanto. A quarentena deles se iniciou em 13 de março, quando o país registrava apenas quatro casos da doença. O governo então fechou fronteiras, suspendeu voos, aulas nas escolas e universidades, missas e outros cultos religiosos e eventos como jogos de futebol e shows de rock. Igualzinho a nós…

E não ficou só nisso: foi limitada a duração e a participação de velórios e restringida a permanência de cruzeiros em portos, por exemplo, mas ao contrário do que aconteceu em vizinhos como a Argentina, que aplicaram quarentena rigorosa, o comércio, de forma geral, foi liberado — excetos os shoppings. Observou-se, então, um comportamento com o qual não estamos, em absoluto, acostumados aqui, pois mesmo sem obrigatoriedade, a maioria das pessoas preferiu ficar em casa e muitos comerciantes optaram por não abrir suas tiendas.

Mesmo um senador da oposição, à esquerda, Carlos Mahía, admitiu que o governo tomou boas decisões, sendo que todos os partidos políticos apoiaram as medidas sanitárias, em sintonia com a sociedade. Mahía ainda completou: “diferenças com o governo existem, mas na área econômica, e não no âmbito da luta contra o vírus”. Nós, no Brasil, temos realmente que nos esforçar para não morrer de inveja.

O que fez o Uruguai triunfar, pelo menos na comparação com seus pobres vizinhos, mas talvez também em escala mundial, você pode ler no link a seguir:

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Vamos agora a São Caetano do Sul, sede de sucessos na luta anticorona, que acompanhei através de uma reportagem do dia 4 último na Folha de S. Paulo, de autoria da jornalista Claudia Colucci, especialista em saúde.

Pra começar, a Prefeitura da cidade oferece testes para Covid-19 a domicílio, em parceria com a universidade municipal (USCS), com outros cuidados garantidos pela atenção primária à saúde (APS), a porta de entrada do SUS. Tal foi o caso de Ariana dos Santos, 27 anos, a qual, com dores de cabeça e no corpo, perda do olfato e do paladar, vômito e febre, ligou para um 0800, sendo orientada e recebendo em sua própria casa um kit de auto coleta de secreções da garganta e do nariz para o teste. Em nada mais do que 48 horas já tinha sido avisada do resultado positivo e da recomendação de se isolar por 14 dias, período em que esteve monitorada a distância por profissionais da saúde.

Mas tem mais. Há também monitoramento de doentes crônicos, principal grupo de risco para complicações e morte pelo vírus infecção. Foram desenvolvidos cinco programas de testagem, entre eles, o domiciliar, já referido acima, um em atendimento dentro do próprio veículo do interessado, além de outro em bloqueios de trânsito, já tendo sido testadas mais de 38 mil pessoas, ou seja, 24% da população. Se alguém resultar positivo na testagem domiciliar um médico da atenção básica se dirige à casa do paciente, faz avaliação clínica e mede o nível de oxigênio no sangue. Há casos que, inclusive, são encaminhados diretamente para internação.

Nos bloqueios de trânsito, é aferida a temperatura de motoristas e passageiros. Quem tiver febre e alteração nos níveis de oxigênio é submetido ao teste rápido no local. Caso o resultado seja positivo, o morador é atendido em uma carreta ao lado do Hospital Municipal de Emergências.

Como se vê, não é preciso sair do Brasil para encontrar soluções para o grande problema que nos aflige. A reportagem da Folha não traz indicativo relativo ao perfil do prefeito da cidade, mas com certeza se trata de uma pessoa séria e responsável, nenhum terraplanista, olavista ou assemelhado.

Aliás, certamente este é o caso do Uruguai também. Liderança, credibilidade e responsabilidade são coisas essenciais e nelas residem, certamente, o segredo do bom controle da pandemia.

Saiba mais! Acesse o link abaixo.

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Pois é o homem adoeceu… Ou, pelo menos, afirma isso. Já era esperado, para não dizer desejado (por alguns, pelo menos).

É preciso ter contenção verbal para não cair no tipo de humor escatológico e rasteiro que o Presidente e seus seguidores tanto apreciam, mas pelo menos uma coisa deve ser dita: quem procura, acha.

Um lado mais humano e conciliador poderia nos indicar que isso, por azar, acontece justamente quando o presidente parece viver uma nova fase, de bom mocismo e cortesia. Não nos enganemos. Eu pelo menos não acredito que ele tenha mudado tanto assim. O que há de verdade, é o temor de que um limite para suas ações e declarações intempestivas, imaturas e deslocadas já se anuncia, através das instituições democráticas que ele tanto despreza.

O pretenso “bom mocismo” que agora ostenta não o impediu de mutilar o projeto de Lei sobre o uso de máscaras que o Legislativo propôs, com argumentos que satisfazem ao seu ego e suas convicções destrambelhadas, por exemplo, o prestigio incondicional que confere às igrejas-negócio evangélicas e a recusa de que sejam atendidos os presidiários. Aliás, em relação a estes últimos, ele já foi taxativo antes: isso é problema deles; que resolvam lá dentro das celas mesmo (tá ok?). Para os indígenas reservou a sonegação de água potável e apoio sanitário.

Não satisfeito, ainda cometeu uma entrevista (com órgãos de “imprensa” selecionados a dedo) sem máscara e com o microfone intercambiado entre ele e os pobres repórteres como um verdadeiro “cachimbo da paz”. E não perdeu a oportunidade de incriminar governadores e prefeitos que não aderiram à causa da cloroquina e do liberou-geral, sendo sempre tratados como seus desafetos pessoais.

Um homem não vale pelo que está falando a partir de ontem ou pelo que faz pontualmente, apenas premido pelas circunstâncias. Um homem é a sua história, a sua bagagem. No caso, estamos diante de um sujeito que passou quase trinta anos no Legislativo sem deixar outra marca que não fosse a de sua brutalidade e ignorância. De um ex-militar excluído do Exército por insubordinação e até terrorismo. De um presidente cujas marcas principais de governo até agora tem sido a destruição das instituições; a grosseria no trato com a imprensa e com os adversários, tidos indiscriminadamente como inimigos; a recusa de responsabilidades inerentes ao cargo que ocupa, além da proteção a familiares e amigos.

Eu não esperaria ações sensatas de uma pessoa como Jair Bolsonaro. Mas, quem sabe, se ele se recuperar do Covid-19 (e eu espero que assim aconteça) pelo menos que passe a considerar e respeitar as responsabilidades que deveria ter como mandatário de uma Nação, buscando um olhar mais humano, mais competente ou, pelo menos, mais responsável sobre o grande problema que ora turva nosso horizonte.

A experiência de uma doença grave às vezes funciona como catalisadora de mudanças profundas na personalidade das pessoas. Mas pensando bem, sinceramente, no caso presente, duvido muito que isso aconteça.

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