Já tratei de tal assunto aqui no blog outras vezes, geralmente aproveitando a edição periódica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. É hora de atualizarmos as informações, portanto. A primeira linha deste post propõe a questão e a resposta para ela é a negação. Brasília (e o DF como um todo), NÃO são lugares violentos. Mas não devemos nos contentar com tal resposta, pois ela vale apenas para a realidade brasileira. Na comparação com outros países estamos muito mal na fita, ou seja, bem posicionados apenas quando nos comparamos com o resto do país. Não é possível, realmente, batermos peito para dizermos amém, a não ser por ingenuidade, na melhor das hipóteses, ou má fé. Vamos aos dados. Primeiro no Brasil. Nosso país registrou 40.775 mortes violentas intencionais (MVI) em 2025, o que representa uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes, aliás, a menor taxa na última década, representando queda de pouco mais de 8% em relação ao ano de 2024. Isso parece ser o resultado de políticas públicas adequadas, embora contrabalançadas pela tendência armamentista bancada pelo governo anterior. Apesar de tal queda no âmbito nacional, algumas das UF tiveram na verdade aumento das MVI, como foi o caso de RN, RO, RR, AC, MS e RJ, além do próprio DF. Aqui em nossa casa foram registradas nada menos do que 287 MVI, um aumento de 5,8% em relação ao ano anterior, representando uma taxa de 9,6 por 100 mil habitantes, bem abaixo da média nacional, que foi 19,1. Mais expressivo foi o crescimento dos homicídios dolosos (sem intenção de matar), de 8,1% aqui no DF naquele ano. O DF também apresentou a segunda maior variação de homicídios de mulheres e feminicídios, com uma variação de 67,4%. Quanto a este aspecto, no Brasil, em 2025, houve redução de 5,5% nos homicídios de mulheres, passando de 3.728 em 2024 para 3.539 em 2025, enquanto os feminicídios aumentaram 4%, significando que os assassinatos motivados por razões de gênero passaram a representar 44% das mortes violentas de mulheres no país, a maior proporção desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015. Vejamos agora os dados mundiais.
Continue Lendo “Seria Brasília uma cidade violenta?”De baratas, banheiros, banners e bebedouros – o que realmente importa na avaliação de um Serviço de Saúde?
Há algum tempo, o egrégio Conselho Federal de Medicina, que se notabilizou na babação de ovo junto ao (des)governo Bolsonaro, divulgou um levantamento realizado por suas instâncias regionais (CRM), relativo a visitas de avalição que ocorreram a alguns milhares de unidades de saúde. O cenário era de fato assustador, marcado por problemas de infraestrutura, condições de higiene precárias e falta de equipamentos básicos. Do total de estabelecimentos visitados durante o período, 24% apresentavam, na data da fiscalização, mais de 50 itens em desconformidade com o estabelecido pelas normas sanitárias. Assim, em nada menos do que 81 unidades de saúde não havia consultório; em 268, não havia sala de procedimentos/curativos; 551 não tinham recepção/sala de espera; 34% dos locais vistoriados não possuíam sanitário adaptado para deficiente; 18% não tinham sala de expurgo/esterilização; 16% não possuíam sala de atendimento de enfermagem; 13% não dispunham de farmácia ou sala de distribuição de medicamentos. E vai por aí a fora… Pior do que isso, só dois disso.
Continue Lendo “De baratas, banheiros, banners e bebedouros – o que realmente importa na avaliação de um Serviço de Saúde?”O dia em que fui homenageado pela homenageada
Tentando resumir o que aconteceu comigo nesta última semana, fui arrebatado por um encontro entre o previsível e o surpreendente… Comecemos pelo primeiro termo. A Universidade de Brasília resolveu homenagear alguns de seus ex alunos, que se notabilizaram em atividade profissional, social ou científica. Na verdade, trata-se de coisa inédita, embota devesse ser previsível, porque a corporação universitária (como a dos médicos e dos advogados, entre outras) é muito voltada para si mesma e quando homenageia alguém é dentro daquele famoso rótulo de honoris causa, ou seja, acaba contemplando quem até pode ser uma pessoa “de fora”, mas com toda possibilidade pertencente à mesma geração e estatuto social dos homenageantes.
Continue Lendo “O dia em que fui homenageado pela homenageada”Vacinar ou não vacinar: o que está em jogo?
Teria sido um mundo ideal aquele que conhecemos até algum tempo atrás? Poderia me estender sobre diversos tópicos, mas falarei hoje do ato de vacinar, que virou um gesto cheio de meandros, suspeições, supostos perigos. Quando nada, dentro de um território de ideologia ou crença religiosa. Quando garoto, nos anos 50, fui testemunha ocular (além de potencial vítima) de dois grandes flagelos sanitários, hoje dominados (embora já não se saiba até quando): a varíola e a poliomielite. Com efeito, era relativamente comum ver gente de todas as idades com diversos graus de paralisia pelas ruas, e mesmo nas escolas onde estudei. Parecia fazer parte da paisagem. Havia também pessoas profundamente marcadas pelas cicatrizes da varíola na pele ou no rosto, sem contar aqueles que tinham falecido ou ficado cegos. Muitos desses aí estavam nos cemitérios, outros recolhidos em casa, e assim ficavam, por assim dizer, invisíveis aos olhos gerais. Nem que fosse por tais motivos tão óbvios e assustadores, a afetar colegas de escola e vizinhos de muro ou de corredor, as pessoas se vacinavam. Vacinar, então, fazia parte de um verdadeiro cardápio de cuidados nas famílias, com as eternas mães zelosas a garantir que isso fosse cumprido à risca pela filharada e mesmo pelos demais membros da família. Na ocasião, seria um fato absolutamente excepcional algum político ou pastor se meter em tal história. mas isso mudou em tempos recentes, como todos sabemos…
Continue Lendo “Vacinar ou não vacinar: o que está em jogo?”Na verdadeira Democracia, votar não é tudo…
Pois é amigos, este blog se destina, essencialmente a falar sobre Saúde. Mas se o assunto é Democracia, como o de hoje, é bom lembrar que isso não faz com que se escape do tema principal, sendo certo que uma coisa tenha muito a ver com a outra. Não que um regime democrático, por si só, garanta boa saúde a alguém, mas com certeza isso teria mais condições de se estender e prosperar quando viceja em ambientes de igualdade e respeito a oportunidades e direitos, sensibilidade às diferenças, mecanismos de ausculta popular bem desenvolvidos etc. Além disso, é sem dúvida valiosa a ocorrência de eleições e processos de escolha por votação em geral, embora caibam discussões sobre a ordem de preponderância de tais fatores. Na presente digressão, quero começar com uma breve memória de episódio que presenciei muitos anos atrás, (aliás, mais de uma vez) quando fui secretário municipal de saúde em Uberlândia. Era uma daquelas reuniões comunitárias para decidir alguma coisa sobre transporte urbano, com foco bem técnico e ligado a localização das paradas, vias em mão ou contramão, frequência de horários etc. As discussões corriam acaloradas, com variadas propostas, algumas delas contraditórias entre si emergindo a cada momento da plenária, que se realizava em um ambiente abafado e pouco confortável de um salão paroquial de uma Igreja Católica de periferia. Até aí, tudo bem, fazia parte do jogo. Quando a sessão estava no auge de sua tensão, um colega, também Secretário da Prefeitura, que chamara para si a condução da reunião, decretou, com toda a boa intenção que lhe era peculiar, que chegara a hora de se votar, pois afinal de contas já se acumulavam propostas diversas e divergentes, sendo preciso, assim, dar “objetividade” àquela coisa. Votar? Naquele momento da discussão? Que engano mais “ledo”! Além disso, quem poderia garantir que os termos técnicos ali discutidos de fato seriam melhor esclarecidos através de uma reunião comunitária?
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