Há poucos dias tratei de tal assunto aqui, lembrando que Brasília (e o DF como um todo), não são lugares violentos, pelo menos quando comparados com o restante do Brasil. Isso fica claro, por exemplo, quando se examinam os crimes contra a vida de maneira geral, as mortes por ação das polícias, as mortes dos próprios policiais, os roubos e furtos de veículos, além de algumas outras ocorrências. Quando se trata, entretanto, dos crimes contra o patrimônio, estelionatos por meio eletrônico, além de roubos e furtos de telefones celulares, nossa posição é bastante desfavorável. É bem verdade, também, que apesar da nossa taxa de mortes violentas intencionais ser baixa, em comparação com o país, em anos recentes foi observado um aumento discreto da mesma. Em injúria racial e racismo não estamos bem na fita, acima da média para o país, aliás, praticamente o dobro desta. Na proporção entre feminicídios e os homicídios em geral de mulheres, nossa posição também não é confortável. Vamos detalhar as informações com base no DF, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (ver link abaixo).
Continue Lendo “Seria Brasília uma cidade violenta (II)”Um breve retrato da Segurança Pública no Brasil
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 apresenta um panorama completo e confiável sobre a situação da violência no Brasil. De forma até certo ponto contraintuitiva vê-se que ocorreu queda histórica dos homicídios, mas ao mesmo tempo aumento de feminicídios e crimes digitais, com oscilações para cima na letalidade policial. Demonstra-se que o Brasil, atualmente, atingiu a menor taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) desde 2012, com 40.775 casos, representando uma queda de 8% em relação a 2024, e uma taxa nacional de 19,1 mortes por 100 mil habitantes, abaixo da meta estabelecida pelo Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) para 2027 (16 homicídios por 100 mil habitantes). Em relação à violência contra Mulheres e Feminicídios, a situação é menos favorável: quatro mulheres assassinadas por dia em média, com aumento de 17% em violência psicológica, 30% em stalking e 17% em descumprimento de medidas protetivas. E mais, os lares continuam sendo ambientes de alto risco para mulheres, crianças e adolescentes. Em termos da letalidade provocada pela ação policial e das próprias mortes de agentes policiais, estas subiram 13,5% no país. Neste quesito, o estado do AP lidera, pelo 7º ano consecutivo, com 17,1 mortes por 100 mil habitantes, enquanto nas mortes violentas de policiais o RJ mostrou aumento de 82,1%, enquanto o total nacional de policiais mortos caiu. Há um novo tipo de crime no cenário, qual seja aqueles de natureza digital ou voltados contra o patrimônio das pessoas, com aumento expressivo em anos recentes. Golpes e fraudes digitais aumentaram 430% desde 2018, tornando-se a principal forma de crime contra o patrimônio. Em estelionatos, por exemplo, SP lidera, com cerca de 1.800 casos de estelionato por 100 mil habitantes, seguido pelo DF e PR. Na violência contra crianças e adolescentes há dados inéditos e impressionantes, por exemplo, a produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil, com 4.063 vítimas em 2025, sendo 34,2% dos autores adolescentes. Crimes não letais, como abandono, maus-tratos e agressões domésticas, também apresentaram crescimento significativo, evidenciando a necessidade de políticas de proteção mais eficazes. As UF mais violentas são AP, BA e CE; as menos violentas: SC e SP. Em termos de cidades, as mais violentas são Maranguape (CE), com mais de 100 mortes violentas por 100 mil habitantes, seguida por Eunápolis (BA) e Maracanaú (CE), Estando Brasília bem longe disso.
O Anuário destaca que os estados aumentaram os gastos com segurança pública em 26% nos últimos dez anos, refletindo esforços para reduzir homicídios e melhorar a proteção da população. Nele está disponível um diagnóstico detalhado da violência no Brasil, destacando avanços na redução de homicídios, mas alertando para o crescimento de feminicídios, crimes digitais e letalidade policial, servindo como ferramenta essencial para transparência, formulação de políticas públicas e monitoramento de indicadores de segurança, sendo referência para gestores, pesquisadores e sociedade civil.
Na próxima edição deste blog detalharemos e analisaremos resultados que têm como foco o Distrito Federal
Quer saber mais? Acesse: PLANILHA Anuario Brasileiro de Seguranca Publica 2026.xlsx
Seria Brasília uma cidade violenta? (I)
Já tratei de tal assunto aqui no blog outras vezes, geralmente aproveitando a edição periódica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. É hora de atualizarmos as informações, portanto. A primeira linha deste post propõe a questão e a resposta para ela é a negação. Brasília (e o DF como um todo), NÃO são lugares violentos. Mas não devemos nos contentar com tal resposta, pois ela vale apenas na comparação com a realidade brasileira. Se o fizermos com outros países estaríamos muito mal na fita, como se verá adiante. Não nos é possível, realmente, bater no peito e dizer amém, a não ser, na melhor das hipóteses, por ingenuidade, ou, na pior delas, por má fé. Vamos aos dados. No Brasil: foram registradas 40.775 mortes violentas intencionais (MVI) em 2025, o que representa uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes, aliás, a menor taxa na última década, representando queda de pouco mais de 8% em relação ao ano de 2024. Isso parece ser o resultado de políticas públicas adequadas, embora contrabalançadas pela tendência armamentista bancada pelo governo anterior. Apesar de tal queda no âmbito nacional, algumas das UF tiveram na verdade aumento das MVI, como foi o caso de RN, RO, RR, AC, MS e RJ, além do próprio DF. Aqui em nossa casa foram registradas nada menos do que 287 MVI, um aumento de 5,8% em relação ao ano anterior, representando uma taxa de 9,6 por 100 mil habitantes, contudo bem abaixo da média nacional, que foi 19,1. No DF, foi também expressiva a variação entre homicídios de mulheres e feminicídios, estes últimos os crimes realizados por razões de gênero. Aqui, dois terços de tais crimes pertencem a esta segunda categoria, estando acima da média nacional. Quanto a este aspecto, em 2025, em termos nacionais, houve redução de 5,5% nos homicídios contra mulheres, enquanto os feminicídios propriamente ditos cresceram 4%, com o feminicídio perfazendo 44% do total, a maior proporção desde a emissão da Lei do Feminicídios em 2025. Vejamos agora os dados mundiais.
Continue Lendo “Seria Brasília uma cidade violenta? (I)”De baratas, banheiros, banners e bebedouros – o que realmente importa na avaliação de um Serviço de Saúde?
Há algum tempo, o egrégio Conselho Federal de Medicina, que se notabilizou na babação de ovo junto ao (des)governo Bolsonaro, divulgou um levantamento realizado por suas instâncias regionais (CRM), relativo a visitas de avalição que ocorreram a alguns milhares de unidades de saúde. O cenário era de fato assustador, marcado por problemas de infraestrutura, condições de higiene precárias e falta de equipamentos básicos. Do total de estabelecimentos visitados durante o período, 24% apresentavam, na data da fiscalização, mais de 50 itens em desconformidade com o estabelecido pelas normas sanitárias. Assim, em nada menos do que 81 unidades de saúde não havia consultório; em 268, não havia sala de procedimentos/curativos; 551 não tinham recepção/sala de espera; 34% dos locais vistoriados não possuíam sanitário adaptado para deficiente; 18% não tinham sala de expurgo/esterilização; 16% não possuíam sala de atendimento de enfermagem; 13% não dispunham de farmácia ou sala de distribuição de medicamentos. E vai por aí a fora… Pior do que isso, só dois disso.
Continue Lendo “De baratas, banheiros, banners e bebedouros – o que realmente importa na avaliação de um Serviço de Saúde?”O dia em que fui homenageado pela homenageada
Tentando resumir o que aconteceu comigo nesta última semana, fui arrebatado por um encontro entre o previsível e o surpreendente… Comecemos pelo primeiro termo. A Universidade de Brasília resolveu homenagear alguns de seus ex alunos, que se notabilizaram em atividade profissional, social ou científica. Na verdade, trata-se de coisa inédita, embota devesse ser previsível, porque a corporação universitária (como a dos médicos e dos advogados, entre outras) é muito voltada para si mesma e quando homenageia alguém é dentro daquele famoso rótulo de honoris causa, ou seja, acaba contemplando quem até pode ser uma pessoa “de fora”, mas com toda possibilidade pertencente à mesma geração e estatuto social dos homenageantes.
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