Ainda os dilemas da Covid

A palavra dilema talvez seja pouco significativa para descrever o impacto das informações e dados da realidade sobre a pandemia da Covid 19, por vezes contraditórios e de compreensão complexa, que nos assaltam a cada vez que abrimos os jornais, assistimos TV ou pesquisamos na internet. Mas é preciso estar atentos, pois uma parte de tal confusão é fruto de atitudes maliciosas e irresponsáveis, oriundas de pessoas ou grupos mal informados e quase sempre mal intencionados, enquanto outra deriva da própria natureza do fenômeno, em suas múltiplas vertentes biológicas, epidemiológicas ou culturais. Sobre a primeira variedade, aquela derivada “do mal”, a qual contudo não é objeto deste post de hoje, tenho uma rápida e curiosa história. Um grupo de entidades norte-americanas lançou uma campanha de descrédito e ironia contra as atitudes negacionistas, espalhando por algumas cidades outdoors com o aviso Os pássaros não são reais, alertando que os mesmos seriam drones comandados pelo governo para vigiar a vida dos cidadãos. Como ironia certamente não é o forte entre os negacionistas clássicos, não sei se eles entenderam bem a mensagem – talvez tenham até começado a atirar com suas carabinas automáticas (aquelas liberadas nos EUA) contra qualquer mísero pardalzinho ou pombo que lhe atravessasse o caminho. Pensei em criar algo semelhante por aqui, As vacinas não são reais, mas creio que o nível de informação e de captação de ironia peculiares a tal turma acabe gerando efeito contrário. Mas vamos ao que interessa.    

Li no Financial Times (que nem de longe é uma publicação comunista ou financiada por George Soros), uma interessante matéria sobre como o Covid enganou os especialistas em saúde em todo o mudo e forçou uma reavaliação dos sistemas de saúde no atendimento aos cidadãos (How Covid wrongfooted the health experts – The pandemic has forced a reassessment of  which health systems serve citizens best). Trago aqui uma síntese disso, junto com alguns comentários meus.

  1. O artigo começa com uma ironia, ao afirmar que quando vistos pelas lentes do coronavírus, os britânicos tendem a valorizar seu Serviço Nacional de Saúde e os americanos suas inovações gerenciais e sua disponibilidade de especialistas renomados, mas países bem menos dotados, como Taiwan, Noruega e outros, têm oferecido melhores serviços e resultados de saúde a seus cidadãos. Enquanto isso, são derrubadas muitas suposições sobre as melhores maneiras de melhorar a prestação de cuidados de saúde e de se preparar para pandemias, de tal forma que métricas ​​de desempenho antes vistas como confiáveis, se mostram inadequadas. Em 2019, por exemplo, instituições lideradas pela Universidade Johns Hopkins, analisaram a situação de 195 países, para avaliar os mais bem preparados para pandemias em geral. EUA e o Reino Unido pontuaram alto, mas isso foi de pouca valia quando o coronavírus atacou, obtendo os maiores totais cumulativos de mortes em excesso e de efeitos colaterais em outras condições médicas. Nações que tiveram um desempenho muito melhor incluem Taiwan, Coreia do Sul e até mesmo Filipinas.
  2. Uma Comissão Pan-Europeia sobre Saúde e Desenvolvimento Sustentável recentemente afirmou que a segurança na saúde global não reflete a realidade e que os sistemas de saúde considerados muito fortes, na verdade, ficaram sobrecarregados, com respostas inadequadas em relação ao controle da pandemia. Seria o momento, portanto, de reconsiderar certas ideias pré estabelecidas, já que uma pandemia como a presente traz rápidas mudanças. A realidade tem mostrado que em diferentes momentos, diferentes países pareceram ser mais ou menos vulneráveis ​​ao coronavírus e mais ou menos eficazes em suas respostas. A Índia e várias nações africanas, por exemplo, foram inicialmente protegidas de hospitalizações generalizadas, mas mais tarde lutaram contra a infecção por novas variantes do vírus. O Japão teve um bom desempenho com o uso de controle de infecção firme, incluindo máscaras faciais, mas tem sido mais lento para adotar a vacinação. Israel vacinou rapidamente e facilitou os bloqueios e, desde então, foi retardado por um ressurgimento de casos.
  3. Tudo indica que as melhores intervenções para mitigar a pandemia incluíram o fechamento rápido e estrito das fronteiras, de forma apoiada por medidas de quarentena, como aconteceu, por exemplo, em Taiwan, Cingapura, Coréia do Sul e Hong Kong – e esteve a anos-luz de acontecer no nosso pobre país, como se sabe. Máscaras faciais e bloqueios também foram úteis, junto com arranjos rápidos e eficazes para testar, rastrear e isolar pessoas infectadas. Idem…
  4. Assim, parece ter sido essencial para o sucesso relativo de tais países um mix de pressão da sociedade e confiança nos governos, além de experiência com surtos de doenças anteriores. Competência e liderança política é algo fundamental, embora seja muitas vezes negligenciada. Mas deve ser lembrado que a preparação para uma pandemia representa apenas um aspecto focal na saúde e ênfase isolada nisso não pode virar um substituto para a qualidade dos sistemas de saúde.
  5. Um dos principais fatores relacionados à alta mortalidade entre os países durante a pandemia foi aquele relativo às condições de saúde subjacentes dos cidadãos, ou seja, países com taxas mais altas de diabetes e obesidade acabaram mais propensos a sofrer um alto número de mortes por Covid-19. Isso sugere que a cobertura universal de saúde e a atenção primária de alta qualidade contribuam para a proteção da população, sem esquecer da alocação apropriada de recursos para a prevenção, por exemplo, com incentivos para exercícios físicos e restrições ao fumo e alimentos não saudáveis.
  6. O Commonwealth Fund, uma fundação de saúde com sede nos EUA classificou os serviços de saúde de 11 países ricos com foco em fatores sistêmicos, tais como acesso, processo de cuidados, eficiência administrativa, equidade e resultados de saúde. Os EUA ocupam o último lugar e o Reino Unido o quarto; a Noruega tem o melhor sistema, seguida pela Holanda e Austrália. Todos os outros países gastam muito menos como parcela do PIB em saúde do que os EUA, sugerindo que a política social e as estruturas do sistema de saúde são mais importantes do que os recursos isoladamente.
  7. Uma afirmativa que resume tais questões é a seguinte: a pandemia de Covid demonstrou a influência descomunal da liderança política, confiança no governo e o status socioeconômico de um país, fatores que continuarão a se aplicar muito depois de a Covid ter cedido.
  8. Como disse o empresário e filantropo Bill Gates, em relação aos atuais dilemas, “é preciso praticar e manter a capacidade e não apenas fazer coisas pequenas, pois quando finalmente chegar o grande você não estará preparado.  

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E aqui no Brasil: como estarão a nossa liderança política, a confiança no governo e o status socioeconômico? Tudo abaixo da linha da mediocridade. Se depender do genocida impostor estaremos liquidados… Venha logo, 2022, para que possamos removê-lo!

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Saiba mais:

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Voltarei na segunda quinzena de janeiro. Abraços fraternos e desejo de boas festas a todos – e principalmente um ano em que nos livremos definitivamente do encosto instalado no Planalto.

2 respostas para “Ainda os dilemas da Covid”

  1. A Covid-19 está sendo um longo e sofrido aprendizado, marcado pela imprevisibilidade. Não sabemos quando e como novos impactos virão. Que tenhamos todos dias melhores.

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