Escuta cidadã qualificada versus “controle” social

Com todo respeito, quando leio as leis e regulamentos existentes sobre a participação da sociedade nas políticas públicas no Brasil, especialmente na saúde, o que vejo são fórmulas burocráticas. Podem até ser bem intencionadas, mas seu caráter pesadamente formal e burocrático as torna pouco funcionais. Refiro-me diretamente, por exemplo, ao que nos oferece a Lei Orgânica do SUS, na qual se fala em paridade e poder deliberativo, além de conselhos formados por representações institucionais formais, mas não necessariamente representativas do conjunto dos interesses da sociedade. Não se preocupem, não me tornei, de repente, um herege em relação ao nosso sistema de saúde (embora pense que uma boa dose de crítica possa fortalecê-lo mais do que destrui-lo). É que essas coisas já estão superadas, se é que foram cogitadas, em realidades mais avançadas e dinâmicas do que a brasileira, em termos de democratização do Estado. Em tais questões, para mim seria o caso de nos esforçarmos em deixar de “fazer mais do mesmo”, em troca de inovar e incrementar métodos e conteúdos que valorizariam uma das mais importantes fatores introduzidos na administração pública contemporânea, quais sejam os mecanismos de instrumento de participação social. Vamos então, ao invés de “controle social” e outras alegorias congêneres, tão ao gosto da militância do SUS, pensar em Processos de Ausculta Cidadã Qualificada, nos quais a escolha dos cidadãos deve partir de requisitos menos formais, tendo como foco o interesse direto dos mesmos, seu grau de informação ou até mesmo sua representatividade em termos estatísticos.

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Voluntariado e Saúde

Visando inovar neste espaço, apresentamos hoje um diálogo entre Flavio Goulart e Henriqueta Camarotti sobre a atividade de voluntariado e suas implicações no setor Saúde, coisa que tem muito a ver uma com a outra. Aqui no Brasil somos testemunhas das várias entidades religiosas que se dedicam a isso, pelo menos em suas origens, com especial menção às Santas Casas de Misericórdia, cuja primeira unidade foi fundada no Brasil poucos anos depois da chegada dos portugueses. Sem esquecer das múltiplas entidades espíritas, evangélicas e de matriz afro, sem falar de muitas outras iniciativas derivadas diretamente da sociedade civil, sem qualquer ligação religiosa, que também fazem parte desta ação civil tão especial. Vamos ao tal diálogo, então, ao qual convidamos os leitores a participar.

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Gente rara, mas não invisível

Uma doença pode ser considerada rara, segundo a Organização Mundial de Saúde, quando afeta até 65 pessoas em cada 100 mil indivíduos, ou seja, 1,3 para cada 2 mil pessoas. No Brasil a estimativa é de que existam pelo menos 13 milhões de pessoas com doenças deste tipo; no mundo seriam 300 milhões. Acredita-se que que existam de seis a oito mil tipos dentro de tal categoria. Entre seus portadores, 30% morrem antes dos cinco anos de idade; 75% são crianças e 80% têm origem genética. Alguns desses pacientes não suportam a luz solar; outros não enxergam; muitos têm dificuldades de movimentação; mais outros dependem de oxigênio em balões por toda a vida; há os que dependem de assistência médica contínua; muitos morrem cedo, muito cedo. É muita gente, muito sofrimento, sem dúvida. O que é apenas raro em uma visão do senso comum significa, para esses indivíduos, um fator que lhes avassala a existência, que lhes afeta de maneira extrema, que muitas vezes aniquila sua vida social e causa enormes perdas materiais para suas famílias. Por mais que as cifras globais sejam pequenas, trata-se de uma situação que, em termos quantitativos individualizados, representa nada menos, nada mais, do que 100% de impacto na vida de cada uma das pessoas afetadas. Trago aqui hoje um pequeno exercício ficcional sobre esta questão.

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Vai bem a nossa Saúde?

Pesquisas de opinião sobre qualquer assunto são importantes, mas devem ser analisadas em função do contexto em que são produzidas, além de questões de método, claro.  A recente experiência brasileira com o bolsonarismo – que Los Hermanos Transplatinos acharam por bem reproduzir agora – mostrou um lado obscuro e até mesmo malévolo na interpretação de tais enquetes. De fato, é demasiadamente humano buscar em qualquer fato da vida uma explicação que atenda nossas crenças e interesses, mas a maneira como isso foi feito pelo Gabinete do Ódio instalado no Palácio do Planalto ultrapassou todas as fronteiras da intencionalidade enviesada e da desonestidade. Mas como aqui é um blog honesto, vamos comentar a recentíssima pesquisa sobre a atuação do governo federal na Saúde e outras áreas realizada pelo DataFolha. Não sou daqueles que acham que Datafolha e FSP façam parte de um tipo especial de gabinete do ódio e da mentira, um componente das forças golpistas. Mas também não o exato contrário disso. Para falar a verdade, confio mais na Folha do que em muitos sites que mal e mal disfarçam sua condição de porta-vozes extra oficiais do Governo, dos quais me abstenho de citar nomes. Sem impedimento de que também a FSP tenha seus interesses particulares, que nem sempre são os mesmos da maioria da população ou dos setores menos bem aquinhoados. Mas vamos aos resultados da tal pesquisa, com os comentários devidos.

[ESTE BLOG ESTARÁ EM RECESSO ATÉ O FINAL DE JANEIRO]

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Ainda a condição de morar na rua…

Aproveitando o ensejo de dois posts nas últimas semanas sobre a população em situação de rua no DF e no Brasil, trago aqui hoje aos meus leitores uma tentativa de ficção sobre tal assunto. O Jardineiro de que falo existiu (ou existe) de verdade. Era uma das pessoas em tal situação, uma das milhares que existem aqui em Brasília. Eu vi este rapaz trabalhando ativamente em seu jardim, talvez durante mais de um ano, na quadra 304 Norte. Depois sumiu, mas não sem antes deixar para mim a inspiração para tentar captar a sua mensagem paisagística. Espero que gostem.

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