É a Vida é a Vida e é a Vida! E ela se completa com a Morte

Saudoso Gonzaguinha! Temos direito à vida, por certo, mas há uma diferença profunda entre direito e dever quanto a tal quesito e assim o que defendo é o primeiro termo. No meu caso, o que eu desejo é usufruir, acima de tudo, do direito de ser o único protagonista de minha vida, especialmente nas decisões sobre os cuidados de saúde que eu esteja disposto a receber, principalmente aqueles que me serão destinados na etapa final de minha vida. A gente deve ter, acima de tudo, o direito de viver, mas não (jamais, nunca, never!) o dever de continuar vivo contra a própria vontade. Cabe a cada pessoa, afinal de contas, desenvolver e exercer a percepção de sentido que a vida deve ter e rejeitá-la quando isso escapar de sua concepção de bem vivê-la.  Aos 77 anos de idade, como acabei de completar, refletir sobre isso se torna coisa essencial. E numa contradição apenas aparente, defender o direito à vida implica, diretamente, em refletir sobre o direito à morte, a qual, aliás, nunca é demais lembrar, também faz parte da vida. Estou com Woody Allen, quando ele diz que pensar muito na morte é esperar que a recíproca não seja verdadeira. Eu também tenho pensado muito nela, mas o que defendo é a necessidade de que nós ponhamos mais atenção sobre esta etapa da vida. – Nós, quem, cara pálida, de quem você fala? Falo de todo mundo, desde os cidadãos comuns como eu e você; os políticos, os juristas, os líderes religiosos, os agentes da cultura, os professores e por aí a fora. Sim, meus amigos, não é preciso amar a morte ou desejá-la, mas sim conversar cada vez mais sobre ela, sem preconceitos, sem ideias pré-concebidas, sem medo. Como etapa mais do que natural da existência, além de única, a morte, deve ser “vivida” de acordo com as aspirações e crenças, com a liberdade e a autonomia que as pessoas devem ter. O morrer, mais do que simples destino, deve ser considerado direito humano fundamental, a ser experimentado com dignidade. Enfim, que ninguém seja constrangido a continuar vivo sendo portador do que considera um grau insuportável de sofrimento. Não falo de suicídio, uma questão de saúde pública, objeto de ações específicas da esfera pública, falo de uma boa morte, dentro de limites restritos à decisão individual e de cujo cortejo devem fazer parte a autonomia, a autodeterminação, a dignidade e, no limite, a morte voluntária e assistida. E isso deve incluir: a recusa terapêutica; o direito aos cuidados paliativos, ao invés das “heroicas” experimentações terapêuticas; as funestas iniciativas que porventura venham apenas a prolongar o processo de morrer; e, finalmente, a morte assistida.

Com essas preocupações na cabeça encontrei na internet uma entidade civil, chamada Eu decido: pelo direito de morrer com dignidade, cujo link compartilho com vocês. Apareçam por lá. Vamos discutir o assunto aqui. Eu já me associei.

Acesse: EU DECIDO – Pelo direito de morrer com dignidade

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Aproveito para compartilhar dois textos meus sobre tal assunto.

O declínio do Império Norte-Americano (também na Saúde)

Enquanto Trump vai lançando seus perdigotos grosseiros, mal intencionados ou mentirosos sobre o Brasil e outros países, o mundo gira e revela que cada vez mais a potência mundial de outrora, embora ainda mantenha parte de seu poderio, a graças ao arsenal militar e de outros recursos que ainda possui, vai caminhando em direção ao abismo, tanto simbólico como material. Já ninguém duvida disso, principalmente porque os EUA já perderam quase totalmente sua aura, construída de forma questionável, aliás, de serem paladinos e grandes defensores da democracia no mundo. Neste campo, em comparação com o Brasil, por exemplo, a ciência política independente tem demonstrado que nossos mecanismos de proteção da democracia real foram muito mais eficientes do que os deles, rebaixados que foram por Trump ao estatuto de uma república bananera. O nosso oito de janeiro, embora sem afastar todos os riscos, foi resolvido de maneira muito mais certeira do que o seis de janeiro deles. Se podemos orgulhar da nossa Democracia, o mesmo se pode dizer a respeito do nosso Sistema de Saúde, o SUS, embora este não seja devidamente compreendido por parte da população – até porque ainda precise ser aprimorado, e muito. Mas em comparação com o deles, o nosso SUS ganha disparado…

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Saúde na China

É impossível não ter interesse sobre as coisas que acontecem na China. O foco de nossa curiosidade mais frequentemente se volta para aqueles trens-bala que atravessam o país de ponta a ponta, ligando cidades grandes, médias e pequenas; os prédios que fazem inveja até mesmo àqueles dos Emirados; as estradas abertas em pleno deserto; as enormes construções realizadas em pouco dias; os carros elétricos hoje onipresentes lá (e cá); as cidades enormes e totalmente informatizadas; as tecnologias digitais brotando e se impondo em toda parte etc. E bota etc nisso! Com efeito, pessoas da minha geração se acostumaram a ver este país através de antigas imagens, com as ruas vazias de automóveis e a multidão de pessoas vestidas de maneira uniformizada, para não falar dos tanques na Praça da Paz Celestial reprimindo as pessoas, mas ao mesmo tempo sendo detidos por um único cidadão valente. Mas pelo que vemos hoje, existe uma outra China, real e totalmente diferente. E é sobre esta aí que me pergunto: como são as coisas da saúde por lá? Tal indagação teria, a meu ver, especial cabimento aqui no Brasil, onde a militância triunfalista do SUS apregoa que temos “o maior sistema público de saúde do mundo” – e não deixa por menos! Mas será que isso seria verdade, principalmente se considerarmos o fato de que a nossa população é de apenas a sétima parte da deles, em um país onde a presença estatal é forte em tudo – e não seria também no campo da saúde? Assim, fiz algumas pesquisas para tentar responder a tal questão, que na verdade se desdobra em muitas outras. 

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A saúde e o “pobre de direita”

O conservadorismo no Brasil, apesar de um pequeno recuo em 2025, puxado por mulheres, idosos e gente baixa renda, continua mostrando forte presença.  É o que revela um levantamento da Ipsos-Ipec divulgado na última segunda-feira, 28 de julho, mostrando índices mais baixos de uma série histórica construída desde 2021. Foram ouvidos dois mil entrevistados em 131 municípios entre os dias 3 e 8 de julho, com margem de erro é de dois pontos percentuais. Contudo, apesar de tal decréscimo, metade da população ainda tem perfil considerado de alto conservadorismo, com apenas 8% das pessoas mostrando um perfil mais, digamos, progressista. As pautas são as tradicionais: defesa de prisão perpétua e outros tipos de apoio a pautas de segurança; rejeição do casamento homoafetivo; redução da maioridade penal; apoio à pena de morte; leniência em relação a à posse de armas de fogo. A legalização do aborto, por exemplo, segue com ampla rejeição: 75% dos brasileiros se dizem contra, enquanto apenas 16% apoiam a medida. Alguns segmentos sociais específicos se mostraram mais expressivos em tal redução do índice geral de conservadorismo, embora de forma discreta, foram eles: as mulheres, em geral; as pessoas com mais de 60 anos, curiosamente; as pessoas com ensino fundamental e com renda familiar até 01 salário mínimo; os moradores das regiões N e CO. Por outro lado, certos grupos ficaram ainda mais conservadores, como foi o caso de homens; moradores de capitais; renda acima de 05 salários mínimos; pessoas com curso superior. A pesquisa não entra em detalhes sobre a questão de como essas pessoas percebem e reagem frente aos problemas de saúde, de si mesmas ou da população, mas analisando a questão à luz da proverbial constatação do surgimento no Brasil da estranha figura do pobre de direita, seria possível estimar algumas possíveis consequências deste renitente conservadorismo do modo de ser brasileiro.

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Da violência policial no DF e alhures

Para começar, se me permitem, conto duas histórias inteiramente pessoais. No início dos anos 2.000 eu estava em Salvador com meu filho, Mauricio, que acabara de se formar em Arquitetura na UFMG e tinha interesse em conhecer e documentar as obras de grandes arquitetos brasileiros. Na época, ele não morava em Brasília como hoje, mas vinha aqui com frequência para me visitar e tinha um portfólio repleto de fotos com as obras de Niemeyer e do projeto de Lucio Costa. Em Salvador era sua primeira visita e logo que dispusemos de um tempinho fomos conhecer o Centro Administrativo da cidade, onde predominavam as obras do arquiteto Lelé (João Filgueiras Lima) e ali Maurício pôs-se a fotografar, com certa volúpia, alguns dos prédios do conjunto. Em certo momento, ele se distanciara de mim, mas pude observar, mesmo de longe, que estava em animada interação com um grupo de policiais militares. Aliás, logo percebi que “animação” não era exatamente palavra condizente com a cena. Quando me aproximei vi que os policiais haviam apreendido sua câmera e ameaçaram mesmo levá-lo preso se ele insistisse em argumentar para reaver seu equipamento. Tentei usar minhas prerrogativas de pai e pessoa mais velha, mas foi em vão. Eles o acusavam de estar fotografando o Palácio de Governo, o que, segundo eles, era proibido. Meus argumentos e os dele eram de que não havia ali nenhum indicativo que proibisse tal atitude, mas foram em vão. Conversa vai, conversa vem, pude perceber que havia espaço para uma “negociação”, embora isso não fosse colocado de modo explícito. Não cedemos, mas eu solicitei que me colocassem em contato com o oficial do dia ou alguém assim, pois os três ou quatro que nos cercavam eram simples soldados, sem maior graduação. Com muito custo, através do meu celular, me colocaram em contato com um tenente, que começou resistindo, mas depois de me ouvir por alguns minutos acabou pedindo que eu passasse o telefone para um dos agentes presentes. Ato contínuo a câmera nos foi devolvida, mas o filme (era no tempo das câmeras com filme) retido. Eu agradeci, começamos a nos retirar e resolvi acrescentar um comentário, que depois percebi ser meio sem sentido, porém tentando mostrar agradecimento: que era uma satisfação perceber que a felizmente a polícia era também movida pelos direitos humanos, ao que um dos meganhas respondeu de pronto: esse troço de direitos humanos tá é acabando com a polícia. Pano rápido. Vamos à outra história…

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