Acolhimento em Saúde: responsabilidade de quem?

[Com a colaboração de Henriqueta Camarotti]

“Acolhimento” é um termo muito versátil. Vale para questões afetivas e simbólicas, mas também para definir uma metodologia de trabalho não só em saúde como em outras ações sociais e até mesmo serve ao campo jurídico ou comercial. O dicionário Houaiss registra que a palavra provem do latim vulgar accolligère, com significados de colher, reunir, apanhar, juntar. No uso corrente pode ser “oferecer ou obter refúgio, proteção ou conforto físico; proteger(-se), abrigar(-se), amparar(-se)”; “dar ou receber hospitalidade; hospedar(-se), alojar(-se), recolher(-se)”; “ter ou receber (alguém) junto a si”. E em sentido mais formal ou jurídico pode ser também receber, admitir (algo); aceitar ou dar crédito, levar em consideração (pedido, requisição etc.); atender. A aplicação do conceito de acolhimento em saúde possui pelo menos três dimensões genéricas: (a) como componente de políticas específicas (Humanização e Atenção Básica);(b)  organizacional e ambiental, em termos de estrutura e processos; (c) simbólica, envolvendo aspectos afetivos e de responsabilização individual e coletiva. Este texto se dedica precipuamente a este último componente, mas antes de passar a ele vamos nos deter brevemente nos dois primeiros.

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1001 dias em Gomorra: o triste papel de parte dos médicos na atual pandemia

Mil e um dias de (des)governo. Às vezes me sinto vivendo em tempos bíblicos, de pestes, pragas de gafanhotos, línguas de fogo e dilúvio universal. Ou em algum outro planeta. Por exemplo, quando percebo que entre os médicos, categoria de que faço parte, embora não tão orgulhosamente como outrora, o bolsonarismo ganhou adeptos inumeráveis, dentro de uma perspectiva que escapa à mera ideologia, indo muito além disso para o terreno do caráter (ou da falta dele) ou da desfaçatez e da ignorância. O sentimento de estranhamento se adensou quando vi, há algum tempo, meus colegas da turma de 1971 da velha Faculdade de Medicina da UFMG, que em outros tempos rejeitavam a ditadura militar, reunidos em grupo de whatsapp trocando animadas mensagens de adesão aos arroubos e delírios conservadores e autoritários, quando não negacionistas, “capitaneados” pelo atual ocupante da Presidência da República. É triste e repugnante, sem dúvida. E eles não seriam exceção, eis que leio na revista Cult (ver link ao final) a informação de que grupos de médicos representam hoje uma das mais importantes correias de transmissão de fake news bolsonaristas no Brasil. E, além disso, sob o olhar cúmplice e complacente do Conselho Federal de Medicina e outras entidades de classe, sabotam e desacreditam as normas da OMS, promovendo e prescrevendo falsos medicamentos, questionando as medidas de isolamento, negando, enfim, a pandemia, ao minimizar seus efeitos, em termos de mortes e incapacidades dela decorrentes. O que afinal teria acontecido com aqueles antigos jovens libertários ou, pelo menos esclarecidos, como éramos nos anos 60 e 70? 

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O que será que será (na era pós covid)?

Ainda sob o impacto de 600 mil vidas perdidas no Brasil e das funestas e irresponsáveis ações de nossas autoridades, particularmente diante da patética alocução de Jair Messias na Assembleia Geral da ONU nesta semana (haja adjetivos!), analiso aqui um artigo recentíssimo saído no The Lancet (que como todos sabem, NÃO se trata de uma publicação comunista...), no qual se traz algo tão momentoso quanto  A new strategy for health and sustainable development in the light of the COVID-19 pandemic e seu conteúdo, naturalmente, se coloca em sentido totalmente contrário ao que divulgam as autoridades brasileiras, especialmente em relação ao charlatanismo mal informado e sobretudo mal intencionado do Presidente da República. Antes que sejamos sepultados pela montanha de detritos que projeta nossa vergonha perante o mundo... O artigo em pauta visa contribuir para a construção do futuro pós-pandêmico, no qual será preciso promover e proteger a saúde de todos os cidadãos, para o que os eventos da atual pandemia e de outras crises anteriores têm muito a ensinar. Os autores fazem parte de uma Comissão Pan-Europeia sobre Saúde e Desenvolvimento Sustentável, criada pelo Escritório Regional da OMS para a Europa, sendo eles especialistas de uma ampla variedade de origens institucionais e geográficas, buscando com o presente texto uma agenda ambiciosa para alcançar um futuro saudável e seguro para todos.
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A automorte e os legados da vida

Os versos de Jorge Luiz Borges são impactantes: Não restará na noite uma só estrela. / Não restará a noite. / Morrerei e comigo irá a soma / Do intolerável universo / Apagarei medalhas e pirâmides, / Os continentes e os rostos. / Apagarei a acumulação do passado. / Farei da história pó, do pó o pó. / Estou mirando o último poente. / Ouço o último pássaro. / Lego o nada a ninguém. (O Suicida). É difícil ser neutro quando se trata de tal tema. Uns parecem cultivar a ideia, como Borges; outros fingem ignorá-la; há quem pense que tal coisa só pode acontecer aos outros, sempre longe de si e dos que lhe estão próximos; e há também aqueles traumatizados pela vivência com algum parente ou amigo – mas todos temem tal evento. Uma coisa é certa: é preciso conhecer tal fenômeno mais profundamente, velho como a história da humanidade que é. Aqui no DF, por exemplo, a quantas anda? E no Brasil? O que se faz, no Brasil e no mundo, para conhecê-lo melhor e tentar controlá-lo, como parte de uma política pública? Sua divulgação em notícias de imprensa poderia ser nefasta e potencialmente capaz de desencadear novos casos? De fato, há muitas questões em jogo no cenário. [Este post é mais um trabalho conjunto de Flavio Goulart com Henriqueta Camarotti – vida longa a tal parceria!]

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Terapia Comunitária Integrativa: uma luz sobre um mundo de desigualdade e conflitos

[Trago hoje aqui um post escrito a quatro mãos com minha querida amiga Maria Henriqueta Camarotti, psiquiatra e propagadora de tecnologias sociais e de saúde no DF]. 

A cena apresentada abaixo é uma ficção, mas se prestarmos bem atenção veremos que ela pode ocorrer na atualidade em qualquer parte, na nossa cidade inclusive. Imaginemos um grupo de cidadãos, principalmente formado por mulheres, que passe algumas horas em uma fila, demandando algum serviço público. Poderia ser para matricular um filho na escola, ou obter um cartão para o Bolsa Família, mas para ficarmos na área que dá significado a este blog, suponhamos que seja em uma unidade de saúde, à espera de uma vaga no atendimento. Como geralmente acontece, as pessoas começam a conversar entre si e o tom costuma ser ligado às dificuldades que enfrentam no dia a dia de suas vidas de pessoas pobres (porque rico, como se sabe, não entra em fila de nenhuma espécie).

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