Tremores e trevas em meio à pandemia

Acabo de tomar conhecimento do lançamento do livro No tremor do mundo – ensaios e entrevistas à luz da pandemia, da Editora Cobogó, no qual diversos autores brasileiros, de várias áreas de conhecimento, tratam da repercussão social deste acontecimento que está mudando nossas vidas, qual seja esta fatídica pandemia de Sars-Covid-19. A obra procura não só construir em tempo real memórias desta época tão estranha, como também partilhar imaginações para o futuro, tentando antever o que nos aguarda como humanidade. Ainda não li e creio que a questão da saúde está sendo tratada ali, já que alguns dos autores são de tal área, como o neurocientista Sidarta Ribeiro. Mas de toda forma, diante de uma iniciativa tão necessária, me senti tentado a refletir também sobre o assunto, dentro do foco sanitário, o que ora compartilho com vocês, leitores. Penso que sempre é bom jogar um pouco de luz sobre as trevas e tentar alcançar estabilidade diante de um mundo que se agita em tremores e no qual nada mais parece ser sólido, tal e qual assistimos no presente momento.

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Hesio Cordeiro (1942-2020): in memoriam

Hésio Cordeiro se foi. Para quem não sabe de quem se trata, ele foi um dos principais agentes intelectuais (e mesmo operacionais) da nossa reforma sanitária dos anos 80, ou seja, da própria criação do SUS. Grande perda, não só para o SUS, que perde mais um de seus fundadores para lutar pela sua sobrevivência, mas para o próprio pensamento sanitário no Brasil, infestado hoje em dia por falsos profetas fardados ou dentro do figurino da Faria Lima. Hesio e Sérgio Arouca foram dois gigantes da luta intelectual pela saúde, nos anos 70 e 80, mas ao contrário de Arouca, Hesio era uma pessoa discreta, que nunca se embalou com a política partidária. Seu maior feito, para mim, foi o de ter saído diretamente – e com sucesso – de sua banca acadêmica na UERJ para a Presidência do INAMPS, nos anos 80, comandando diretamente a incorporação deste órgão ao SUS – ou, talvez, vice-versa. Convivi com ele na Comissão Nacional de Reforma Sanitária e nas lutas pela saúde ao longo da Assembleia Nacional Constituinte. É mais uma perda dentro de uma geração de lutadores autênticos em favor da saúde pública no Brasil. Faço a seguir algumas considerações sobre a era de lutas épicas que culminaram na criação de um inédito sistema nacional de saúde para o país, tendo na ativa profissionais de valor humano e intelectual da estatura de Hesio Cordeiro e outros.

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Saúde no Brasil: a Grande Marcha para trás…

O bolsonarismo como fenômeno político existe de fato, sendo inúmeras as análises disponíveis sobre o mesmo, seja de cientistas políticos, sociólogos ou jornalistas, que identificam e tipificam tal fenômeno. Por alguma razão o sufixo “ismo” é também aplicado a alguns governantes (trumpismo, lulismo, janismo, getulismo, bolsonarismo, por exemplo), mas não a outros. Com todos os defeitos e qualidades que possam ter, Obama, Dilma, FCH, Temer, entre outros, para ficar em exemplos recentes, não fizeram jus a tal epíteto. Mas não é bem isso que me ocupa no momento. A análise que pretendo fazer aqui, condizente com as minhas luzes e com um pé na realidade atual do país, é de caracterizar um fenômeno que me parece bastante notório hoje, qual seja o surgimento de um já influente bolsonarismo em saúde, que a meu ver reúne condições para ser delineado, até com certo detalhe. E ele se instala e se avoluma justamente no decorrer de uma paralisia sem precedentes, para não dizer atraso ou mesmo retrocesso, nas políticas de saúde do país, enquanto uma pandemia que já matou 160 mil brasileiros, ainda não perdeu seu fôlego assassino.

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Privatização da Atenção Básica: fala sério!

O Governo Federal acaba de cancelar um decreto emitido ainda na véspera, no qual se abriam porteiras para a iniciativa privada se banquetear no SUS. O Ministro da Cloroquina, ou melhor, da Saúde, certamente envolvido com o hasteamento da bandeira nacional ou com a redação de alguma ordem do dia para sua caserna, nem foi ouvido. E não faria muita diferença se o fosse. Em um país normal isso dificilmente aconteceria ou, se acontecesse, seria imediatamente seguido de uma nota de desculpas e até talvez alguma demissão. Mas desculpa é palavra que não está presente no tosco dicionário do Messias, nem de seus acólitos e demissão só se cogita para quem contraria ordens vindas de cima. Que ninguém acuse tal personagem de imprevisível; ao contrário, previsibilidade (para cometer equívocos) é coisa que não lhe falta. Mas agora falando sério: que tal discutir com maior profundidade a relação entre o SUS e a iniciativa privada? O não-governo deu um pontapé inicial, mas o grande problema deste é que nada que faz merece ser levado a sério. Ou seja, não daria nem para começar a discutir. Mas mesmo assim vou tentar abordar o assunto.

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Deu no New York Times…

O New York Times mostrou no dia 27 último (27/10/2020) como manchete simplesmente o seguinte: Trump e Bolsonaro destruíram as defesas da América Latina contra covid, denunciando para o público americano e para o mundo em geral o comportamento tosco dos dois presidentes negacionistas durante a pandemia, contrariando o bom senso e as orientações de autoridades sanitárias. A manada certamente dirá que se trata apenas de uma mentira “daquele jornal comunista”, se recusando a ver que mais uma vez se colocam a nu as atitudes irresponsáveis desses dois mandatários, que infelicitam mais de 500 milhões de pessoas acima e abaixo da linha do Equador. Para o irresponsável do hemisfério Norte a hora está chegando; para o daqui, esperamos, não passe de 2022.  

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