Com as recentes prisões de generais, coronéis e outros igualmente graduados, os militares brasileiros alcançaram um patamar que lhes era merecido desde a guerra do Paraguai e quarteladas diversas em que se envolveram. Que paguem o preço, é o que desejam os cidadãos, pelo menos aqueles que são, realmente, de bem. Na Saúde, comparando a atuação deles nos governos militares e mais recentemente no desgoverno do inominável & inelegível, pelo menos na ditadura de 64 tiveram o bom senso de entregar o respectivo ministério a civis – que até não se saíram mal. Pelo menos se erradicou a varíola e o bócio endêmico, mas não a corrupção como os milicos gostam de afirmar. Além disso foram dados os primeiros passos para a construção do SUS, com as chamadas AIS – Ações Integradas em Saúde, a partir de 1983. Lembre-se, todavia, que a consolidação de tal movimento se deu, mais uma vez, sob a alçada civil. Sem querer ressuscitar figuras patéticas, como a do General Pesadelo, digo Pazuelo, aquele ilustre personagem que não sabia distinguir o Pará do Amapá e nem tinha ouvido falar de SUS, trago aqui de volta um artigo aqui publicado em um daqueles anos de vergonha, tratando do verdadeiro mico, digo mito, que atribui aos fardados uma insuperável competência na gestão da coisa pública. Apenas para não se esquecer do horror representado por tal pesadelo.
Continue Lendo “O mito da administração militar da coisa pública”Sobre Liderança (no Grande Sertão e alhures)
Depois de mais de 50 anos lendo e relendo este Livro dos Livros que é Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, ainda me ilumino, se não só com a forma e o estilo, mas também com a sabedoria que o texto entrega, por exemplo, a respeito de ser, estar e conviver no mundo; de ajudar a compreender as lições que isso nos traz; de saber ir atrás do quem das coisas; ou de fazer novas perguntas sobre a condição humana. Foi assim que me dei ao trabalho de nele procurar algo fundamental hoje e desde sempre, antes mesmo das leis mosaicas, representadas na figura acima, ou seja, os desafios da liderança nas organizações, desde entre a Jagunçaria até a NASA, passando pelos sistemas de saúde. A pergunta chave seria: o que faz, de fato, algumas experiências de gestão em saúde serem bem sucedidas, ao contrário de outras, que não chegam a alcançar tal status e desaparecem como por encanto? Qual o papel das lideranças nisso? Como pontos de partida, tomo algumas conclusões e desdobramentos desenvolvidos em minha tese de doutorado na ENSP/Fiocruz, na qual estudei a implementação do Programa Saúde da Família no Brasil.
Continue Lendo “Sobre Liderança (no Grande Sertão e alhures)”O trumpismo e a saúde no Brasil
Se você, caro leitor, achou que há algum exagero na relação sugerida pelo título acima, não vou lhe negar a razão, mas posso explicá-la melhor. Quando falo “trumpismo” estou indicando a onda de direita que se levanta em todo o mundo, vitaminada agora pelo agente laranja que ganhou as eleições nos EUA. Já a expressão “saúde no Brasil” pode ser trocada por “políticas sociais”, sejam de interesse dos países em desenvolvimento, como o nosso, ou também, por que não, dos países centrais. Esclarecido? Mas não há dúvida que repercussões imediatas de tal fenômeno já há tempos se revelam, como já vimos no período de testes realizado no país de origem do fenômeno, entre 2016 e 2020. E também aqui, sob a égide de seu tosco imitador tropical e do vampiro que o antecedeu. Assim, já havia indicações de que os mais pobres não seriam contemplados; que imigrantes seriam desprezados e banidos; que mulheres, índios, negros e minorias em geral estariam fora do escopo das políticas; que direitos adquiridos em saúde e outras áreas seriam atirados no lixo. E principalmente que os novos poderosos buscariam atuar sem freios, dentro de uma lógica de que “nós errados estamos mais certos do ‘eles’ certos” – e por aí vai. Entre o espanto e a revolta, contudo, é preciso tentar entender tais acontecimentos, mesmo que não seja possível extrair deles alguma solução, mas pelo menos para não naufragar no cinismo ou na descrença na política ou na humanidade. O fato é que muita coisa mudou no mundo, fazendo com que alguns de nossos velhos dogmas precisem ser revistos ou reciclados, à custa, naturalmente, de sangue, suor e lágrimas. Explico melhor…
Continue Lendo “O trumpismo e a saúde no Brasil”Medicina no Brasil: cada vez mais desigual!
Uma atualização do Censo Demografia Médica, já abordado aqui no blog em diversas ocasiões (ver link ao final), divulgado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) mostra que o Brasil quase duplicou o número de médicos nos últimos 14 anos, passando de 304 mil, em 2010, para cerca de 576 mil, em 2024. Ali se revela, ainda, que nenhum estado registrou diminuição da quantidade de médicos ou da densidade médica nesse período, mantendo-se, porém, as disparidades socioeconômicas e de infraestrutura de saúde nas diferentes regiões do país. Por exemplo, o DF, conta com 6,3 médicos a cada mil habitantes; RJ, com 4,3; SP (3,7); ES (3,6); MG (3,5) e RS (3,4), todos acima da média nacional que é de 3,07 profissionais a cada mil habitantes. Por outro lado, estados como AM, com média de 1,6 médico a cada mil habitantes; AP, com 1,5; PA, com 1,4; e MA, com 1,3, apresentam as menores cifras, embora tenham mostrado incremento superior a 67% nos últimos 14 anos. O próprio presidente do CFM, José Hiran Gallo, em um raro intervalo em sua militância bolsonática, defende a necessidade de políticas públicas focadas na redistribuição de médicos pelo território nacional, com o objetivo de minimizar as desigualdades regionais no acesso à saúde, destacando ainda a necessidade de programas de formação de profissionais voltados para as necessidades específicas de cada região. Disse ele: “Apesar desse quadro mostrar o aumento significativo da presença dos profissionais no país, o CFM entende que se mantém o cenário de desigualdade na distribuição por conta da fragilidade de políticas públicas que estimulem a migração e fixação em áreas distantes ou de difícil provimento”. Os dados do mesmo levantamento realizado em 2023 mostram o seguinte cenário.
Continue Lendo “Medicina no Brasil: cada vez mais desigual!”Armínio Fraga: não é possível voltar ao modelo original do SUS
Armínio Fraga, ex-Presidente do Banco Central no governo FHC e figura carimbada do mercado financeiro, quem diria(!), virou uma referência importante na discussão sobre os rumos do sistema de saúde no Brasil. Os puristas ideológicos odeiam tal coisa, mas de minha parte devo admitir que está valendo a apena ouvi-lo, mesmo sem concordar cem por cento com o que ele ainda dizendo. Em entrevista recente à FSP, assinada pela jornalista especializada em questões de saúde, Claudia Collucci (ver link ao final), ele simplesmente defende que o país caminhe para um sistema de saúde que seja mais um híbrido de alguns modelos europeus, com gestão de serviços terceirizada, não mais algo derivado daquele generoso sonho constitucional de 1988. Nas palavras dele: “Não acredito que seja possível voltar ao modelo original do SUS. Acho que seria mais fácil caminhar para um modelo que seja mais um híbrido de alguns modelos europeus.” De toda forma eu, Flavio Goulart, acredito que não devemos dar ao SUS um estatuto de causa finita, um sistema triunfante, perfeito e acabado. Ao contrário, sua viabilidade dependerá da possibilidade de seu aperfeiçoamento constante, mesmo que a custa da derrubada de alguns mitos e certezas sobre o mesmo (o que a militância naturalmente também repudia). Neste aspecto penso que as ideias de Armínio Fraga devem ser consideradas e somadas a outras, de extração diversa.
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