Leio nos jornais a notícia que já parece fazer parte da paisagem: um homem com uma faca enterrada no tórax teve que esperar quase 48 horas para ser operado em um dos hospitais do DF. Hospital público, no caso, mas poderia ser também privado. Coisas assim não são exclusivas do SUS. Se procurarmos bem, é possível encontrar um feixe de monstruosidades deste tipo também nos hospitais com nome de santa que existem por ai. Mas o certo é que ninguém fala das inúmeras vidas que são salvas diariamente – e não são poucas! – nos hospitais do DF, tanto públicos como privados. Algo assim se aplica também, segundo pesquisas recentes, à divulgação de fake news maliciosas (existiria uma variedade “do bem”?), capazes de circular mais rápida e eficazmente do que as notícias realmente verdadeiras de utilidade pública. Assim funciona a humanidade. Mas é preciso prestar atenção nos contextos. Por exemplo, naquele cartaz habitual na entrada nos serviços de saúde que ameaça “maltratar funcionário público é crime”. Essa turma é realmente “maltratada”? Com frequência? Acredito que sim, mas não vejo preocupação idêntica e recíproca quando a questão é “maltratar usuários”, que também é um evento frequente. Internamente, nos serviços de saúde, há uma história contumaz: o mandatário culpa o subordinado e o subordinado dirige a culpa para mais abaixo, de tal forma que a culpa de tudo o que acontece de ruim na repartição corre o risco de vir a ser da moça do cafezinho. Enquanto isso todos culpam o governo – qualquer governo – e da mesma forma os governos culpam os cidadãos (“por que raios foram votar na gente?”) ou então a “herança maldita” que receberam. Uma coisa é certa: ninguém se assume diretamente culpado. Aquela história de ministros se suicidando de vergonha em frente a câmeras de TV só acontece mesmo entre os japoneses, eita povo bárbaro! É cultural, eu diria… Mas afinal, que cultura é essa? Continue Lendo “Cultura organizacional e saúde”
Prescrição por enfermeira(o) em tempos de Coronavirus: pode? Deve!
Parece que a moda de dar um passo à frente e dois para trás pegou pra valer no Brasil. No Planalto isso acontece quase todo dia, é bem verdade que com preferência pelos passos em pujante marcha a ré. Aqui no DF a Secretaria de Saúde baixou portaria em janeiro pp. permitindo que as enfermeiras (e seus colegas masculinos) pudessem prescrever alguns medicamentos nas unidades de saúde – um avanço, sem dúvida. Um mês depois, todavia, mudou de ideia intempestivamente e revogou o dispositivo, alegando a necessidade de fazer estudos mais aprofundados. Tudo bem, mas seria de se esperar que tais estudos (seriam realmente complexos e herméticos?) já tivessem sido executados quando da publicação da portaria em janeiro. Mas tal não foi o caso. E no resto do mundo, dito civilizado, como acontece? No Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, por exemplo, isso já é um dever de tais profissionais, que ficam assim mais gabaritados a assistir de forma plena os pacientes. Organismos internacionais como a OMS e seu ramo para as Américas, a OPAS, têm defendido uma “prática avançada da enfermagem”, na qual estão previstas as prescrições de exames e de medicamentos. Em tempos pandêmicos (não só em relação a virus, mas também nas besteiras perpetradas pelas autoridades, tal discussão passa a ser essencial! Continue Lendo “Prescrição por enfermeira(o) em tempos de Coronavirus: pode? Deve!”
Os Heróis das Quebradas e o SUS que dá certo
Os livros de história falam sempre dos grandes heróis. Dos Alexandres, dos Quixotes, dos Napoleões, dos Caxias, dos Oswaldo Cruz, dos Churchills e tantos outros. Sancho Pança não costuma ser lembrado… Aqueles lá, os ilustres, são importantes, mas suas vitórias não seriam possíveis se abaixo – ou por detrás – deles não existisse uma legião de gente humilde e anônima. É estes que eu chamo de “Heróis das Quebradas”, pequenos, mas totalmente insubstituíveis! E eles são importantes na saúde também. Nem sempre a marca do que fazem aparece e ganha destaque, porque tem sempre um “grande-herói”, notório e celebrado midiaticamente, para receber as comendas da vitória. Pensando nisso, fiz um pequeno esforço para encontrar alguma “marca dos pequenos heróis” nas ações de saúde, aqui no DF, indo procurar na seção de notícias da SES-DF o possível relato desses feitos. Para tanto, busquei aquilo que se faz nas unidades de Saúde da Família e nos Centos de Saúde da periferia, nos hospitais, nos serviços de vigilância, nos laboratório e outros mais – não nos gabinetes refrigerados, por certo. Levantei apenas a primeira quinzena do mês de fevereiro de 2020, para ter uma ideia geral. Primeira constatação: de mais de 70 notícias, apenas 27 diziam respeito a realizações das (centenas) unidades de prestação de serviços diretos ao público do nosso sistema de saúde. Mas ainda assim havia muita coisa relevante ali… Continue Lendo “Os Heróis das Quebradas e o SUS que dá certo”
E a Medicina, a que será que se destina?
Querido Lucas Carvalho, leio nos jornais que você, com apenas 17 anos conseguiu vaga no curso de medicina na UnB. É um feito e tanto. Parabéns! E seu merecimento fica ainda maior quando vejo que você é filho de uma diarista e de um entregador de bebidas, que é morador de uma remota periferia do DF e que desde a infância já se virava vendendo brigadeiros na escola. E mais: sonhava ser músico e não deixou por menos, hoje é saxofonista profissional! É muita conquista para uma pessoa só. Parabéns de novo! Nem eu nem a maioria das pessoas conhece, de perto, as intempéries e os acidentes de percurso que você deve ter enfrentado para chegar onde está. Então, você quer ser médico… Sem dúvida, é uma boa escolha. Mas talvez eu, do alto dos meus 71 anos e quase 50 de formado nesta profissão, possa lhe trazer alguma informação que você talvez ainda não tenha recebido ou percebido por si só. Ou talvez já o tenha… De toda forma, me desculpe se repito o que você já sabe e chovo no molhado. Continue Lendo “E a Medicina, a que será que se destina?”
Mais um ano se passou na saúde do DF
Um ano se passou e o GDF, como é costume nos aniversários de governo, comemora seus feitos . Na saúde, sinceramente, não chego a dizer que os resultados são falsos, mas o que se mostra é uma série de números pouco expressivos. Pode ser até que traduzam bons resultados em algumas áreas, mas do ponto de vista de comunicação e, principalmente, de demonstração de alguma ação articulada e voltada para as reais necessidades da população, os números apresentados, frios como uma lápide, pouco ou nada dizem. Continue Lendo “Mais um ano se passou na saúde do DF”
