[Texto em coautoria com Henriqueta Camarotti – Médica psiquiatra e Gestalt-terapeuta em Brasília.] O sistema de saúde é remunerado (e, portanto, movido) em quase toda parte do mundo, por raciocínios relativos a “volumes” (ou quantidades) e não a resultados e valores. Mas atualmente existe um conceito novo sobre isso, a saúde baseada em valor, ou seja, um modo de prestação de cuidados de saúde em que os prestadores são pagos com base nos resultados de saúde do paciente, em termos de reduzir os efeitos e a incidência de doenças crônicas e assim permiti-los viver vidas mais saudáveis. Sem esquecer que também está em jogo gastar menos dinheiro, com maior eficiência. Isso acarretaria em benefícios não só para os sistemas de saúde em sua totalidade, mas também para prestadores, financiadores e para a sociedade como um todo. Até aí tudo bem, mas é preciso pensar também a partir do ponto de vista dos pacientes, que afinal de contas deveriam representar o foco primordial da existência de tais sistemas. Do ponto de vista destes, é preciso ir além de apenas se gastar menos e incrementar a eficiência, para se conseguir, de fato, um melhor atendimento. Assim, em modelos de cuidados baseados em valor, o que deveria ser almejado, mais do que simplesmente baixar custos, oferecer suporte aos pacientes para a se recuperarem de doenças e lesões mais rapidamente e evitarem doenças crônicas, dando como resultado menos consultas, exames e procedimentos médicos, com menor gasto com medicamentos. Além disso, garantir satisfação com o atendimento, promover a humanização e a ética dos cuidados, com vistas na qualidade de vida, na prevenção de recaídas ou novas enfermidades. Vamos refletir um pouco sobre tal conceito, em relação a sua aplicação à saúde mental.
Continue Lendo “A Saúde Mental e a noção de Valor”Políticas de Saúde comparadas: Participação Social em Portugal e no Brasil
[Ainda surfando na onda cívico-energética trazida pela 17a. Conferência Nacional de Saúde, trago hoje aos leitores algumas informações sobre o tema da Participação Social]
Em fevereiro de 2019, vivendo em Portugal durante um período sabático, publiquei aqui um texto comparativo entre os sistemas de participação social em saúde nos dois países (ver link ao final). Algumas diferenças marcantes, foram apontadas por mim, entre elas a relativa modéstia da legislação portuguesa ao ponto de parecer, por exemplo, excludente em relação ao segmento dos usuários, apesar de mostrar uma feição mais polissêmica, com níveis de representação múltiplos e diferenciados e atores diversificados, além de situados em diferentes pontos da cadeia democrática. Neste aspecto, é preciso distinguir que o sistema político português é parlamentarista desde sua base municipal e no qual o princípio da “separação de poderes” faz pouco sentido. Os usuários (utentes) de fato estão pouco representados no sistema português, sendo mesmo escolhidos de forma indireta, pelo Legislativo e não por organismos da própria sociedade. Mas em compensação os mecanismos democráticos são bem mais amplos e ramificados neste país, com um sistema representativo parlamentarista, de forte base local (voto distrital) e mecanismos de prestação de contas mais apurados por parte dos representantes. No fundo, é como se a democracia em Portugal se distribuísse igual a “raízes de grama”, não através de uma plantinha aqui e outra ali, para usar uma imagem da natureza. O sistema brasileiro promete deliberação e autonomia das decisões dos conselhos e conferências, mas na verdade não se mostra capaz de cumprir tais requisitos, até mesmo porque eles se chocam com os dispositivos constitucionais em vigor, nos quais se o poder se realiza “em nome do povo”, de forma intransferível ele é exercido, de forma indireta, por parte dos governos. Com satisfação recebo agora um documento oficial e atual sobre tal quesito, originário do Conselho Nacional de Saúde de Portugal, o que passo a comentar no link abaixo.
Continue Lendo “Políticas de Saúde comparadas: Participação Social em Portugal e no Brasil”No campo da Saúde, o bom senso deve ser diferenciado do que é apenas senso comum
A frase acima é minha mesmo e há anos venho refletindo e acrescentando exemplos a ela. Isso porque na Saúde, juntamente com o Futebol, o senso comum, ou, se quiserem, as opiniões de gente que não compreende e domina de fato tais atividades, sejam mais frequentes – e além disso, equivocadas. Não estou querendo dizer que saúde é coisa só para médicos, enfermeiros e outros profissionais. Nada disso! O que pretendo defender aqui e agora é que Saúde é algo que ultrapassa – e muito! – tais campos profissionais, mas que ao mesmo tempo depende de conhecimento e de coerência, em oposição àquelas afirmativas sem pé nem cabeça que a gente ouve desde sempre e por todo lado. Vox populi, vox dei, já diziam os antigos romanos (devem ter sido eles mesmos…), mas trocar Deus (ou a Ciência) pelo que diz o homem-da-rua, assim, tão simplesmente, sem maiores considerações e intermediações, é algo arriscado e que tem gerado muito mal entendido por aí. Os políticos, por exemplo, adoram repetir essas coisas e mesmo fazer delas suas plataformas eleitorais. Ter informação adequada é tudo – e nem todo mundo a tem! Dito isso, vai nas linhas seguintes uma série de afirmativas ao gosto do famigerado senso comum, que até pode ser coisa respeitável por um lado, mas por outro, não muito confiável em determinadas circunstâncias. Como tentarei demonstrar nos comentários a seguir, sob a forma de decálogo (que poderia contar, entretanto, com muitos outros tópicos).
Continue Lendo “No campo da Saúde, o bom senso deve ser diferenciado do que é apenas senso comum”Um diálogo sobre a formação médica na atualidade
Há algumas semanas apresentei aqui, junto com Henriqueta Camarotti, algumas reflexões sobre o que seria uma boa formação médica (ver link: https://saudenodf.com.br/2023/04/04/3809/). Na ocasião, solicitei a alguns colegas com experiência docente em saúde, que manifestassem suas opiniões sobre as propostas apresentadas. Alguns responderam e trago aqui uma síntese de suas generosas participações, sob a forma de um diálogo, que na verdade não aconteceu em tempo real. Assim, vou identifica-los: LC é Luiz Augusto Casulari, da ESCS de Brasília; CL é Carmem Lavras, da PUC de Campinas; AR é Armando Raggio, da Fiocruz de Brasília, somando a isso a participação da própria Henriqueta, do Núcleo de Ciência, Arte, Filosofia e Espiritualidade do CEAM/UnB.
Continue Lendo “Um diálogo sobre a formação médica na atualidade”Conceitos de Saúde e doença: uma breve história
Há várias maneiras de se fazer um pão. A mais simples é adicionar água, farinha, sal e um pouco de fermento. Outro modo é juntar tudo isso e mais óleo, manteiga, castanhas, frutas, temperos, além de aditivos diversos. A diferença entre um produto e outro será notável, naturalmente. Digo isso porque a interpretação de o que é saúde e o que é doença obedece a uma lógica semelhante. Existem métodos simples de fazê-lo, mas se pode também adicionar certos temperos que acabarão por trazer ao resultado uma potência explicativa maior. Afinal de contas, se o organismo humano já é complexo por si só, os fatores que o ofendem, vindos de fora ou mesmo de dentro, também existem dentro de cenários que não são nada simplórios, ou lineares. Assim, por exemplo: em uma concepção simplificada, um organismo, humano ou não, adoece quando é atacado por um vírus, bactéria, trauma ou uma alteração química interna. Alguns podem pensar ser uma interferência de outro tipo de fator externo, de natureza sobrenatural ou outro nome que se queira atribuir a tanto. Como resposta a isso, o ser atacado pode ser recuperado – ou não – pela própria natureza, mas como é mais comum nos dias de hoje, através do recurso a algum fator curador, que pode ser – e geralmente é – um médico ou outro profissional igualmente qualificado. Eventualmente também algum xamã, pajé ou curandeiro. Há lugar para todos esses personagens. Até aí tudo bem, mas tal equação (agente + hospedeiro = adoecimento) tem natureza muito mais complexa do que aparenta, sendo que cada uma de suas varáveis também está ligada a uma sequência extremamente variada de fatores próprios. Assim, o que seria apenas uma forma linear, na visão mais simples, (a + b = c) se transforma em uma figura que lembraria mais uma árvore, e muito ramificada. É sobre a história e algumas ramificações em torno dos conceitos de Saúde e de Doença que vou falar aqui, sem necessariamente esgotar o assunto.
Continue Lendo “Conceitos de Saúde e doença: uma breve história”