Chico, a Revolução dos Cravos e a Saúde em Portugal

Portugal entrou pra valer em nossa vida na última semana. Lula esteve lá, Chico recebeu o prêmio que a horda fascista lhe quis sonegar e a Revolução dos Cravos fez 49 anos. Adoro este país, tanto que nos últimos 10 anos estive lá nada mesmo do que cinco vezes. E quero voltar outras tantas, ora se quero! Aqui mesmo no meu blog já publiquei diversos textos sobre essas minhas viagens (ver link), particularmente analisando a situação da saúde, que evoluiu muito nos últimos anos. Sobre Lula e Chico não há muito o que dizer: a imprensa e muitos de nós já disseram tudo. Os direitistas de lá e de cá também, mas não vale a pena ouvir e muito menos valorizar suas perorações, caso para psiquiatras, quando não veterinários. Mas Chico, esta rara unanimidade – à qual me associo – na minha visão cometeu um equívoco sobre Portugal há décadas atrás, quando resolveu refazer a lindíssima letra de Tanto Mar, para acrescentar uma nota de desgosto com o rumo que a revolução tomara. Disse ele: já murcharam tua festa, pá. Tenho minhas dúvidas se foi realmente assim. A sobredita Revolução dos Cravos foi, na verdade um golpe militar (no caso e excepcionalmente para o bem) que encerrou a ditadura salazarista. De fato, não foi só Chico Buarque que ficou contente. Nós todos, o que amamos a Democracia, ficamos alegres e esperançosos de que no Brasil houvesse, na ocasião, algo igual, porém sem militares, claro. Militares, entre outros defeitos, sabem dar golpes, mas têm dificuldades em sair dos estados de exceção que criam. Assim, algum tempo depois, o nosso vate coloca na canção seu sentimento de decepção. Ele se referia à derrota dos comunistas e dos militares de esquerda nas primeiras eleições gerais depois do golpe. Chico não gostou de tais mudanças, mas na verdade apenas aconteceu o que é comum e até desejável nas democracias que fazem jus a tal nome: a fila andou e o poder mudou de mãos, fazendo rodízio entre centro, centro-direita e centro-esquerda – e vem sendo assim desde então. Melhor para eles… Toda unanimidade é de fato perigosa: até Chico, um gênio da melodia e das letras, prêmio Camões de 2019, comete seus erros. Mas este tem créditos suficientes, está mais do que perdoado. Falemos de saúde, que depois da Revolução dos Cravos mudou, literalmente, da água para o vinho, em Portugal.

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Covardia e abuso contra as mulheres: o que os serviços de saúde podem oferecer? 

[O post de hoje conta com a valorosa colaboração da querida Henriqueta Camarotti] Disse o Papa Francisco: “Pelo modo como tratamos o corpo da mulher, vê-se o nosso nível de humanidade”. Isso nos leva à indagação de por que as reações face aos assassinatos, espancamentos e outras violências contra mulheres são muitas vezes pouco expressivas na sociedade? É o caso de se questionar também por que somente pequena parte desses crimes encontra abrigo da mídia? Seria porque a vítima eventual não pertenceria a uma classe média afluente ou alta, tendo, assim, um ciclo de relações no qual, certamente, há advogados, jornalistas e outras pessoas bem relacionadas? Da maioria de tais casos, não há como negar, só se lembram as famílias e os amigos mais próximos. Nenhuma nota no jornal, ou talvez apenas uma, dando conta de seu desaparecimento ou do achado do cadáver. Depois, silêncio. E sua cúmplice imediata e íntima, a omissão. Pois é, quando eu (Flavio) estive no Quebec, alguns anos atrás, fiquei impressionado com o fato de que, na primeira página de um jornal de ampla circulação, havia uma notícia sobre uma ignota mulher que fora espancada pelo marido no dia anterior. E era uma matéria detalhada, com fotos da vítima e do agressor, além de depoimentos de vizinhos. A primeira impressão foi que se tratava de provincianismo midiático, nada mais. Com certa ironia mórbida, imaginei que se a moda chegasse ao Brasil os jornais abririam suas edições com o caderno de classificados, contendo os espancamentos do dia de mulheres, de Abigail a Zulmira. Mas logo compreendi que aquilo era um abuso que maltratava não apenas aquela pobre mulher, seus parentes e amigos mais próximos, mas afetava a sociedade como um todo. Já aqui entre nós há um permanente séquito de marias, de helenas, de isabéis, de antônias, de penhas e tantas mais, em um cortejo, anônimo, silencioso, imerso nas sombras, distante dos holofotes. E dói vê-lo passar, ou, pelo menos saber de sua existência. O fato é que os assassinatos de mulheres praticados por homens, muitas vezes seus companheiros (ou ex), deveriam chocar o imaginário dos brasileiros. Mas será que de fato estarrecem? Impressionante como isso é feito de maneira covarde por homens com que essas mulheres mantinham alguma forma de relacionamento. O que mantinha esses casais juntos antes de tal tragédia acontecer? Lamentável, como todos os crimes contra a vida; mais ainda se as vítimas não têm como se defender, como mostram as evidências factuais.

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Participação Social em Saúde: no DF e alhures

Sou informado pela página da SES-DF que estão sendo preparadas em nossa cidade as Conferências regionais de saúde, que antecipam a Conferência Nacional a ser realizada em julho próximo. Assim, no último dia 15 de março a Região de Saúde Centro-Sul reuniu representantes dos usuários, trabalhadores e gestores na etapa regional da 11ª Conferência Distrital de Saúde, com cerca de 250 pessoas presentes, vindas de uma área que abrange as regiões administrativas da Candangolândia, Cidade Estrutural, Guará, Park Way, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo, Riacho Fundo II, SIA e SCIA. Ótimo, melhor impossível! Mas este tema da participação social em saúde, impropriamente denominado “controle social” pelos militantes do SUS mais renhidos, mesmo que se leve em consideração os avanços alcançados após a nova Constituição Federal, ainda é objeto de muita discussão, restando muita coisa a fazer para aperfeiçoar tal sistema. Aqui no blog tenho trazido frequentemente tal assunto ao cenário, como demonstram os inúmeros links mostrados ao final deste texto. A verdade é a seguinte: mesmo o que está bom, pode ser melhorado! Tentarei assim trazer um panorama, nas linhas seguintes, de como isso poderia acontecer, colocando lado a lado o que já foi possível alcançar até agora e o que ainda se pode aprimorar na participação social do SUS.  

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Afinal, o que seria uma “boa formação médica”?

Em texto anterior aqui no blog (https://saudenodf.com.br/2023/03/20/a-formacao-medica-e-o-distrito-federal/#more-3785) comentei alguns dados sobre a formação médica no âmbito do DF, mostrando também que seus eventuais reflexos sobre a assistência à saúde em nossa cidade representariam apenas  “mais do mesmo”, em termos de elitismo e concentração geográfica e tecnológica, além do reduzido impacto sobre os serviços prestados diretamente no sistema público.   Com efeito, duvido muito que as seis faculdades de medicina que existem por aqui, com seus quase 500 formandos anuais, todas convergentes na lógica hospitalocêntrica e centrada na doença, tenham potencial para equacionar as dificuldades que a assistência médica exibe aqui no DF, entre as quais podem ser citadas: a escassez de médicos nas unidades mais periféricas do sistema; a crise permanente de oferta de algumas especialidades; a falta de ênfase na formação generalista, essencial em qualquer sistema de saúde; a ortodoxia das práticas pedagógicas nas escolas médicas. Além disso, o verdadeiro regime de laissez-faire na formação médica instalado aqui e em todo o país mostra que são os “mercados” e não as necessidades coletivas que ditam as diretrizes para a formação médica. Mas o que seria, afinal, uma “boa formação médica”, em termos de conteúdo e práticas pedagógicas? Acrescente-se a isso questões, digamos, mais filosóficas, que comporiam a resposta à pergunta que também formulei no texto anterior: a quem interessa o atual estatuto? Já até arrisquei uma resposta genérica no texto anterior: ao SUS é que não é... Vamos desenvolver o tema um pouco mais nas linhas seguintes. Hoje contando com o auxílio luxuoso da querida Henriqueta Camarotti.

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Cinco anos de SAÚDE NO DF

Por esses dias, mais exatamente no dia 26 de março, este blog completa cinco anos e existência. Ao longo destas mais de 250 semanas foram apresentados aqui 319 textos, todos de minha autoria, com mais de 450 interações, versando sobre temas diversos de Saúde, não apenas com foco na situação do Distrito Federal, mas também do Brasil como um todo. Nos últimos dois anos duas situações dominaram o cenário: a epidemia de Covid, naturalmente, além do descalabro provocado pela dupla Bolsonaro e Queiroga. Foi dificil fugir desses temas, mas agora, pelo menos o segundo deles virou coisa do passado. As esperanças presentes não deixarão de lado o necessário espírito critico que sempre mantivemos aqui. Para comemorar esta data de aniversário e de sucesso, que sempre agradeço à cumplicidade e a atenção dos leitores, trago aqui uma sequência de publicações de nosso último ano, mediante escolha pessoal minha, que creio demonstrarem o alcance e a profundidade de nossas postagens, semanais. Espero que os leitores apreciem e que esta compilação, assim como o blog por inteiro possam ter alguma utilidade para quem se interessa e quer lutar por uma saúde melhor para os cidadãos de Brasília e do Brasil!    

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