Imagino que esta seja uma palavra antiga na língua, mas que vem sendo usada com bastante frequência nos últimos anos. Sua aplicação mais usual refere-se à negação da existência da pandemia de Covid ou, pelo menos, recusa de enquadrar tal fenômeno dentro de uma lógica científica, se transformando em um quase sinônimo de bolsonarismo, em sua vertente, digamos, sanitário-cultural. Mas tal palavra espelha um conjunto muito mais amplo de situações, se estendendo também para fora do campo da saúde, dentro de um espectro que vai da ignorância pura e simples dos fatos à recusa em compreendê-los; da postura de avestruz em relação à realidade, à crença em realidades paralelas; das explicações fantasiosas dos fenômenos da vida ao crédito irrestrito às maluquices que vicejam nas redes sociais. Exemplos como o da terra plana, da crise climática ou da inocuidade ambiental da exploração do petróleo não faltam, ao contrário, abundam (palavra adequada…) em toda parte. Aliás, parece mais correto falar de negacionismos, assim no plural, pois as evidências mostram que quase sempre as negações da realidade se estendem a áreas diversas do conhecimento humano, como uma mancha de óleo (ou de esgoto) a se espalhar no oceano. O fato é que prospera no mundo atual o fenômeno traduzido por tal palavra, seja no singular ou no plural, já em vias de se transformar em uma mais uma marca essencial dessa nova era de pós-verdades, ilusões coletivas e manipulações do inconsciente coletivo de variadas naturezas, já antecipadas por Orwell em seu famoso 1984. Na área da saúde os efeitos perversos do negacionismo são evidentes e em muitos aspectos se fazem notar, como é o caso da queda acentuada das imunizações, verificada não só no Brasil como em outros países.
Continue Lendo “Negacionismo(s)”É a Vida é a Vida e é a Vida! E ela se completa com a Morte
Saudoso Gonzaguinha! Temos direito à vida, por certo, mas há uma diferença profunda entre direito e dever quanto a tal quesito e assim o que defendo é o primeiro termo. No meu caso, o que eu desejo é usufruir, acima de tudo, do direito de ser o único protagonista de minha vida, especialmente nas decisões sobre os cuidados de saúde que eu esteja disposto a receber, principalmente aqueles que me serão destinados na etapa final de minha vida. A gente deve ter, acima de tudo, o direito de viver, mas não (jamais, nunca, never!) o dever de continuar vivo contra a própria vontade. Cabe a cada pessoa, afinal de contas, desenvolver e exercer a percepção de sentido que a vida deve ter e rejeitá-la quando isso escapar de sua concepção de bem vivê-la. Aos 77 anos de idade, como acabei de completar, refletir sobre isso se torna coisa essencial. E numa contradição apenas aparente, defender o direito à vida implica, diretamente, em refletir sobre o direito à morte, a qual, aliás, nunca é demais lembrar, também faz parte da vida. Estou com Woody Allen, quando ele diz que pensar muito na morte é esperar que a recíproca não seja verdadeira. Eu também tenho pensado muito nela, mas o que defendo é a necessidade de que nós ponhamos mais atenção sobre esta etapa da vida. – Nós, quem, cara pálida, de quem você fala? Falo de todo mundo, desde os cidadãos comuns como eu e você; os políticos, os juristas, os líderes religiosos, os agentes da cultura, os professores e por aí a fora. Sim, meus amigos, não é preciso amar a morte ou desejá-la, mas sim conversar cada vez mais sobre ela, sem preconceitos, sem ideias pré-concebidas, sem medo. Como etapa mais do que natural da existência, além de única, a morte, deve ser “vivida” de acordo com as aspirações e crenças, com a liberdade e a autonomia que as pessoas devem ter. O morrer, mais do que simples destino, deve ser considerado direito humano fundamental, a ser experimentado com dignidade. Enfim, que ninguém seja constrangido a continuar vivo sendo portador do que considera um grau insuportável de sofrimento. Não falo de suicídio, uma questão de saúde pública, objeto de ações específicas da esfera pública, falo de uma boa morte, dentro de limites restritos à decisão individual e de cujo cortejo devem fazer parte a autonomia, a autodeterminação, a dignidade e, no limite, a morte voluntária e assistida. E isso deve incluir: a recusa terapêutica; o direito aos cuidados paliativos, ao invés das “heroicas” experimentações terapêuticas; as funestas iniciativas que porventura venham apenas a prolongar o processo de morrer; e, finalmente, a morte assistida.
Com essas preocupações na cabeça encontrei na internet uma entidade civil, chamada Eu decido: pelo direito de morrer com dignidade, cujo link compartilho com vocês. Apareçam por lá. Vamos discutir o assunto aqui. Eu já me associei.
Acesse: EU DECIDO – Pelo direito de morrer com dignidade
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Aproveito para compartilhar dois textos meus sobre tal assunto.
O declínio do Império Norte-Americano (também na Saúde)
Enquanto Trump vai lançando seus perdigotos grosseiros, mal intencionados ou mentirosos sobre o Brasil e outros países, o mundo gira e revela que cada vez mais a potência mundial de outrora, embora ainda mantenha parte de seu poderio, a graças ao arsenal militar e de outros recursos que ainda possui, vai caminhando em direção ao abismo, tanto simbólico como material. Já ninguém duvida disso, principalmente porque os EUA já perderam quase totalmente sua aura, construída de forma questionável, aliás, de serem paladinos e grandes defensores da democracia no mundo. Neste campo, em comparação com o Brasil, por exemplo, a ciência política independente tem demonstrado que nossos mecanismos de proteção da democracia real foram muito mais eficientes do que os deles, rebaixados que foram por Trump ao estatuto de uma república bananera. O nosso oito de janeiro, embora sem afastar todos os riscos, foi resolvido de maneira muito mais certeira do que o seis de janeiro deles. Se podemos orgulhar da nossa Democracia, o mesmo se pode dizer a respeito do nosso Sistema de Saúde, o SUS, embora este não seja devidamente compreendido por parte da população – até porque ainda precise ser aprimorado, e muito. Mas em comparação com o deles, o nosso SUS ganha disparado…
Continue Lendo “O declínio do Império Norte-Americano (também na Saúde)”Saúde na China
É impossível não ter interesse sobre as coisas que acontecem na China. O foco de nossa curiosidade mais frequentemente se volta para aqueles trens-bala que atravessam o país de ponta a ponta, ligando cidades grandes, médias e pequenas; os prédios que fazem inveja até mesmo àqueles dos Emirados; as estradas abertas em pleno deserto; as enormes construções realizadas em pouco dias; os carros elétricos hoje onipresentes lá (e cá); as cidades enormes e totalmente informatizadas; as tecnologias digitais brotando e se impondo em toda parte etc. E bota etc nisso! Com efeito, pessoas da minha geração se acostumaram a ver este país através de antigas imagens, com as ruas vazias de automóveis e a multidão de pessoas vestidas de maneira uniformizada, para não falar dos tanques na Praça da Paz Celestial reprimindo as pessoas, mas ao mesmo tempo sendo detidos por um único cidadão valente. Mas pelo que vemos hoje, existe uma outra China, real e totalmente diferente. E é sobre esta aí que me pergunto: como são as coisas da saúde por lá? Tal indagação teria, a meu ver, especial cabimento aqui no Brasil, onde a militância triunfalista do SUS apregoa que temos “o maior sistema público de saúde do mundo” – e não deixa por menos! Mas será que isso seria verdade, principalmente se considerarmos o fato de que a nossa população é de apenas a sétima parte da deles, em um país onde a presença estatal é forte em tudo – e não seria também no campo da saúde? Assim, fiz algumas pesquisas para tentar responder a tal questão, que na verdade se desdobra em muitas outras.
Continue Lendo “Saúde na China”A saúde e o “pobre de direita”
O conservadorismo no Brasil, apesar de um pequeno recuo em 2025, puxado por mulheres, idosos e gente baixa renda, continua mostrando forte presença. É o que revela um levantamento da Ipsos-Ipec divulgado na última segunda-feira, 28 de julho, mostrando índices mais baixos de uma série histórica construída desde 2021. Foram ouvidos dois mil entrevistados em 131 municípios entre os dias 3 e 8 de julho, com margem de erro é de dois pontos percentuais. Contudo, apesar de tal decréscimo, metade da população ainda tem perfil considerado de alto conservadorismo, com apenas 8% das pessoas mostrando um perfil mais, digamos, progressista. As pautas são as tradicionais: defesa de prisão perpétua e outros tipos de apoio a pautas de segurança; rejeição do casamento homoafetivo; redução da maioridade penal; apoio à pena de morte; leniência em relação a à posse de armas de fogo. A legalização do aborto, por exemplo, segue com ampla rejeição: 75% dos brasileiros se dizem contra, enquanto apenas 16% apoiam a medida. Alguns segmentos sociais específicos se mostraram mais expressivos em tal redução do índice geral de conservadorismo, embora de forma discreta, foram eles: as mulheres, em geral; as pessoas com mais de 60 anos, curiosamente; as pessoas com ensino fundamental e com renda familiar até 01 salário mínimo; os moradores das regiões N e CO. Por outro lado, certos grupos ficaram ainda mais conservadores, como foi o caso de homens; moradores de capitais; renda acima de 05 salários mínimos; pessoas com curso superior. A pesquisa não entra em detalhes sobre a questão de como essas pessoas percebem e reagem frente aos problemas de saúde, de si mesmas ou da população, mas analisando a questão à luz da proverbial constatação do surgimento no Brasil da estranha figura do pobre de direita, seria possível estimar algumas possíveis consequências deste renitente conservadorismo do modo de ser brasileiro.
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