Recomendar cloroquina para tratar covid; considerar a pandemia uma “gripezinha”; postergar a compra de vacinas; nomear um milico obtuso para Ministro da Saúde; delegar a pastores evangélicos a negociação de verbas públicas; tentar acabar com a atual pandemia por decreto. Ninguém precisa ser opositor do atual governo, basta ser honesto intelectualmente e dispor de algum bom senso, para admitir que as medidas utilizadas pelo bolsonarismo para enfrentar a pandemia de Covid 19 foram, na melhor das hipóteses, equivocadas, mas, além disso, misturaram ideologia e má fé. Com efeito, existe no cenário um valor chamado evidências e as práticas nelas baseadas são essenciais para a fundamentação de decisões clínicas ou políticas na saúde, seja de alcance individual ou coletivo. Vamos considerar que no calor da pandemia, com as incertezas do cenário de emergência, algumas vezes, talvez, as tais evidências, em sua totalidade, não estiveram ao alcance da mão dos tomadores de decisão no Palácio do Planalto e no Ministério da Saúde. Mas nem de longe esta turma procurou vincular suas tomadas de decisão às evidências já então disponíveis. Aliás, ignorou-as solene e acintosamente. Trago aqui hoje uma análise produzida pelo IPEA e respeito de dois focos de atuação do Ministério da Saúde ao longo da pandemia, na qual se conclui que o processo de tomada de decisão do mesmo se viu profundamente marcada pelo desprezo a quaisquer possíveis evidências científicas seja na formulação e/ou na implementação de políticas e ações concernentes. Bem ao contrário, tais decisões estiveram estritamente vinculadas aos valores políticos do governo de plantão. Uma síntese de tal artigo é apresentada a seguir.
Continue Lendo “Covid no Brasil: não-políticas de um não-governo, baseadas em evidências zero…”Impulsividade e acidentes de trânsito
Nossos dois últimos posts trouxeram informações sobre a mortalidade no trânsito em Brasília, demonstrando que nossa cidade, embora possa melhorar – e muito – seu desempenho nesse aspecto, ainda guarda uma posição de destaque no cenário brasileiro. Isso pode nos confortar, mas não seria o bastante para dormirmos em paz. Temos também que buscar comparações com países que evoluírem neste quesito. Sim! Não precisamos chegar perto de Tóquio, mas Manaus e Belém, com todo respeito, não devem ser nossos parâmetros. Nos dois posts referidos, contudo, pouco se falou sobre as explicações do fenômeno no terreno da psique dos envolvidos, sejam vítimas ou ofensores. Este é um território movediço, sobre o qual muito preconceito anda solto, por exemplo, nas afirmativas de que os motociclistas são sempre imprudentes; de que os pobres dirigem mal; de que as mulheres não são hábeis no volante; de que há pessoas naturalmente propensas a acidentes, seja em casa, na rua ou no trabalho; de que os portadores de distúrbios mentais são usuais causadores de acidentes; na culpabilização das vítimas e assim por diante. Pensando nisso, resolvi trazer aqui algum esclarecimento a respeito. Não se trata de um trabalho novo, pois remonta ao ano de 2009, mas creio que ainda contribui para o debate. Ele intitula-se Impulsividade e acidentes de trânsito e realiza a meta análise de uma série de trabalhos científicos sobre tal assunto. Pretendo retomar a tal tema oportunamente, com a especial ajuda de Henriqueta Camarotti. O trabalho é referenciado em link ao final. Vejamos suas conclusões.
Continue Lendo “Impulsividade e acidentes de trânsito”Violência em Brasília: no Trânsito, como estamos?
Brasília, com suas vias largas, que convidam à velocidade, seu número abundante de veículos circulando, é vista pelo senso comum como uma cidade na qual os acidentes de trânsito não seriam apenas muito frequentes como revestidos de maior fatalidade. Alguns acham que nossos motoristas seriam mais imprudentes do que os demais no país. Seria isso verdade? É bom lembrar que, ao mesmo tempo, Brasília foi a cidade pioneira no Brasil no estabelecimento do respeito às faixas de pedestres, fato que ainda hoje nos traz bastante orgulho. Vejamos o que dizem as estatísticas, dentro de uma comparação com as demais capitais do Brasil. Os dados mostram que ainda precisamos melhorar – e muito – a política de trânsito em nossa cidade. Como se sabe, os acidentes de trânsito, particularmente em termos de sua mortalidade, constituem problema de enorme gravidade no Brasil, além de grande complexidade também, para o qual soluções simplistas não bastam, sendo preciso a convergência de esforços de toda a sociedade, dentro de uma abordagem em três vertentes: evolução tecnológica dos veículos, melhoria do ‘ecossistema’ do trânsito (legislação, fiscalização e infraestrutura), além do item mais importante: educação dos usuários das vias públicas.
Continue Lendo “Violência em Brasília: no Trânsito, como estamos?”Brasília: cidade violenta?
Respondendo à pergunta do título, em rápidas palavras, Brasília não chega a ser uma cidade das mais violentas, pelo menos em comparação com outras capitais do Brasil. É claro que se a comparação for feita com cidades de outros países, isso muda de figura. Fiz um levantamento disso em 2019 e constatei que aqui estava presente uma tendência de redução de mortes criminosas violentas observada também em outras capitais brasileiras. Na violência policial (e contra policiais), Brasília tinha uma posição confortável, com baixo número de ocorrências, quando comparada a outras capitais. Na violência contra mulheres, Brasília ostentava, também, uma posição mais positiva. No trânsito, ao contrário do que apregoa o senso comum, Brasília apresentava posição moderada, embora com taxas muito superiores às de outros países. Como evoluíram as coisas depois disso? Com base nos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde, apresento aqui uma síntese mais atualizada da situação, a partir do Atlas da Violência publicado pelo Ipea em 2021, juntamente com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, além de outras parcerias institucionais.
Continue Lendo “Brasília: cidade violenta?”De volta: Covid e a importância das ações na porta de entrada
Pois é, interrompemos nossas atividades desde a primeira quinzena de janeiro. Mas estamos de volta, com posts semanais, sempre aos sábados. Como perdi minha agenda de contatos, devido um furto de celular, fiquei completamente às escuras durante este período e só agora posso retomar minha vida na rede. E vamos lá: o assunto hoje é, mais uma vez, Covid; passados dois anos está difícil mudar… Hoje quero retomar a discussão sobre o papel do modelo assistencial em saúde e seu impacto na pandemia, assunto que, aliás, já tratei aqui em diversas ocasiões. Mas hoje trago aqui algo relevante, de autores que eu inclusive conheço pessoalmente (ver link ao final), que é uma matriz de análise que facilita, de fato, compreender e categorizar as contribuições da Atenção Primária à Saúde no controle da atual pandemia. Como já escrevi aqui antes, além de distanciamento, álcool gel, máscara, medidas educativas e restritivas, é preciso também contar com um modelo de atenção à saúde adequado, para se alcançar resultados consistentes no controle. Trata-se, assim, de uma matriz de repertórios possíveis para a APS em circunstâncias de crise como a atual, baseada na literatura internacional e particularmente na Iniciativa da OPAS-Brasil denominada APS Forte/2020, constituída por cinco linhas de atuação.
Continue Lendo “De volta: Covid e a importância das ações na porta de entrada”