Há mais de 30 anos, um grupo de pais e mães com filhos internados no Hospital de Base do Distrito Federal se reuniu para ajudar outros pais e mães, com filhos portadores de câncer como os deles. Mas com a diferença de que estes outros provinham de lares marcados pela exclusão social. Mas ali essas famílias dividiam, democraticamente, experiências e esperança. Durante todo este tempo pais e mães desses meninos e meninas souberam mobilizar a sociedade civil e desenvolver esforços para erguer um magnífico centro especializado capaz de gerenciar de forma eficiente o tratamento integrado do paciente pediátrico.
Continue Lendo “Hospital da Criança de Brasília: ainda sob ataque?”A superação da crise humanitária da pandemia e a responsabilidade individual
A pandemia nos coloca diante do espelho que nos revela um mundo atravessado por muitas crises e carente de mudanças (Lima, Buss e Paes-Sousa, 2020)
Sem dúvida, na era pós Covid os serviços de saúde serão obrigados a se transformar. Mas não só eles: os hábitos de vida das pessoas e das organizações humanas já começaram a mudar e irão mudar mais ainda, o que implica começarmos a pensar nas transformações que nos aguardam no futuro. Afinal, os riscos de piora no que já está ruim não são desprezíveis. Mas que tal pensar, também, para além da reorganização das políticas de governo em geral e dos serviços de saúde em particular e de sua adequação à era pós covid, nas mudanças que caberão também aos seres humanos, seja individualmente ou nos grupos familiares e sociais em que convivem? Mudanças que, sem dúvida, deverão ser assimiladas mediante um novo contrato social, ou seja, de aceitação consensual e responsabilização coletiva, em contexto de democratização de relações e respeito ao outro. Tudo isso sem esquecer da enorme legião de pessoas doentes ou potencialmente doentes que foram prejudicadas pela situação pandêmica, sendo por isso relegados a uma situação de “invisibilidade”, no que se incluem os sequelados pela covid e mesmo aqueles que carecem de atenção institucional, como as mulheres grávidas, os idosos, as crianças pequenas e outros. Há de fato um tremendo desafio pela frente, que não se restringe apenas a recomendações sanitárias ou relativas a políticas públicas. É preciso ir além disso para mobilizar um verdadeiro esforço coletivo, mas que deverá começar pela tomada de consciência individual. É disso que iremos tratar hoje, neste texto escrito em parceria entre Flavio Goulart e Henriqueta Camarotti.
Continue Lendo “A superação da crise humanitária da pandemia e a responsabilidade individual”Acolhimento em Saúde: responsabilidade de quem?
[Com a colaboração de Henriqueta Camarotti]
“Acolhimento” é um termo muito versátil. Vale para questões afetivas e simbólicas, mas também para definir uma metodologia de trabalho não só em saúde como em outras ações sociais e até mesmo serve ao campo jurídico ou comercial. O dicionário Houaiss registra que a palavra provem do latim vulgar accolligère, com significados de colher, reunir, apanhar, juntar. No uso corrente pode ser “oferecer ou obter refúgio, proteção ou conforto físico; proteger(-se), abrigar(-se), amparar(-se)”; “dar ou receber hospitalidade; hospedar(-se), alojar(-se), recolher(-se)”; “ter ou receber (alguém) junto a si”. E em sentido mais formal ou jurídico pode ser também receber, admitir (algo); aceitar ou dar crédito, levar em consideração (pedido, requisição etc.); atender. A aplicação do conceito de acolhimento em saúde possui pelo menos três dimensões genéricas: (a) como componente de políticas específicas (Humanização e Atenção Básica);(b) organizacional e ambiental, em termos de estrutura e processos; (c) simbólica, envolvendo aspectos afetivos e de responsabilização individual e coletiva. Este texto se dedica precipuamente a este último componente, mas antes de passar a ele vamos nos deter brevemente nos dois primeiros.
Continue Lendo “Acolhimento em Saúde: responsabilidade de quem?”1001 dias em Gomorra: o triste papel de parte dos médicos na atual pandemia
Mil e um dias de (des)governo. Às vezes me sinto vivendo em tempos bíblicos, de pestes, pragas de gafanhotos, línguas de fogo e dilúvio universal. Ou em algum outro planeta. Por exemplo, quando percebo que entre os médicos, categoria de que faço parte, embora não tão orgulhosamente como outrora, o bolsonarismo ganhou adeptos inumeráveis, dentro de uma perspectiva que escapa à mera ideologia, indo muito além disso para o terreno do caráter (ou da falta dele) ou da desfaçatez e da ignorância. O sentimento de estranhamento se adensou quando vi, há algum tempo, meus colegas da turma de 1971 da velha Faculdade de Medicina da UFMG, que em outros tempos rejeitavam a ditadura militar, reunidos em grupo de whatsapp trocando animadas mensagens de adesão aos arroubos e delírios conservadores e autoritários, quando não negacionistas, “capitaneados” pelo atual ocupante da Presidência da República. É triste e repugnante, sem dúvida. E eles não seriam exceção, eis que leio na revista Cult (ver link ao final) a informação de que grupos de médicos representam hoje uma das mais importantes correias de transmissão de fake news bolsonaristas no Brasil. E, além disso, sob o olhar cúmplice e complacente do Conselho Federal de Medicina e outras entidades de classe, sabotam e desacreditam as normas da OMS, promovendo e prescrevendo falsos medicamentos, questionando as medidas de isolamento, negando, enfim, a pandemia, ao minimizar seus efeitos, em termos de mortes e incapacidades dela decorrentes. O que afinal teria acontecido com aqueles antigos jovens libertários ou, pelo menos esclarecidos, como éramos nos anos 60 e 70?
Continue Lendo “1001 dias em Gomorra: o triste papel de parte dos médicos na atual pandemia”O que será que será (na era pós covid)?
Ainda sob o impacto de 600 mil vidas perdidas no Brasil e das funestas e irresponsáveis ações de nossas autoridades, particularmente diante da patética alocução de Jair Messias na Assembleia Geral da ONU nesta semana (haja adjetivos!), analiso aqui um artigo recentíssimo saído no The Lancet (que como todos sabem, NÃO se trata de uma publicação comunista...), no qual se traz algo tão momentoso quanto A new strategy for health and sustainable development in the light of the COVID-19 pandemic e seu conteúdo, naturalmente, se coloca em sentido totalmente contrário ao que divulgam as autoridades brasileiras, especialmente em relação ao charlatanismo mal informado e sobretudo mal intencionado do Presidente da República. Antes que sejamos sepultados pela montanha de detritos que projeta nossa vergonha perante o mundo... O artigo em pauta visa contribuir para a construção do futuro pós-pandêmico, no qual será preciso promover e proteger a saúde de todos os cidadãos, para o que os eventos da atual pandemia e de outras crises anteriores têm muito a ensinar. Os autores fazem parte de uma Comissão Pan-Europeia sobre Saúde e Desenvolvimento Sustentável, criada pelo Escritório Regional da OMS para a Europa, sendo eles especialistas de uma ampla variedade de origens institucionais e geográficas, buscando com o presente texto uma agenda ambiciosa para alcançar um futuro saudável e seguro para todos.Continue Lendo “O que será que será (na era pós covid)?”
