A automorte e os legados da vida

Os versos de Jorge Luiz Borges são impactantes: Não restará na noite uma só estrela. / Não restará a noite. / Morrerei e comigo irá a soma / Do intolerável universo / Apagarei medalhas e pirâmides, / Os continentes e os rostos. / Apagarei a acumulação do passado. / Farei da história pó, do pó o pó. / Estou mirando o último poente. / Ouço o último pássaro. / Lego o nada a ninguém. (O Suicida). É difícil ser neutro quando se trata de tal tema. Uns parecem cultivar a ideia, como Borges; outros fingem ignorá-la; há quem pense que tal coisa só pode acontecer aos outros, sempre longe de si e dos que lhe estão próximos; e há também aqueles traumatizados pela vivência com algum parente ou amigo – mas todos temem tal evento. Uma coisa é certa: é preciso conhecer tal fenômeno mais profundamente, velho como a história da humanidade que é. Aqui no DF, por exemplo, a quantas anda? E no Brasil? O que se faz, no Brasil e no mundo, para conhecê-lo melhor e tentar controlá-lo, como parte de uma política pública? Sua divulgação em notícias de imprensa poderia ser nefasta e potencialmente capaz de desencadear novos casos? De fato, há muitas questões em jogo no cenário. [Este post é mais um trabalho conjunto de Flavio Goulart com Henriqueta Camarotti – vida longa a tal parceria!]

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O segredo de Oeiras

Oeiras é uma cidade do Piauí, um pouco mais do que pequena (cerca de 36 mil habitantes), bem no meio do estado, longe do mar, do Brasil dito “desenvolvido” e mesmo da capital Teresina (280 km). Tem antiguidade e cultura própria, mas quanto ao mais tinha tudo para ser mais um remoto e abandonado pedaço do vasto Brasil, como tantos outros, aliás, e como tal vítima de desprezo e preconceito. Mas na Educação a cidade brilha! Tem sido assim desde 2013, quando a Secretaria Municipal de Educação passou às mãos de uma gestão competente, de educadores verdadeiros, chefiados por uma figura iluminada chamada Tiana Tapety, que vem fazendo crescer os indicadores educacionais no município, bem retratados pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) no qual Oeiras superou a meta proposta para 2021, atingindo a nota 7,4 em 2019, versus reles três (!) pontos 15 anos antes. A expectativa atual para o Brasil não passaria de 6,0 em tal quesito e isso já colocaria a cidade em condições de ser comparada com alguns países desenvolvidos. A equipe de Tapety não deixa por menos, seu objetivo é de que a cidade seja reconhecida pela excelência da educação e mesmo vir a se tornar uma “exportadora de cérebros e de mudança de paradigma na educação”. E orgulhosamente ela acrescenta: “Agora as escolas particulares ligam para oferecer ajuda aos meninos, como se eles já tivessem vindo prontos”, embora ainda não saiba como lidar com o assédio sobre os estudantes que já ganharam 18 premiações na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Qual o segredo de Oeiras, afinal? Será que nas outras políticas públicas, na saúde, por exemplo, tal feito se repete?

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A Atenção Primária à Saúde funciona, mas sua qualidade é essencial

Assim como tem gente que acredita em cloroquina, ameaça comunista, voto impresso ou nas boas intenções do atual governo, há aqueles que ainda questionam a eficácia da Atenção Primária Básica no incremento à resolutividade e à qualidade dos sistemas de saúde. Não fosse assim certamente já teríamos a nossa estratégia de Saúde da Família não só mais prestigiada como também difundida ao longo de todo o território nacional. Mas apesar de tudo isso o The Lancet, uma das mais prestigiadas revistas médicas de todo o mundo, acaba de publicar um artigo taxativo, The quality of alternative models of primary health care and morbidity and mortality in Brazil: a national longitudinal analysis (ver link ao final), no qual pesquisadores gabaritados do Brasil e da Inglaterra trazem dados e informações confiáveis sobre tal assunto. A conclusão geral é de que ocorreu melhoria da qualidade da estratégia de APS no Brasil nas últimas décadas, associada a reduções nas hospitalizações e na mortalidade de algumas condições. São achados que acrescentam evidências sobre a importância da APS na melhoria da saúde da população e também para alavancar o desenvolvimento sustentável relacionado à saúde. Mas atenção: o grande diferencial é o da qualidade da atenção. Não se trata de “qualquer” APS, daquele tipo, por exemplo, que certas autoridades políticas adoram tirar proveito eleitoral. É preciso ir mais além…

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Liderança é essencial na Saúde

Escutando e lendo notícias sobre o andamento da vacinação anti-covid no DF percebo algo que me desafia a vontade de especular. Há lugares em que a vacinação ocorre sem maiores transtornos, com esperas de meia hora ou menos e outros em que o atraso é de horas, com filas atravessando quadras inteiras e até mesmo movimentos de revolta por parte dos que esperam sua vez, além de informação zero. Como é que pode? De um lado, há unidades que organizam até brincadeiras e música para acolher os vacinantes; de outro, há aqueles que até nove ou dez horas da manhã ainda não abriram as portas, à espera sabe-se lá de que. Não estamos, afinal, na mesma cidade, teoricamente submetidos às mesmas normas, com o mesmo órgão gestor a coordenar os trabalhos, distribuir as vacinas, estabelecer regras relativas a horários e compromissos de servidores e gerentes? Até parece que não é bem assim, dado o mosaico de situações que aparecem no noticiário, muitas delas totalmente negativas. Isso me remete a reflexões antigas. Vamos a elas…

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Covid no DF: já é possível relaxar?

A situação da pandemia aqui no DF parece dar alguns sinais de arrefecimento nas últimas semanas, eis que a chamada média móvel de mortes chegou a 12 no final de julho, enquanto em abril último passava de 70. Já o número total de óbitos está prestes a chegar aos 10 mil, cabendo indagar, sempre, quantos desses poderiam ter sido evitados. Naturalmente (embora isso não seja aceitável) a maior concentração de mortes provem das regiões mais pobres da cidade. O número de casos/dia sem dúvida também está em decréscimo, embora estacionado em torno de 700 por dia, chegando ao total de 451 mil desde o início da pandemia. Nos leitos de UTI e reservados para Covid, a taxa de ocupação média está em 55% na rede pública, porém ultrapassando os 80% no Hospital de Base e os 90% em Samambaia, com percentuais em torno de 60% em Santa Maria e HRAN, índice que até há dois meses atrás esteve sempre em patamares bem mais elevados. Já seria possível relaxar com as medidas sanitárias frente à pandemia? Ainda não, certamente, mas resta saber se o Governador, as demais autoridades, além de certos setores da população, estariam conscientes das questões envolvidas em uma eventual liberação. E cabe a pergunta, que o futuro acabará por dirimir: aqui no DF se agiu de maneira correta frente à Sars-Covid-19 ao longo desses tensos 18 meses do desenrolar da pandemia?

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