Não conheço ninguém que defenda a corrupção como algo aceitável. Mas conheço muitas pessoas ditas “de bem”, “de moral ilibada” que não se importam em pedir um atestado médico falso; negociar com o chefe da repartição um ou mais dias de ausência depois que as férias acabaram; aceitar fazer pagamentos sem recibo (ou prestar serviços negando recibo); cumprir carga horária apenas parcialmente; propor ao guarda um “agradozinho” para que ele retire a multa; omitir na declaração do IRPF aquela renda de aluguel – e por aí vai. Para não falar daqueles que recebem depósitos cuja procedência não explicam; carreiam às suas contas bancárias uma parte dos vencimentos dos funcionários a eles subordinados; contratam parentes e apaniguados para cargos públicos; nomeiam gente incompetente para estes mesmos cargos etc. Isso é corrupção também. Sem dúvida, uma coisa é certa: a corrupção existe e impregna nossa sociedade, sem que isso seja monopólio brasileiro, embora nossa “produção” nesta área seja verdadeiramente tsunâmica – ou amazônica (antes do desmatamento). Na saúde, então, nem se fala.
Continue Lendo “Que os corruptos tenham algum temor e que os honestos sejam de fato incentivados”Como explicar o bolsonarismo e o negacionismo em saúde
O bolsonarismo como fenômeno político existe de fato, sendo inúmeras as análises disponíveis sobre o mesmo, seja de cientistas políticos, sociólogos ou jornalistas, que identificam e tipificam tal fenômeno. Seja lá o que for, para mim, este “ismo” é mais uma questão de caráter do que de ideologia. Ou ainda de ética (ou estética). Cabe a pergunta: existe um bolsonarismo em saúde? Para definir um pouco melhor o fenômeno, recorro ao jornalista Philipp Lichterbeck, que escreve no portal Deutsch Welle, o qual,apesar de estrangeiro, parece conhecer muito bem o Brasil, ao descrever os “cinco pilares” do fenômeno, que na verdade dão sustentação a todo um pensamento da extrema direita no Brasil. São eles: (1) militarização; (2) atendimento a uma suposta vontade do povo; (3) messianismo; (4) hostilidade à ciência e (5) anticomunismo. Alguns deles são especificamente brasileiros, outros pertencem ao conjunto de ideias da nova direita internacional. Lichterbeck alerta que é fácil considerar simplesmente “ridículos” o presidente e seus seguidores, já que eles vivem dando oportunidade para isso, mas que há certa metodologia por trás dessa loucura, e reduzir o caso a mero histrionismo de um sujeito “sem noção” seria um erro fatal. Mas além de tal visão de um jornalista, trago hoje aqui algo mais filosófico, ou seja, as reflexões de Zygmunt (ou, aportuguesando, Segismundo) Bauman.
Continue Lendo “Como explicar o bolsonarismo e o negacionismo em saúde”Enfermagem e liderança na Saúde
As profissões da enfermagem, que correspondem a mais de 2/3 da força de trabalho em saúde no Brasil, são reconhecidas mundialmente como componente humano fundamental para se alcançar acesso e cobertura universal. A atual crise sanitária e humanitária da Covid-19 colocou em destaque a importância desta profissão, formada por enfermeiras, técnicos e auxiliares, que têm estado na linha de frente da resposta à crise, seja na gestão, na pesquisa, na vigilância epidemiológica ou, majoritariamente, na assistência aos casos da doença, para não falar na liderança das campanhas de vacinação. Não é por acaso que tal atuação na linha de frente da pandemia tem trazido consequências dramáticas para os profissionais de enfermagem, entre os quais se contam, só nos primeiros meses de 2021 no Brasil, mais de 55 mil casos confirmados e mais de 700 mortes por covid-19. Apesar de sua notória importância e de a enfermagem ser a categoria da saúde mais afetada pela pandemia no Brasil, na prática, são tímidas as iniciativas de trazer mais valorização e produzir mudanças substantivas na prática profissional da enfermagem, que historicamente tem sofrido com condições de trabalho inadequadas, baixa remuneração, vínculos contratuais frágeis, múltiplos vínculos empregatícios, sobrecarga e alta rotatividade, o que por vezes culminam no êxodo da profissão. Isso tudo se soma à noção equivocada, inclusive do ponto de vista semântico, de que são profissionais “para” (servir) médicos. Vamos começar por aí. Este “para” (de paramédicos) é o mesmo de paralelo, ou seja, o que está ao lado. Mas, convenhamos, que tal ao invés de paralelismo começarmos a pensar em convergência? E até mesmo em liderança em muitas ações de saúde?
Continue Lendo “Enfermagem e liderança na Saúde”As lambanças na Saúde
Imagem do Brasil disfuncional de hoje em dia: os chefes militares ameaçam botar pra quebrar se a CPI insistir em investigar seus pares. Pode? Não pode… Ainda mais partindo de uma corporação que vê a cada dia um punhado de seus membros denunciados por incompetência e até mesmo por improbidade. Tem Centrão também no olho deste furacão… Mas ao contrário dos militares, esta facção política não chia, apenas flexiona um pouco mais a espinha, à espera de que o governo atenda seus interesses ou até mesmo que venha um novo governo, ao qual ela aderirá sem pestanejar, como é de seu costume. No estado de lambança desorganizada que se instalou no Ministério da Saúde, com fardados de um lado e paisanos do outro, unidos na elaboração de falcatruas e malfeitos diversos, é difícil saber quem tem menos razão ou probidade. Todos são ou se tornaram suspeitos. Encontros estranhos em chopperias para negociar propinas; cabos de polícia se arvorando a executivos internacionais; cargos ocupados por pessoas prosaicas; coronéis faturando com empresas ad-hoc: é tudo com esta turma mesmo. Mas as chefias militares não querem que se investigue ou mesmo se fale disso… Aliás, nem precisaria de CPI, as declarações das autoridades, inclusive do Presidente da República, confirmam pencas de malfeitos a cada dia que passa. Enquanto isso, do fundo de suas covas, mais de meio milhão de mortos observam a cena trágica. O certo é que enquanto o Centrão já está desmoralizado e o Capitão perdeu totalmente o rumo, faz tempo, os militares pareciam manter alguma credibilidade – mas mostram que já abriram mão disso. Mas convenhamos: o tal “mito” da administração militar extensiva a atividades civis tem algum fundamento?
Continue Lendo “As lambanças na Saúde”Saúde não é só uma questão de Saúde
Dia desses fui vacinar contra Influenza, eis que já tinha tomado minhas duas doses regulamentares da Coronavac. Procurei o Centro de Saúde da 905 Norte, o mais acessível para mim naquele momento. Lá chegando, levei um susto, pois uma área enorme da W4 Norte, em frente à unidade e adjacências, estava inteiramente ocupada pelos caraterísticos cones laranjas do Detran-DF (vejam foto), impedindo que se estacionasse veículos nas proximidades. Ou seja, o acesso a uma vacina de interesse especial para idosos, que nem sempre têm facilidade em se locomover, estava sendo bloqueado ou pelo menos dificultado naquele momento. Burrice, descuido ou má fé? Ou tudo isso junto, como soe acontecer no país ultimamente. Seja lá o que for, o que se via ali era uma oposição ou desconexão entre uma ação da área de trânsito e outra de saúde. Quantas vezes assistimos coisas assim em nosso dia a dia? Outros exemplos de tais desencontros infelizes: os Tribunais de Contas que por pequenas falhas contratuais embargam por meses ou anos a fio obras em rodovias, justamente em trechos que costumeiramente geram acidentes que matam dezenas de pessoas por ano; as escolas que permitem que se vendam em suas cantinas refrigerantes adoçados, guloseimas ultraprocessadas e todo tipo de alimento nocivo para a saúde de crianças – e ali supostamente se educa!; o Ministério Público e outros órgãos de fiscalização, que cancelam contratos apenas por idiossincrasias ideológicas ou interpretação facciosa da legislação, prejudicando assim o atendimento a milhares de pessoas (como já se tentou fazer, por várias vezes, com o Hospital da Criança de Brasília). Como se vê, o Detran-DF não está sozinho em ações assim tão irracionais. E se a própria direção da unidade tiver pedido tal bloqueio? Pior ainda… O problema, neste caso, seria de incompetência ou falta de noção, não de integração. Como ficamos diante disso?

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