Resiliência, reimaginação e ressignificação na Saúde

Saúde no DF três anos! Na data de 18 de abril próximo completam-se três anos de atividades deste blog. São 224 posts, todos de minha autoria, o que dá uma média de quase 1,5 postagens por semana. Agradeço aos leitores. Longa vida para este blog e para a nossa convivência! Hoje o que temos é o seguinte: em artigo que publiquei aqui há alguns dias (ver link) inspirado em leitura de um texto de Eugênio Vilaça Mendes, comentei sobre a necessidade de se instaurar, no campo da saúde, a busca de um “novo normal” após o período de incertezas e trevas trazido pela presente pandemia (ou sindemia, como apontado na ocasião). Trouxe aqui então uma fórmula “5R” revelada por Eugênio a partir de uma sacada de Singhal (2020), sendo eles: resolução, resiliência, retorno, reimaginação e reforma, coisa que não poderia ser apenas “mais do mesmo”, por certo. Trago aqui algumas reflexões sobre dois dos “R” acima: resiliência e reimaginação, que têm como ponto comumo fato de possuírem fortes componentes simbólicos. Prefiro, porém, tomar certa liberdade com o segundo termo, tratando-o como ressignificação, que considero uma palavra mais apropriada.

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A resiliência do SUS frente à Covid-19

Resiliência é termo que vem da metalurgia, daí sendo incorporado à psicologia. Naquela, é a propriedade que alguns materiais apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a alguma deformação; na segunda, em sentido figurado, diz respeito à capacidade de um indivíduo se recobrar ou se adaptar com facilidade de eventos danosos ou às mudanças em geral. O termo agora tem sido empregado também em relação a sistemas sociais complexos, como é o caso da saúde, com foco especial em momentos nos quais ocorre redução radical de recursos em função de crises econômicas, medidas políticas de austeridade ou mesmo pelo aumento exagerado de demanda, como no caso presente pandemia. O senso comum, aliás, já indicaria que países com fragilidades na estrutura de seus sistemas de saúde apresentem baixa resiliência face a impactos de tal natureza. A este respeito, acabo de ler um interessante estudo, realizado por pesquisadores brasileiros da FGV (ver link ao final), no qual se busca compreender tal capacidade no SUS em responder a tais choques, de forma a preservar – ou não – suas funções essenciais, mantendo o alcance de resultados em saúde, além da capacidade de se reorganizar em função de possíveis lições apreendidas com a crise. Tudo isso dentro do atual cenário pandêmico mundial, no qual sistemas de saúde bem-estruturados entraram em colapso, em razão do rápido aumento de demanda por internações emergenciais, além de diversos outros efeitos adversos sobre os próprios sistemas e sobre a saúde da população.

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Qualidade no atendimento em saúde é possível também no serviço público

História verídica (e comum pelo Brasil a fora). Um senhorzinho chega para consultar em uma unidade de saúde do interior. Saiu da roça onde mora às quatro da madrugada, em carona de caminhão, conseguindo chegar ao posto três horas depois, sendo atendido só por volta das três da tarde. Não almoçou, apenas comeu uns biscoitos de polvilho que uma das Agentes de Saúde gentilmente lhe ofereceu. Quando indagado se havia gostado do atendimento, disse que não tinha queixas, porque em momentos anteriores havia feito o mesmo périplo e saíra do posto de saúde no final da tarde sem conseguir atendimento. Desta vez, disse ele alegremente, lhe ofereceram até biscoito. Isso seria um atendimento de qualidade ? Pelo visto, para alguns, como aquele pobre cidadão, sim. Mas o certo é que uma das queixas mais frequentes dos usuários dos serviços do SUS diz respeito à baixa qualidade no atendimento, seja relativa ao ambiente onde os cuidados acontecem, à falta de informação, à demora da espera, às carências materiais ou às maneiras como as relações pessoais são conduzidas.

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Covid não é só uma questão de álcool-gel, vacina e isolamento…

Tenho chamado atenção aqui e isso está claro também na literatura, inclusive internacional, sobre a contribuição da atenção primária à saúde (APS), aqui considerada em sua acepção completa e não improvisada, no controle da atual pandemia. Com efeito, fala-se muito em máscaras, álcool gel, isolamento social, testagens, vacina e outras medidas, todas muito importantes, mas também tal item estratégico, ou seja, a maneira como se organiza o modelo assistencial, deveria fazer parte de todas as recomendações relativas ao enfrentamento da atual situação. Esta representa, aliás, o maior problema sanitário que várias gerações viveram, seja no Brasil ou no Mundo. Mas falar de APS, ou melhor, de uma APS adequada, deve deve incluir obrigatoriamente: (a) responsabilização, em termos transversais e longitudinais, incidindo sobre pessoas, famílias e comunidade; (b) processos diferenciados de trabalho, que dizem respeito a equipes multiprofissionais, acompanhamento domiciliar, abordagem epidemiológica, acolhimento e utilização de indicadores de satisfação; (c) intervenções baseadas em evidências clínicas, epidemiológicas, sociais, financeiras; (d) atuação proativa, em termos de identificação e vinculo da clientela, além de coordenação do processos de atenção como um todo; (e) gestão da saúde em termos populacionais. A este respeito, a Organização Panamericana de Saúde no Brasil (OPAS), com apoio do Ministério da Saúde (o qual, se não atrapalhar, na atual conjuntura, já ajuda bastante) acaba de divulgar uma interessante coletânea de experiências, que você conhecerá a seguir.  

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CRM-DF contra o isolamento: seria cômico se não fosse trágico

Com atuação marcada por silêncio eloquente após um ano de pandemia, que já matou mais de 250 mil pessoas no Brasil e quase 5 mil aqui na nossa cidade, o Conselho Regional de Medicina do DF achou por bem vir a público para trazer sua contribuição à solução do problema. Divulgou, no dia 1º de março último, uma nota pública na qual condena taxativamente as medidas de intensificação de isolamento social determinadas pelo governo local. Para quem vinha sendo acusada de omissão face à pandemia eis um motivo para que tal entidade venha a ser lembrada no futuro. É um retrato do Brasil, por certo, mas por que justamente os médicos de Brasília (ou uma parte deles, seus representantes no CRM), resolve se antepor ao que é hoje resultado de generalizado senso comum, além de consenso científico internacional? Sabe-se lá… Os argumentos dos doutores são frouxos, risíveis. Apelam, entre outras boutades que comentarei a seguir, para a surrada versão dos prejuízos à economia. É reveladora aqui a verdadeira demonstração do DNA de tal inspiração. Já vimos e ouvimos isso repetidas vezes, pela boca do indivíduo que atualmente ocupa a Presidência da República. Seria subserviência? Irresponsabilidade? Ignorância pura e simples? Ou, sem sabe, uma mistura desses três predicados?  

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