Escolhas forçosas…

Este coronavírus (prefiro chamá-lo assim, por um nome que todo mundo conhece), veio para virar o mundo de pernas para o ar. Quem tinha as pernas fora do devido lugar ou, pelo menos, o cérebro em tal condição, como o Presidente da República, parece não ter entendido as coisas direito. Mas não é o meu caso, nem dos distintos leitores deste blog, certamente. Na Itália, o mundo já está virado. Na Suécia e na Coreia do Sul, nem tanto. A esta altura dos acontecimentos, apesar da imprevisibilidade da pandemia, o Brasil ao que tudo indica vai, malgrado nosso, se achegar ao modo italiano e não ao escandinavo ou oriental. E entre tantos prejuízos, seja de vidas, de empregos, de credibilidades, de atividades econômicas, há um que talvez seja o mais dramático: o das escolhas forçosas que as equipes de saúde terão que fazer para decidir quais pacientes receberão as terapias necessárias, como é o caso dos ventiladores mecânicos, entre outras, e quais não terão tal direito, simplesmente porque não haverá equipamentos suficientes para todos. A situação italiana prima pela tragédia, mas pelo menos suscitou a elaboração de recomendações éticas para admissão a tratamentos intensivos, ou sua negativa, nas condições excepcionais de desequilíbrio entre necessidades e recursos disponíveis como se vê agora, conforme documento emitido pela Società Italiana di Anestesia Analgesia Rianimazione e Terapia Intensiva (Siaarti). Dramáticas escolhas de Sophia, sem dúvida, que ofereço agora aos meus leitores em tradução amadorística, mas sem dúvida, melhor do que nada. Nada indica que aqui em nossa cidade as coisas sigam de maneira diferente disso… Continue Lendo “Escolhas forçosas…”

Um Doutor que dispensa o pedestal

Por estes dias, Drauzio Varela ocupou aquilo que na internet, em língua gringa, chamam de Trend Topics (Trem de Trópicos, como é mesmo?). Ele entrevistou Suzy, uma mulher transgênero, dentro de uma penitenciária e ao final, ao saber que a mesma não recebia visitas há alguns anos, a abraçou fortemente, na frente das câmeras. Que solidão! – exclamou então. Numa terra repleta de gestos trogloditas e inconsequentes foi realmente um consolo ter assistido algo assim. E a internet explodiu – para o bem desta vez – coisa rara de acontecer ultimamente neste pobre país. Seria normal, se não fosse exceção, absoluta, por sinal. Eu também me senti feliz e gratificado. Gosto de Drauzio, de sua figura humana, de seu jeito de ser, das coisas que faz e fala, de sua boa e suave militância – e não é de hoje. Continue Lendo “Um Doutor que dispensa o pedestal”

Saúde no DF: o Carnaval acabou. E agora?

Não, não vou falar de doenças sexualmente transmissíveis; nem de coronavírus, intoxicação alcoólica, gravidez indesejada ou traumatismos provocados pela ação da polícia ou de gangs carnavalescas. Nada disso. Vou recordar aqui, mais uma vez, algumas das verdadeiras dívidas históricas, que entra carnaval, acaba carnaval; entra década, sai década; entra governo, sai governo, persistem no cenário de nossa cidade. Falo de dívidas sanitárias, porque aqui o espaço (e a minha competência) são pequenos para abordar com algum siso tudo que precisa. Vamos a elas, que estão virando um verdadeira mantra aqui no blog. Mas é preciso insistir, por serem coisas essenciais na saúde pública de nossa cidade, para as quais este governo (e justiça seja feita, os anteriores também) não parecem estar “nem aí”. Continue Lendo “Saúde no DF: o Carnaval acabou. E agora?”

Viagens ao Brasil-real

No século XIX foram marcantes as viagens de europeus pelo Brasil, estimulados pelo exotismo de nossa terra e pelas facilidades então abertas pela abertura do país às chamadas “nações amigas”. Na época, Saint-Hillaire, Langsdorff, Burton, Von Martius e muitos outros narraram aos seus compatriotas ávidos de informações suas observações sobre aquele mundo ignoto, em tons que variavam do maravilhado ao perplexo. A era das viagens ao Brasil, entretanto, não acabou. Eu mesmo tenho feito algumas, por Minas Gerais e também por Goiás, passando por lugares tão variados como Andrequicé, São João da Aliança, Serro, Niquelândia, São Gonçalo do Rio Preto, Vila Propício, Senador Modestino Gonçalves, Forte, Itamarandiba, Cavalcanti, Capelinha, Muquem, Araçuaí, Padre Bernardo, Itacambira, além de outras comarcas remotas e pouco conhecidas. Conto agora a vocês uma parte do que vi e senti, no que poderia chamar de autênticas viagens ao “Brasil-Real”. Continue Lendo “Viagens ao Brasil-real”

Cultura organizacional e saúde

Leio nos jornais a notícia que já parece fazer parte da paisagem: um homem com uma faca enterrada no tórax teve que esperar quase 48 horas para ser operado em um dos hospitais do DF. Hospital público, no caso, mas poderia ser também privado. Coisas assim não são exclusivas do SUS. Se procurarmos bem, é possível encontrar um feixe de monstruosidades deste tipo também nos hospitais com nome de santa que existem por ai. Mas o certo é que ninguém fala das inúmeras vidas que são salvas diariamente – e não são poucas! – nos hospitais do DF, tanto públicos como privados. Algo assim se aplica também, segundo pesquisas recentes, à divulgação de fake news maliciosas (existiria uma variedade “do bem”?), capazes de circular mais rápida e eficazmente do que as notícias realmente verdadeiras de utilidade pública. Assim funciona a humanidade. Mas é preciso prestar atenção nos contextos. Por exemplo, naquele cartaz habitual na entrada nos serviços de saúde que ameaça “maltratar funcionário público é crime”. Essa turma é realmente “maltratada”? Com frequência? Acredito que sim, mas não vejo preocupação idêntica e recíproca quando a questão é “maltratar usuários”, que também é um evento frequente. Internamente, nos serviços de saúde, há uma história contumaz: o mandatário culpa o subordinado e o subordinado dirige a culpa para mais abaixo, de tal forma que a culpa de tudo o que acontece de ruim na repartição corre o risco de vir a ser da moça do cafezinho. Enquanto isso todos culpam o governo – qualquer governo – e da mesma forma os governos culpam os cidadãos (“por que raios foram votar na gente?”) ou então a “herança maldita” que receberam. Uma coisa é certa: ninguém se assume diretamente culpado. Aquela história de ministros se suicidando de vergonha em frente a câmeras de TV só acontece mesmo entre os japoneses, eita povo bárbaro! É cultural, eu diria… Mas afinal, que cultura é essa? Continue Lendo “Cultura organizacional e saúde”