Renato Maia: ter saúde é ter projetos

Eu conheci Renato Maia anos atrás, primeiro como colega de Hospital Universitário, depois como paciente seu. Algo nos unia, isso eu descobri logo de cara. Poderia ser a nossa formação na UFMG, ou talvez a nossa mineiridade comum; quem sabe a sua raiz em Uberlândia, onde eu vivi por alguns anos, embora sem conhecê-lo de lá. Mas de toda forma me chamou logo atenção seu jeito de ser, humano, atencioso, aquela pessoa que olha o interlocutor nos olhos e nunca o interrompe. Quando falava, era como se pedisse licença para tanto. Seu interrogatório clínico era primoroso, associando profunda especulação de sintomas com uma interação delicada a respeito da vida no dia a dia, se colocando de igual para igual com seu paciente. Tinha para todos um raro olhar atento e compassivo, como em muito poucos se vê. Como médico e líder na área de Geriatria, ganhou projeção nacional e reconhecimento intenso por parte daqueles que com ele conviveram profissionalmente. Mas era, essencialmente, uma pessoa simples, muito simples. Por onde andou, captou sutilmente em torno de si simpatia, respeito, devoção, seja de seus pacientes ou dos demais que com ele conviveram. Hoje Renato partiu depois de passar por doença sofrida e prolongada, que ele suportou com fibra e coragem, apesar de ter perdido progressivamente os movimentos de todo o corpo e depender de cadeira de rodas e cuidados permanentes há alguns anos. Mesmo assim não parou de clinicar, estudar, fazer palestras, se envolver em novos projetos. Tenho uma frase que para mim representa um símbolo existencial. É de René Dubos, médico e bioquímico francês, ganhador do Prêmio Nobel na década de 60: “ter saúde é ter projetos”. Vejo que a pessoa especial que foi Renato Maia, neste aspecto, longe de ter morrido doente e incapacitado, sempre esteve de pé e muito ativo, portador de projetos que era, até a sua última hora entre nós. Eis uma grande perda para Brasília.

 

Por uma Saúde baseada em valor(es)

Todo mundo sabe. No SUS e nas questões de saúde em geral tudo é tratado com base em números. O que importa são quantidades, seja de consultas, exames, horas trabalhadas, leitos ocupados, altas concedidas, recursos transferidos, pagamentos de serviços – seja lá o que for. Mas existem outras maneiras de agir, referendada por teorias contemporâneas gerenciais e de relações de trabalho, que distinguem entre o que é meramente “volume” e outra acepção, de fundo qualitativo, ou seja, do que representa “valor”. Seria possível falar, então, em uma “saúde baseada em valor”, como modelo de prestação de cuidados de saúde no qual os prestadores, incluindo as instituições, empresas, profissionais e servidores de maneira geral, são pagos na base dos resultados proporcionados aos pacientes, e não apenas em termos de quantidades, seja de consultas, de internações, de procedimentos ou custos. Mas isso pode ainda contar com uma dimensão especial, quando a definição do valor pago ou atribuído a procedimentos determinados ganha um sentido plural, de valores, que são os aspectos simbólicos pelos quais uma instituição se move: Ética; Comprometimento; Competência; Solidariedade; Trabalho em equipe; Humildade; Humanização. Continue Lendo “Por uma Saúde baseada em valor(es)”

Saúde publica e privada: um diálogo possível?

Em termos formais, parece que a atuação pública e a privada em saúde, no Brasil, estão irremediavelmente apartadas. Desconfianças recíprocas alimentam tal dissensão, algumas fundadas em fatos bem reais. Assim, um lado vê, no outro, fonte inesgotável de corrupção; o outro retruca com acusações de ganância e desumanidade – para dizer o mínimo. Mas na era de incertezas em que vivemos, para o bem ou para o mal, não custa nada indagar: tem que ser assim sempre? Pensando nisso, resgato algumas coisas que vi e ouvi, convidado que fui a uma reunião do lado “deles”, ou seja, um simpósio organizado pela Confederação Nacional da Indústria, em novembro de 2018, para buscar entre seus associados, consensos a respeito de como buscar ou prestar serviços de saúde mais qualificados (e menos onerosos, claro) a seus funcionários. O foco era os serviços médicos empresariais, aliás, muito frequentes e atuantes em empresas médias e grandes, com oferta de grande volume em consultas e procedimentos diversos. Segue um resumo do que ouvi por lá, com uma tentativa de síntese e conclusões ao final. Continue Lendo “Saúde publica e privada: um diálogo possível?”

Por uma atuação realmente avançada da Enfermagem em nossos serviços de saúde

Já vi gente acreditar que a expressão “paramédicos”, mais utilizada nos EUA e outros países do que aqui no Brasil, por sinal, significaria algo como “para, a favor, em auxílio dos trabalhos médicos”. Na verdade, este “para” que está aí é o mesmo que está na palavra “paralelo” e com isso o assunto ficaria definido? Penso que não. O que quero discutir aqui não é exatamente a anteposição de uma acepção (falsa) versus a outra, supostamente “correta”. Acho que precisamos – nós todos que somos envolvidos com a atenção primária à saúde e, principalmente, a nobre categoria da enfermagem – ir além.  Enfim, nem “para” nem “para…”, mas sim encarar a autonomia e as responsabilidades verdadeiramente cruciais (e mais: insubstituíveis e jamais apenas “paralelas”) de tal profissão no bom desempenho dos serviços de saúde.   A OPAS e OMS acabam de lançar um material essencial sobre tal assunto, o livro “Ampliação do papel dos enfermeiros na atenção primária à saúde”. Ler mais… Continue Lendo “Por uma atuação realmente avançada da Enfermagem em nossos serviços de saúde”

E a Medicina, a que será que se destina?

Querido Lucas Carvalho, leio nos jornais que você, com apenas 17 anos conseguiu vaga no curso de medicina na UnB. É um feito e tanto. Parabéns!  E seu merecimento fica ainda maior quando vejo que você é filho de uma diarista e de um entregador de bebidas, que é morador de uma remota periferia do DF e que desde a infância já se virava vendendo brigadeiros na escola. E mais: sonhava ser músico e não deixou por menos, hoje é saxofonista profissional! É muita conquista para uma pessoa só. Parabéns de novo! Nem eu nem a maioria das pessoas conhece, de perto, as intempéries e os acidentes de percurso que você deve ter enfrentado para chegar onde está. Então, você quer ser médico… Sem dúvida, é uma boa escolha. Mas talvez eu, do alto dos meus 71 anos e quase 50 de formado nesta profissão, possa lhe trazer alguma informação que você talvez ainda não tenha recebido ou percebido por si só. Ou talvez já o tenha… De toda forma, me desculpe se repito o que você já sabe e chovo no molhado. Continue Lendo “E a Medicina, a que será que se destina?”