Vejo na mídia (link ao final) que o GDF, em mais uma das suas habituais soluções simplistas ou autoritárias, quer punir os funcionários que porventura tratem mal aos pacientes nas diversas unidades de saúde da cidade. Não é que tal coisa não aconteça por aqui; acontece de verdade, e muito, em toda parte! E os responsáveis devem pagar por seus erros, até porque o que se vê nas recepções das unidades de saúde é apenas aquele maldito aviso “maltratar funcionário público é crime previsto na legislação”. O contrário disso, não seria crime também? Mas a verdadeira questão é se a solução estaria de fato em simples portarias e atitudes ameaçadoras como esta, nas quais se fala em penalidades diversas, em delações internas e punição e até penalidades para quem fizer uso incorreto da rede de computadores, além de outras obviedades? Ou haveria modos mais apropriados de tratar a questão? Corro o risco de ser mal visto, ao falar em coisas que já fazem parte de uma verdadeira cultura institucional global (lembram-se do “marxismo cultural”, ao gosto do atual Chanceler?), ou de apelar para evidências científicas (no caso, derivadas, algumas delas, das atualmente malditas ciências sociais) nas ações de governo. Mas mesmo assim introduzo a minha pobre colher de pau em tal discussão. Continue Lendo “Volume ou valor? Produção ou resultados? Quantidade ou qualidade?”
Entorno ou Transtorno (II)
O atual Governador do DF prometeu, durante a campanha eleitoral, criar a Região Metropolitana (RM) do Distrito Federal, formada por municípios de Goiás e Minas Gerais, além do DF. Segundo ele, isso estabeleceria um território reconhecido pela União, vindo a facilitar a destinação de recursos federais aos respectivos governos estaduais e do DF. Na ocasião, dizia ele, transpirando otimismo: “Hoje, para se fazer uma obra para beneficiar a região, o governo federal tinha de transferir parte dos recursos para um e parte para outro. A MP vai facilitar muito. Temos o apoio de diversas bancadas e a certeza de que logo será aprovada pelo Congresso”. Do que resultou isso, além de mais uma prova de que fazer promessas é tão ou mais fácil do que descumpri-las? Apesar do apoio de Temer, que enviou, ainda em dezembro de 2018, no apagar das fracas luzes de seu governo, uma MP relativa a isso ao Congresso Nacional, a conversa não prosperou. E agora, na última semana de abril de 2019 foi cabalmente sepultada com a decisão dos possíveis parceiros interessados, MG e GO, de não apoiar tal medida. O motivo? Dinheiro, pra variar… Os governadores vizinhos se recusam a entrar em tal arranjo sem que o DF abrisse mão de uma parte dos recursos do Fundo de Participação em favor de seus eventuais sócios da tal RM. Assim, o advogado Ibaneis, que já alardeava o apoio dos vizinhos à sua ideia, teve que botar a viola no saco… Continue Lendo “Entorno ou Transtorno (II)”
A Democracia faz bem à Saúde?
Acabo de ter acesso a um artigo da revista The Lancet (ver link ao final) no qual os autores indagam se este negócio de democracia é realmente bom para a saúde pública. Assim, recorrendo a estimativas de mortalidade por causas específicas e expectativa de vida livre de HIV, além de dados da carga global de ferimentos e fatores de risco, relativos a 2016 e cotejando tudo isso com informações sobre o tipo de regime em uma série de 170 países, foi analisada a associação entre a democratização e a saúde da população , no período de 1980 a 2016. Isso permitiu descobrir que a expectativa de vida adulta livre de HIV melhorou mais rapidamente nos países em desenvolvimento que fizeram a transição para a democracia no último meio século. E mais: que a qualidade da vida democrática, particularmente definida como ocorrência de eleições livres e justas, seria responsável por 22% da variação positiva nas doenças cardiovasculares, 18% nas lesões de trânsito, 17% na tuberculose, 10% no câncer, com frações menores para outras doenças, principalmente não transmissíveis. Isso parece ser mais influente do que próprio PIB, que seria responsável por apenas 11% da variação nas doenças cardiovasculares e 6% no câncer, por exemplo. A “qualidade da democracia” não parece estar associada a aumentos no PIB per capita, mas sim a declínios na mortalidade por doenças cardiovasculares e aumentos nos gastos públicos em saúde. Continue Lendo “A Democracia faz bem à Saúde?”
Médicos no DF: entre a abundância e a escassez
Em nossa cidade, algumas notícias da imprensa já são tão rotineiras que poderiam até se apresentar em um cabeçalho fixo nos jornais ou em editoriais simplesmente reeditados, no rádio e na TV. Nem precisaria mandar repórteres ao local dos acontecimentos…. Acidentes no Eixão, desvios na Câmara Legislativa, invasões de áreas públicas e falta de médicos na rede de serviços de saúde: eis alguns exemplos. Assim, leio matéria recente (link ao final) que foi reduzido o número de médicos na rede pública do Distrito Federal, agravando o caos nos hospitais, postos de saúde e unidades de pronto-atendimento. Segundo o Sindicato dos Médicos, havia 5.546 clínicos em 2014 e são 5.199 agora. Só na virada de 2018 para 2019 perto de duzentos deixaram o serviço público. Assim, enquanto a rede perde médicos, a cidade continua a crescer . Continue Lendo “Médicos no DF: entre a abundância e a escassez”
Se a Atenção Primária é tão importante para os sistemas de saúde, por que ela não decola?
Muito se fala sobre a importância vital da Atenção Primaria à Saúde (APS), também conhecida no Brasil como Atenção Básica, para os sistemas de saúde, pois está mais do que provado que ela representa uma estratégia que os torna mais resolutivos, mais eficazes, mais participativos e, principalmente, mais organizados. Aqui em Brasília, nas últimas eleições, ela foi simplesmente a estrela dos programas de saúde de quase todos os candidatos, o que não significa, entretanto, que caso fossem eleitos, cumpririam realmente o que prometeram em suas campanhas. O novo governador mantém o discurso, mas na prática, pouca coisa concreta se percebe. Continue Lendo “Se a Atenção Primária é tão importante para os sistemas de saúde, por que ela não decola?”
