Quando assumi o posto de Secretário Municipal de Saúde em Uberlândia, no início da década passada, fiquei abismado com a existência de quase 300 pessoas empregadas na Prefeitura, é bem verdade com recursos do governo federal, para realizarem o “controle da dengue”, que àquela altura ameaçava não só a cidade como muitos outras partes do país. A dengue era e continua sendo uma doença potencialmente grave (mas nem sempre…) e seu controle depende de muito mais ações do que catar latinhas nos quintais e lotes vagos e visitar as casas para constatar a existência de vasos com pratinhos cheios d’água. Não se trata de uma ironia, mas era basicamente isso o que aqueles laboriosos trabalhadores faziam. Na ocasião me perguntava se para doenças muito mais graves, como a hipertensão arterial, a diabetes, as doenças derivadas do stress e do tabaco, além de outras, se haveria, por parte do Poder Público, uma ação semelhante, ou seja, mandar os agentes da saúde nas próprias casas dos pacientes para ver se estavam bem, se tomavam os remédios, se faziam dieta e outras medidas recomendadas. Na dengue algo parecido era feito… Continue Lendo “Perdulário, perigoso e pouco eficaz…”
Atenção candidatos: o que fazer para melhorar a Saúde?
A Folha de São Paulo publicou, sob a coordenação editorial das jornalistas Cláudia Collucci e Natália Cancian, com apoio da Revista Brasileira de Ciência e Saúde Coletiva (Abrasco) e do CFM, no dia 25 de agosto último, uma ampla matéria intitulada “O que fazer para melhorar o sistema de saúde no país”. Foram entrevistados alguns nomes importantes do setor saúde no Brasil, tanto da esfera pública, como da privada. Foram ouvidas as seguintes pessoas, com as instituições representadas: Gastão Wagner (Abrasco); Martha Oliveira (Anahp); Mauro Junqueira (Conasems); Deborah Malta (UFMG); Roberto Umpierre (UFGRS); Gonzalo Vecina Neto (USP); Ana Maria Malik (FGV); Edson Araújo (Banco Mundial); Paulo Furquim (Insper); Elizamara Siqueira (Coren/SC); Claudio Lottenberg (Coalizão Saúde); Mário Scheffer (USP); Humberto Fonseca (SES-DF). Como se vê, a nossa cidade esteve representada pelo seu Secretário de Saúde, Humberto Fonseca. O que podemos tirar de proveito de tal conversa? Continue Lendo “Atenção candidatos: o que fazer para melhorar a Saúde?”
UPAs: fazem paredes, mas falta alicerce…
Leio na mídia (link abaixo) que ocorre neste país rico que é o Brasil um desperdício de nada menos que R$ 268 milhões, dinheiro investido pelo Governo Federal na construção de 145 UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), que embora já construídas permanecem fechadas, algumas desde 2012. Alguns dados do descalabro: em São Paulo 22 UPAs fechadas; Bahia e Pará, 13 prédios cada um; Paraná, 11, Ceará; 10, Rio Grande do Sul e Pernambuco, 9 cada. E vai por aí a fora. O DF, desta vez pelo menos, não está citado neste ranking negativo. Falta de planejamento, promessas eleitorais e baixo orçamento dos municípios, são algumas das razões (ou desculpas) para justificar esta (mais uma!) vergonha nacional. Mas não é só isso… Continue Lendo “UPAs: fazem paredes, mas falta alicerce…”
Tudo para todos na saúde? Onde?
Fonte inesgotável de discussões, certamente ainda longe de um consenso, é a questão do alcance da universalidade do direito à saúde prometida pela Constituição de 1988. Numa interpretação mais generosa – ou otimista – isso significaria “oferecer tudo para todos”. Para os militantes mais renhidos do SUS não se pode abrir mão de tal prerrogativa cidadã, visto que no artigo 196 da Lei Magna está escrito, com todas as letras: a saúde é um direito de todos. E aí? No mínimo caberia indagar: isso foi possível em algum lugar do mundo, em algum tempo? Esta igualdade de direitos admite que alguns cidadãos acabam chegando primeiro ao pote, por serem mais bem informados e terem mais acesso físico e cultural aos serviços? Diante desta verdade praticamente universal não seria o caso de criar instrumentos de regulação do acesso que privilegiassem, de fato, os mais pobres e mais necessitados de maneira geral? Venho pensando e escrevendo sobre isso há muito tempo. Foi com grande satisfação que li na mídia as declarações de Marcos Bosi Ferraz, profissional que respeito muitíssimo, a respeito de tal questão. Não é questão de se ser de direita ou de esquerda. É o realismo que deve imperar em tal conversa. Ideologia é muito importante, mas os números costumam falar mais alto…
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Enquanto isso, em Patópolis…
Acabei de ler por esses dias o livro do médico patologista paulistano e professor da USP Paulo Saldiva, intitulado Vida Urbana e Saúde. Nele o autor constata que a vida nos centros urbanos, que no Brasil abrigam mais de 80% da população, não traz apenas oportunidades (inquestionáveis) para quem nelas vive, mas também muitos riscos. E a partir daí desenvolve um conceito de Cidade Saudável, através de metáforas médicas. Mas Saldiva é inteligente o bastante para não transformar suas ideias e propostas em assertivas simplórias ou reducionistas e muito menos querer tratar o corpo urbano como se fosse um corpo humano. O que ele vê é uma cidade adoecida, a ser transformada e curada. Poderíamos chamar tal cidade de disfuncional, mas me apeteceu arranjar-lhe outro apelido: Patópolis. A referência, aqui, não é Disney e seus simpáticos palmípedes, nem mesmo a FIESP, mas sim a boa e velha língua grega. Pathos, que está em patologia e em alopatia, por exemplo, e que significa doença, mais polis, cidade. Continue Lendo “Enquanto isso, em Patópolis…”
