Acabo de ler um interessante artigo, no qual são discutidas questões relativas à eficiência e à sustentabilidade do gasto público com saúde no Brasil, com autores brasileiros com projeção internacional na área de Economia da Saúde (ver link). Eles demonstram que mesmo com as inegáveis conquistas das últimas décadas, o SUS ainda enfrenta problemas estruturais muito sérios. O senso comum e as estatísticas mostram que o Brasil gasta pouco com a saúde, mas a pergunta fundamental é: gasta bem ou gasta mal? Em termos comparativos, os gastos públicos com saúde no Brasil são menores que os de países com sistemas de saúde com caraterísticas semelhantes, embora em termos per capita cresçam a taxas maiores do que o PIB. A questão central é a da eficiência de tal gasto, nem sempre devidamente considerada, já que a ineficiência presente acarretaria, estima-se, prejuízo ao SUS de quase R$ 40 bilhões por ano, afetando principalmente os componentes de média e alta complexidade. Ganhos de eficiência podem ser de fato alcançados no sistema , por exemplo, com o aprimoramento de escala na estrutura e operação de hospitais; com a integração dos serviços em redes de atenção; conferindo densidade e melhor distribuição da força de trabalho; aprimorando os mecanismos e incentivos entre pagamentos e resultados em saúde, além da incorporação de inovações gerenciais, por exemplo, parcerias público-privadas. Tudo isso tendo fazendo da Atenção Primária à Saúde o vetor organizador do sistema. Nem tudo isso é objeto de consenso, claro, principalmente entre os defensores mais radicais do papel do Estado na gestão do sistema. Mas uma coisa é certa: a sobrevivência do SUS, em suas ideias matrizes, dependerá certamente de profundas melhorias na eficiência e na qualidade dos serviços que o mesmo oferece à população do país.
Continue Lendo “Aperfeiçoar o SUS não significa negar o SUS”O sonho de Dom Bosco: o povo de rua no DF ainda procura pela tal fonte de “leite e mel”
A Codeplan-DF nos apresenta os resultados de uma pesquisa sobre o perfil da população em situação de rua em nossa cidade, que teve como objetivo quantificar e diagnosticar o perfil da população em tal situação no Distrito Federal, visando subsidiar proposições e políticas públicas alinhadas às necessidades dessa gente. Assim, foi realizada não só uma contagem das pessoas em situação de rua que estivessem no espaço das vias públicas, em serviços de acolhimento institucional e em comunidades terapêuticas, mas também a caracterização, por amostragem, do perfil de tais pessoas. Esta pesquisa vem suprir uma lacuna de 11 anos sem estudos de tal natureza, já que o último destes, realizados pela Universidade de Brasília, data de 2011. O fato é que nesta última década muita coisa mudou na cidade – e para pior – considerando que nos últimos dois anos e meio tivemos uma pandemia, na qual a necessidade de isolamento trouxe novos impactos para a população em situação de rua. Afinal, se a ordem geral é para ir para a casa, para onde iriam as pessoas que não dispõem de moradia? E é em tal cenário que a população que ocupa os espaços da rua saltou aos olhos de todos nós, mesmo daqueles que não estavam acostumados – ou de alguma forma se recusavam – a enxergá-la. As constatações mais simples de tal estudo são que a população em situação de rua é heterogênea, está em uma situação de pobreza e sem vínculo com uma moradia fixa. Contudo, o que o senso comum diz sobre tais pessoas nem sempre é preciso, mostrando a pesquisa, por exemplo, que tais pessoas, no geral, estão em situação de insegurança alimentar, querem sair da situação de rua e buscam um emprego para conseguir essa mudança. O leitor poderá acessar o texto completo do relatório no link ao final, mas aqui vai uma síntese dos achados do mesmo, além de alguns comentários meus. Nada mais distante daquele sítio onde jorraria “leite e mel”, segundo o sonho atribuído a São João Bosco, ainda no século XIX e que faz parte do imaginário de Brasília desde os anos de sua fundação – sonho enganoso, como se vê.
Continue Lendo “O sonho de Dom Bosco: o povo de rua no DF ainda procura pela tal fonte de “leite e mel””Dialogando com Yuval Harari
Yuval Noah Harari, para quem ainda não o conhece, é o historiador e pensador israelense, de 46 anos, que vem batendo recordes sucessivos com seus best sellers Homo Deus; Sapiens, uma breve história da humanidade; 21 lições para o século 21, além de outros. Mais recentemente ele escreveu Notas sobre a Pandemia e Breves Lições para o mundo pós coronavirus, com óbvio foco na situação em que vivemos, todos os membros da humanidade, sem exceção, no presente momento. Supor que eu possa “dialogar” com tal personagem é uma enorme pretensão de minha parte, mas mesmo assim resolvi juntar, e dispor em paralelo, sob a forma de uma suposta “entrevista”, coisas que tenho escrito neste blog desde fevereiro de 2020 sobre tal assunto, por acaso com alguma conexão com algumas considerações de Harari enfeixadas nas tais Notas sobre a Pandemia. São registros de um tempo do qual um dia recordaremos com alívio (ou não…), mas que de toda forma tem deixado suas marcas em cada um de nós e na humanidade como um todo, para o bem ou para o mal. Sem perder a oportunidade, é claro, de inserir alguns comentários sobre a situação brasileira atual, seja política ou sanitária. Em todo caso, cabe lembrar o que o próprio autor israelense escreveu em seu último livro: agora não é o momento de contar a história da pandemia, mas de fazer tal história acontecer. Mas ainda assim, vamos em frente.
Continue Lendo “Dialogando com Yuval Harari”Dilemas de Cândido: ser saudável e (ou) ser feliz
José Cândido, conhecido como Candinho é motorista de caminhão e adora uma cervejinha com os amigos, de preferência acompanhada por um bom torresmo. Seu problema é ser hipertenso e apresentar sobrepeso, mas ele bem que daria uma fortuna por usufruir sem culpa desses momentos especiais, que vão se tornado cada vez mais raros, pelos seus compromissos de trabalho. Eis que ele teme, especialmente, por sua saúde, da qual depende para continuar na estrada. Assim como Candinho, a maioria das pessoas quer ser, não só feliz, como também saudável. Nada mais natural. Sobre isso li um artigo interessante, no qual se revelam alguns fatores determinantes do otimismo ou do pessimismo das pessoas perante sua saúde e a vida em geral (ver link ao final: Adler et al). Foram entrevistadas cerca de 4 mil pessoas, no Reino Unido e nos EUA, às quais se pediu que fizesse escolhas entre ser feliz ou ser fisicamente saudável. Os resultados sugerem que existem negociações internas sobre isso nas pessoas, ou seja, a ocorrência de um chamado trade-off, decisão que consiste na escolha de uma opção em detrimento de outra. e que isso seria determinado em parte substancial pelos próprios níveis de felicidade e saúde das mesmas. Assim, as pessoas infelizes parecem mais propensas a escolher vidas infelizes e pessoas insalubres mais propensas a escolher vidas insalubres. Tais resultados parecem confirmar um adágio popular daqueles países: “é melhor se haver com um diabo que você já conheça”, ou algo assim. A idade também desempenha um papel importante, já que pessoas mais velhas são mais propensas a escolher ser saudável em vez de ser feliz. Informações sobre adaptação às condições físicas de saúde também parecem importantes, embora com menos força do que as características dos entrevistados. Sem dúvida isso tem implicações para os formuladores de programas e políticas de saúde, se estiverem preocupados em satisfazer este tipo de preferência em seu público alvo.
Continue Lendo “Dilemas de Cândido: ser saudável e (ou) ser feliz”Revolução digital e medicina de dados: para além dos rótulos
| A revolução digital interessa ao SUS? Os estudos estatísticos sobre riscos de adoecimento na população interessariam apenas aos planos de saúde que faturam com a ausência de doenças entre as “vidas” que cobrem? Ou por outra, a ciência do cálculo atuarial interessaria também aos profissionais de saúde pública? A medicina de dados é apenas uma questão de mercado em saúde? Afinal. a tecnologia da informação é de Direita ou de Esquerda? São perguntas que começam a gritar, embora as respostas para elas nem sempre estejam muito claras na mente dos que defendem uma saúde pública e extensiva como direito a toda a população. Mas precisam ser encaradas de frente. Uma dessas questões, pelo menos, tive a surpresa de ver destrinchada pelo médico e doutor em bioética Luiz Viana Sobrinho, em obra que está sendo relançada agora, intitulada O Ocaso da Clínica, na qual ele alerta que os defensores da Reforma Sanitária não podem voltar as costas para as tecnologias da informação consubstanciadas na chamada medicina de dados. E adverte para o risco de se render e entregar ao setor privado uma ferramenta de enorme potência e alto interesse para o SUS |
