Dialogando com Yuval Harari

Yuval Noah Harari, para quem ainda não o conhece, é o historiador e pensador israelense, de 46 anos, que vem batendo recordes sucessivos com seus best sellers Homo Deus; Sapiens, uma breve história da humanidade; 21 lições para o século 21, além de outros. Mais recentemente ele escreveu Notas sobre a Pandemia e Breves Lições para o mundo pós coronavirus, com óbvio foco na situação em que vivemos, todos os membros da humanidade, sem exceção, no presente momento. Supor que eu possa “dialogar” com tal personagem é uma enorme pretensão de minha parte, mas mesmo assim resolvi juntar, e dispor em paralelo, sob a forma de uma suposta “entrevista”, coisas que tenho escrito neste blog desde fevereiro de 2020 sobre tal assunto, por acaso com alguma conexão com algumas considerações de Harari enfeixadas nas tais Notas sobre a Pandemia. São registros de um tempo do qual um dia recordaremos com alívio (ou não…), mas que de toda forma tem deixado suas marcas em cada um de nós e na humanidade como um todo, para o bem ou para o mal. Sem perder a oportunidade, é claro, de inserir alguns comentários sobre a situação brasileira atual, seja política ou sanitária. Em todo caso, cabe lembrar o que o próprio autor israelense escreveu em seu último livro: agora não é o momento de contar a história da pandemia, mas de fazer tal história acontecer. Mas ainda assim, vamos em frente.

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A heroína e o psicopata

Nise da Silveira é uma verdadeira brasileira de mérito. Já nos anos 40 ela se rebelara contra os métodos desumanos então aplicados a pacientes com transtornos mentais, como o eletrochoque, a lobotomia e o confinamento, entre outros, como formas punição mais do que de alívio de sofrimentos. Seus opositores, numerosos na ocasião, trataram de transferi-la para a área de terapia ocupacional, onde ela também encontrou espaço para desenvolver um modelo humanizado de tratamento, através de uma teoria associada a práticas de realce às expressões dos sentimentos dos pacientes por meio das artes, especialmente da pintura, mas também da música. Tal produção artística ganhou reconhecimento, em muitos casos, pela qualidade estética, demonstrando também resultados positivos na recuperação de seus autores. A Casa das Palmeiras, fundada por Nise ainda em 1956 com foco em reabilitar sem internação, de forma praticamente inédita no Brasil, também investiu no processo criativo e afetivo dos pacientes. Além da arte, o contato com gatos e cães foi outro tratamento introduzido por ela no país, facultado aos pacientes cuidar de animais nos espaços abertos do centro, estabelecendo vínculos afetivos que também contribuíam para seu bem estar.  Há instituições inspiradas no trabalho dela — algumas nomeadas em sua homenagem — em Portugal, na França e na Itália, além de cidades brasileiras como Juiz de Fora, Recife, Porto Alegre e Salvador, entre outros. E não seria nada demais também creditar a Nise a honra de ter sido precursora dos movimentos de reforma da saúde mental no Brasil. que culminaram, a partir dos anos 80, com a ampla desospitalização dos tratamentos e a libertação dos pacientes de estruturas que se pareciam mais com prisões do que com verdadeiras instituição de saúde. Pois bem, foi a esta verdadeira heroína nacional, que o delinquente que ora ocupa a Presidência da República (por não muito tempo mais, esperamos todos), negou a inscrição no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Isso ainda pode ser vetado pelo Congresso e as pessoas de bem, como eu e vocês, esperamos que de fato aconteça. O PR (psicopata renitente) alegou que a proposta representaria “contrariedade ao interesse público” e que também não seria possível avaliar “a envergadura dos feitos” de Nise e o impacto destes no desenvolvimento da nação, culminando ainda com a estúpida afirmativa de que tal homenagem seria relacionada a “ideais dissonantes das projeções do Estado democrático”. É isso aí, este indivíduo desentende completamente o que é interesse público ou Estado democrático, bem como os “feitos” terapia ocupacional, humanização da assistência, psiquiatria moderna, fazer o bem, práticas inovadoras, etc. Na verdade ele não sabe nem mesmo o que é ser Presidente de um País como o Brasil, com letras maiúsculas. Em termos de heroísmo e contribuições à pátria, seu entendimento esbarra em personagens como Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho, Daniel Silveira – tipos assim. E suas conhecidas limitações morais, afetivas e intelectuais o impedem de ir mais longe do que isso. Mas felizmente, para nossa alegria, outubro vem aí…

Em tempo: minha querida Henriqueta Camarotti, profissional de Saúde Mental e militante histórica da luta antimanicomial no DF me lembra que Nise da Silveira foi, de fato, uma grande inspiradora do de tal Movimento no Brasil e que aqui em Brasília foi graças ao trabalho dela que foi criado o atelier de ArteTerapia do Instituto de Saúde Mental, coordenado por Elisa Garcia, no final dos anos 80. Lembra ela, ainda, da grande determinação de Nise em seus propósitos e sonhos, na capacidade de superar as adversidades sem perder o sentido humanitário, libertário e amoroso. Mesmo quando tudo conspirava para as grades e as camisas de força ela era capaz de criar novos caminhos, com uma potente criatividade em desbravar territórios inóspitos – era sua grande marca.

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Dilemas de Cândido: ser saudável e (ou) ser feliz

José Cândido, conhecido como Candinho é motorista de caminhão e adora uma cervejinha com os amigos, de preferência acompanhada por um bom torresmo. Seu problema é ser hipertenso e apresentar sobrepeso, mas ele bem que daria uma fortuna por usufruir sem culpa desses momentos especiais, que vão se tornado cada vez mais raros, pelos seus compromissos de trabalho. Eis que ele teme, especialmente, por sua saúde, da qual depende para continuar na estrada. Assim como Candinho, a maioria das pessoas quer ser, não só feliz, como também saudável. Nada mais natural. Sobre isso li um artigo interessante, no qual se revelam alguns fatores determinantes do otimismo ou do pessimismo das pessoas perante sua saúde e a vida em geral (ver link ao final: Adler et al). Foram entrevistadas cerca de 4 mil pessoas, no Reino Unido e nos EUA, às quais se pediu que fizesse escolhas entre ser feliz ou ser fisicamente saudável. Os resultados sugerem que existem negociações internas sobre isso nas pessoas, ou seja, a ocorrência de um chamado trade-off, decisão que consiste na escolha de uma opção em detrimento de outra. e que isso seria determinado em parte substancial pelos próprios níveis de felicidade e saúde das mesmas. Assim, as pessoas infelizes parecem mais propensas a escolher vidas infelizes e pessoas insalubres mais propensas a escolher vidas insalubres. Tais resultados parecem confirmar um adágio popular daqueles países: “é melhor se haver com um diabo que você já conheça”, ou algo assim. A idade também desempenha um papel importante, já que pessoas mais velhas são mais propensas a escolher ser saudável em vez de ser feliz. Informações sobre adaptação às condições físicas de saúde também parecem importantes, embora com menos força do que as características dos entrevistados. Sem dúvida isso tem implicações para os formuladores de programas e políticas de saúde, se estiverem preocupados em satisfazer este tipo de preferência em seu público alvo.

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“Eixão do Lazer” e câncer de pele: algo a ver?

O câncer de pele é o tema do post de hoje. Por que, exatamente? Vamos analisar alguns dados sobre isso a seguir. Mas de saída minha preocupação é de outra natureza, ou seja, a exposição maciça das pessoas aqui no DF à luz solar, sabidamente um fator determinante na origem de tal neoplasia. É claro que sol não existe só aqui, mas em toda parte. Mas é bom lembrar que aqui em Brasília temos pela frente, a partir de agora, seis meses, no mínimo, de sol inclemente, em nossa cabeça, em nossa pele. E tal exposição é aumentada e incentivada pela liberação de “áreas de lazer”, como o Eixão, a Ponte JK e muitas outras, nas quais não bastasse a radiação que vem de cima, há que se lidar também com aquela refletida pelo asfalto. Não é que eu seja contrário a tal ideia; movimento, convívio social e exposição à luz são coisas sempre saudáveis. Mas acima de tudo penso que a liberação de tais áreas, somada agora à da Ponte JK (a meu ver injustificada), exigiria medidas complementares, que incluíssem no mínimo a conscientização dos usuários, mas também a eventual distribuição de produtos e objetos protetores, como bonés e cremes, além da restrição de horários de uso, por exemplo.

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Revolução digital e medicina de dados: para além dos rótulos

A revolução digital interessa ao SUS? Os estudos estatísticos sobre riscos de adoecimento na população interessariam apenas aos planos de saúde que faturam com a ausência de doenças entre as “vidas” que cobrem? Ou por outra, a ciência do cálculo atuarial interessaria também aos profissionais de saúde pública? A medicina de dados é apenas uma questão de mercado em saúde? Afinal. a tecnologia da informação é de Direita ou de Esquerda? São perguntas que começam a gritar, embora as respostas para elas nem sempre estejam muito claras na mente dos que defendem uma saúde pública e extensiva como direito a toda a população. Mas precisam ser encaradas de frente. Uma dessas questões, pelo menos, tive a surpresa de ver destrinchada pelo médico e doutor em bioética Luiz Viana Sobrinho, em obra que está sendo relançada agora, intitulada O Ocaso da Clínica, na qual ele alerta que os defensores da Reforma Sanitária não podem voltar as costas para as tecnologias da informação consubstanciadas na chamada medicina de dados. E adverte para o risco de se render e entregar ao setor privado uma ferramenta de enorme potência e alto interesse para o SUS
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