O Entorno, mais uma vez (que certamente não será a última)…

Entorno ou transtorno? O trocadilho pode parecer infame, mas certamente se equipara à recente troca de amabilidades entre os excelentíssimos governadores do DF e de Goiás, tendo este último debochado da rima do nome de Ibaneis, com pequenez. Poderia ser pior, com pequinês, por exemplo, mas não se chegou a tanto. A questão que os moveu, uma vez mais, é a mesma de sempre: a ultrapassagem das fronteiras federativas para a busca de atendimento à saúde em Brasília. Isso certamente acontece com intensidade na presente pandemia, mas na verdade vem acontecendo historicamente desde que o “quadradinho” se emancipou de sua Terra Mater, já se vão mais de 60 anos. Parece que as autoridades locais não se lembram – ou se esquecem de propósito – que quem vem dos territórios vizinhos para trabalhar aqui vem também para fazer compras, utilizar serviços pagos e realizar outras atividades que contribuem para a economia do DF. Além do mais, a Constituição assegura o direito de ir e vir (até agora, pelo menos). A solução para isso não está em colocar barreiras e catracas, criando assim um apartheid interfederativo peculiar. Caiado e Ibaneis, pelo visto, se espelham no Átila do Alvorada no negacionismo da pandemia, mas também na imitação da truculência de tal personagem. Desta vez o ruralista goiano fez “bingo”; de outra, a vitória poderá ser do rábula local. Mas uma coisa é certa: quem perde é o povo dos dois lados da fronteira (que em alguns lugares não passa de uma simples rua). Agora, falando sério, excelências: que tal tratar este assunto com maior profundidade e responsabilidade?    

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A Atenção Primária à Saúde no controle da Covid-19: experiências e análises no DF

Registro aqui hoje, com real satisfação, três artigos publicados na recém lançada Revista HRJ, sobre a qual já comentei aqui. A revista e também os autores de tais artigos são ligados à Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) da SES-DF e trazem à luz importantes contribuições ao entendimento das estratégias de atenção à presente pandemia. Com efeito, o panorama de informações sobre tal fenômeno, de um lado, digamos “do bem”, é muito enfático a respeito de uma tríade, constituída por medidas de isolamento, uso de máscaras e vacinação (quando esta estiver disponível). Do outro lado, este o mais maléfico possível, “capitaneado” por autoridades diversas, estão a prescrição de cloroquina, de ivermectina, do remédio israelense, além de desprezo e negligência face ao potencial incapacitante e letal do vírus. Mas mesmo naquelas recomendações “sensatas”, creio que tem faltado enfatizar uma cristalina verdade, confirmada nos quatro cantos do mundo, qual seja a relevância que possuem os sistemas de saúde organizados com base na atenção primária no controle da situação pandêmica que atravessamos e de seu enorme custo material e humano. É disso que tratam os artigos aqui analisados neste momento, com a vantagem que traduzem visão e também experiências que têm como sede a nossa cidade.

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No meio de tanta desgraça, coisas boas acontecem no DF

Como disse Portinari ao Duque de Edinburgh: Não pinto flores, só pinto miséria… Está difícil NÃO falar de Covid aqui no DF, onde a doença já matou até o dia 1º de abril último (e não é mentira) , 6.150 pessoas, com quase 350 mil casos confirmados. Não há rigorosamente flores, ou melhor, notícias boas no cenário. Vasculhando, porém, a internet, verifico que há uma informação que não chega a ser rigorosamente nova, mas sim de meados do ano que passou, mas que continua merecendo divulgação e louvor – ainda mais em momento com o presente. Eis que a nossa cidade conquistou o primeiro lugar em índice denominado de Município Amigo da Primeira Infância (Imapi), através do qual são avaliados 31 indicadores sociais e de saúde, que incluem a oferta de políticas públicas e de ações, serviços e práticas familiares voltados ao desenvolvimento infantil em termos de saúde, nutrição, cuidado responsivo, aprendizagem inicial, segurança e proteção. Isso foi obtido através do Programa Criança Feliz Brasiliense, o qual, ao contrário do que eu, pelo menos, esperava, NÃO se trata de uma ação da SES-DF, mas sim da Secretaria de Desenvolvimento Social. Tudo bem, desde que aconteça de fato, o locus institucional não importa. Em tal programa, a finalidade é apoiar as famílias em seu papel protetivo, além de ampliar a rede de atenção e cuidado para o desenvolvimento integral das crianças na primeira infância, contando, para isso, com visitas domiciliares, articulação intersetorial, fomento de habilidades das mães com o cuidado relacionados à vacinação em dia; nutrição, a alimentação diária adequada por fase da vida; incentivo à capacidade dos responsáveis, pais ou cuidadores em perceber, entender e responder os sinais das crianças de maneira apropriada, além de foco na oportunidade de integrar pessoas, locais e objetos no acesso à escola na faixa etária adequada e também segurança e proteção, ofertando ambientes seguros dentro e fora de casa. Este programa atua em nada menos do que 100 creches, públicas ou conveniadas, nas quais são atendidas atendem mais de 23 mil crianças, com componentes de educação precoce e acompanhamento especial desde os primeiros dias de vida,

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O evangelista Mateus nos anuncia o que trará o futuro pós pandemia…

Recebo de mais de um de meus “correspondentes” do Whatsapp, um texto com propostas sobre o que estaria por vir depois desta pandemia, que teria sido elaborado por cerca de 50 especialistas reunidos pela revista The Economist. Não confirmei se a matéria é verdadeira quanto à sua origem – hoje em dia nunca se sabe – mas sem dúvida ela traz conclusões que me pareceram razoáveis, embora pecando por certo otimismo, que me pareceu sem total correspondência com a realidade. Mesmo assim me senti tentado a aproveitar para expandir a tal conversa por minha conta e risco, com foco na saúde, seja no tocante às pessoas, individualmente, seja à maneira como organizá-la, socialmente. Eis que o futuro desta nossa área é certamente preocupante. Baseio-me, especialmente, no epílogo de tal documento, que nos alerta que inovação, tecnologia, além de um modo integrado de pensar serão a base da nova realidade e que assim, continuar fazendo o que sempre se fez é um caminho para a perdição, no que os autores, sejam eles quem forem, fazem um convite ao encontro de novas maneiras e vias de ação, individuais e coletivas. Veja a matéria completa (muito mal traduzida, por sinal) depois de meus comentários. Se que saber como Mateus entra nesta história, leia até o final…

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Na Saúde filas não podem fazer “parte da paisagem”

É possível acabar ou minimizar as filas nos serviços de saúde? Antes de tentar desenvolver esta questão, é bom avisar: as filas na saúde já existem, são históricas no Brasil, seja na variedade virtual ou física, e na gestão da atual pandemia, diante da incúria e da incompetência do governo federal, seja no conjunto da obra ou no caso específico da vacinação da população, sua tendência é aumentar, radicalmente. Já se disse que a guerra é assunto muito sério para ficar nas mãos de militares; mas e a Saúde, seria séria o bastante? O ministro da saúde (em minúsculas na atual conjuntura), apresentado como autoridade no campo da logística, talvez tenha obtido seus maiores feitos no provimento de “ranchos” para unidades militares na Amazônia, assim mesmo adquirindo suprimentos em algum mercadinho de esquina ou, quem sabe, fazendo campanhas para que os recrutas trouxessem marmitas de casa. Sob a gestão militar da saúde o país garantiu o suprimento de vacinas para não mais do que 20%, não exatamente da população como um todo, mas apenas dos grupos de maior risco. Então, podemos nos preparar para medir as filas de vacinação em quilômetros, da mesma forma que os engarrafamentos de final de tarde em Sampa. Mas vamos ao foco que interessa: o triste espetáculo das grandes filas na porta das Unidades de Saúde, formadas muitas vezes durante a madrugada, presentes não só aqui no DF como em muitas partes do Brasil, ao ponto de terem se tornado “partes da paisagem” urbana, certamente a serem incrementadas a partir de agora, reflete o estado de desorganização e precariedade dos nossos serviços de saúde. Mas não é só isso: caberia indagar, sem dúvida: será que alguns dos que estão ali não deviam ou não precisariam estar? E para os demais, os realmente necessitados, o que importa de fato?  

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