Armínio Fraga, quem diria, mereceria ser ouvido quando fala da saúde

O Brasil é um país estranho. Há generais que defendem a democracia; um ex ator pornô que agora é paladino da moralidade; um juiz que toma parte na acusação de seus réus; um defensor da probidade que contrata para seu gabinete uma vendedora de açaí que continua em seu negócio a mais de mil km de distância. Só faltava esta, vejam só: … uma figurinha carimbada do mercado financeiro, Armínio Fraga, se mete a dar palpites sobre o SUS. Mas, preconceitos à parte, não é que ele tem razão em muitas das coisas que diz? Ele, ex-presidente do Banco Central no governo FHC e agente bem sucedido no mercado financeiro, aqui e alhures, seria uma pessoa cuja opinião certamente não seria valorizada pelos defensores do SUS. Rico, tucano, queridinho dos mercados, executivo e professor de sucesso no exterior, este cara seria o último da fila a ser ouvido pela militância, em busca de sugestões para o aperfeiçoamento do nosso sistema de saúde. Armínio tem o perfil de quem jamais precisou do SUS e nem precisaria. Exceto, talvez, se fosse candidato a um transplante (mas que Deus o livre, claro!). Continue Lendo “Armínio Fraga, quem diria, mereceria ser ouvido quando fala da saúde”

Eu fico com a pureza da resposta das crianças…

O Hospital da Criança de Brasília (HCB) é personagem frequente de publicações neste blog. A maioria das vezes refletindo preocupações com os ataques e ameaças que a instituição tem recebido de alguns setores, hoje felizmente isolados, do Ministério Público do DF. Já falei muito sobre tal carga ideológica (desculpem usar esta palavra, mas ela não deve ser privilégio de certos indivíduos que só enxergam ideologia … nos outros). Vamos pular esta parte. A gestão da coisa pública por organizações sociais pode ser boa ou ruim e pode não servir para todos os casos. No caso do HCB, ela é boa e adequada à situação. Ponto final. Os pacientes, seja diretamente, seja através de suas mães e pais o confirmam diuturnamente. Eu quero falar aqui da festa do oitavo ano da instalação do hospital em parceria com a SES-DF, realizada no último dia 22 de novembro, na qual estive presente. Para dizer em poucas palavras: nada de corredores entupidos, pintura descascada, pisos esburacados, cheiro de formol, pacientes malvestidos, almoxarifados desguarnecidos, goteiras, fios desencapados, roupa suja e comida trafegando nos mesmos elevadores, além de um ambiente impregnado de odores, visões e energias que traduzem sofrimento, aquelas coisas que os hospitais ditos “públicos” abundam em mostrar. Nada disso. Bem ao contrário, um ambiente humanizado, onde imperavam limpeza, alegria, luz, música, risos, aplausos, felicidade, esperança. Poderia ser assim em um hospital estatal? Por que não? Continue Lendo “Eu fico com a pureza da resposta das crianças…”

O SUS vive!

Hoje vamos abrir uma exceção e publicar uma entrevista com um terceiro, fugindo da rotina deste blog. Mas trata-se de uma pessoa notável, amigo de muitos brasileiros, do Brasil e do SUS. Ele é Renato Tasca, italiano de Turim e responsável pela área de serviços de saúde da OPAS no Brasil. Mais brasileiro do que muitos brasileiros! Ele falou à jornalista Cristiane Segatto sobre o momento atual do nosso SUS, segundo ele um dos maiores programas sociais não só do Brasil como do mundo todo. Ele é taxativo “ na maioria dos países e, sobretudo, naqueles do tamanho do Brasil (China e Índia), não existe nada como o SUS. Se o pobre quiser uma cura, tem que pagar. Ter um SUS é o grande sonho de consumo dos cidadãos de muitos países. Nos Estados Unidos, o número de famílias que se ferram, que perdem tudo por causa de contas de hospital é enorme”. E prossegue: “é uma pena que hoje todo o esforço na criação e desenvolvimento do sistema não seja reconhecido. Hoje as pessoas acreditam mais em fake news do que em um artigo científico publicado no The Lancet. Não podemos desistir. É preciso acabar com a narrativa de que o SUS não funciona”. Bem no seu estilo, arremata: “O SUS está vivinho da silva…” Veja a entrevista completa no link: https://cristianesegatto.blogosfera.uol.com.br/2019/11/20/o-sus-esta-vivinho-da-silva-e-o-sonho-de-consumo-em-muitos-paises/

A jabuticaba chamada Distrito Federal

Isso aqui é um município ou um estado? A questão tem a ver diretamente com um tema recém entrado na ordem do dia: a reforma administrativa agora em discussão, na qual se questiona o número (e a racionalidade da existência) de muitos municípios no Brasil, com a consequente extinção de muitos deles. Talvez fosse o caso de extinguir, também, o falso “estado” em que se transformou o DF, para transformá-lo em município. No que tange às municipalidades, a proposta de reforma da estrutura geopolítica do país poderia ser caso de raro acerto do atual Governo, não fosse o caráter de “cágado” (atenção para a acentuação proparoxítona!) – ou jabuti – de tal medida, ou seja, aquela criatura posta artificialmente em um dos galhos da árvore da reforma administrativa, mas com todo mundo sabendo que isso acontece apenas para que o simpático quelônio possa ser retirado em processos de negociata – digo, negociação – com o Congresso Nacional. Afinal, sem deixar as metáforas relativas à natureza, a justificativa para a existência de muitos dos municípios brasileiros certamente é uma daquelas frondosas jabuticabeiras que vicejam por aqui. Mas é bem verdade que, não só essas populares mirtáceas não são exclusivas do Brasil, como certos análogos metafóricos delas ocorrem também em outros países da América Latina – a atual senhora que preside a vizinha Bolívia, com uma bíblia na mão e um pote de laquê nos cabelos é bem uma prova disso, para não falar na Venezuela, país que tem parlamentos e presidentes em duplicata – e  nenhuma perspectiva de vir a dar certo. Continue Lendo “A jabuticaba chamada Distrito Federal”

Autonomia e flexibilidade: quem não deseja isso no Serviço Público?

A gestão de serviços de saúde por administração estatal direta não é certamente a mais racional, em termos de autonomia e flexibilidade, mas é o que acontece na maioria das situações no Brasil. Aqui no DF, embora a situação mais comum seja esta, as coisas começam a mudar, com a vigência de contrato com o Icipe (Hospital da Criança), uma Organização Social – OS, e a criação de uma nova instância de gestão, o Iges, um Serviço Social Autônomo – SSA. Polêmicas não faltam, principalmente entre sindicalistas, oposição na Câmara Legislativa e certos setores ideológicos hard do Ministério Público. Mas é hora de encarar as coisas de frente, com clareza, sem preconceitos e sem ideologia – ou pelo menos dentro da boa ideologia da relevância da coisa pública e do interesse da sociedade. Eu acredito que isso seja possível. Alguns argumentos…   Continue Lendo “Autonomia e flexibilidade: quem não deseja isso no Serviço Público?”