Em seu grotesco depoimento à CPI da Covid, o General Pazuello pelo menos nos ofereceu uma lição inesquecível, ao demonstrar de maneira bem clara e didática, por sinal, tudo aquilo que um homem público, um ministro que faça jus a tal cargo, NÃO deve e nem pode ser: mentiroso, ignorante, pusilânime, dependente, obtuso, antolhado, limitado, indiferente. E como se não bastasse, omisso e arrogante. De quebra, nos ofereceu a possibilidade de entender que tais atributos, ou seus opostos, nos permitiriam uma completa definição sobre o que deveria constituir o currículo de um bom Ministro da Saúde, seja do ponto de vista técnico ou político. Não é supérfluo lembrar, aliás, que já tivemos alguns exemplos de gente digna na gestão da saúde do país, na nossa história recente. De saída, lembro-me de José Serra e Agenor Alvares, nos governos FHC e Lula, respectivamente. E nenhum dos dois era médico, diga-se de passagem, o que indica que tal profissão não é um requisito fundamental para o cargo. Pode até ser militar, sem problema, mas tem que ser competente. Seria bem fácil resgatar da memória ou de algum dicionário os antônimos de todos aqueles adjetivos citados e que constituem o perfil do general de três estrelas, para definir, ainda que de maneira genérica, o tal perfil desejável. Mas vamos fazer uma síntese, por partes.
Continue Lendo “E não é que o General nos deixou alguns ensinamentos…”Comparando políticas e atuações de governos na Covid-19
Não dá para passar batido: até ontem, dia em que se comemora a abolição (?) da escravatura no Brasil, 432.628 pessoas haviam morrido de Covid no país; só no DF, 8275. Estamos longe de ficar “libertos” de tal praga, pelo visto. A atual pandemia representa, com efeito, um desafio dramático na atualidade, criando em muitos locais uma crise ao mesmo tempo de saúde pública, econômica e política, com números espantosos de incidência e mortalidade, além de medidas impactantes sobre a vida das pessoas. Daí derivam situações expressivas e polêmicas, tais como restrições de mobilidade, consequências econômicas no desemprego ou nos gastos do setor público. Assim economias inteiras foram colocadas em verdadeiro “coma induzido”, com duras medidas de saúde pública e sistemas de saúde e estados sendo submetidos a testes severos e inéditos. Menos mal, a atual situação oferece também a chance de ser explicada dentro de diferentes territórios disciplinares, ajudando assim a compreender as atuais decisões de saúde pública, bem como as políticas globais de saúde no futuro, facultando entender melhor tanto a política como os políticos. Trabalho realizado por pesquisadores das Universidades de Michigan e Washington (EUA), além da FGV (SP) procurou identificar e explicar os fatores mais importantes na abordagem da Covid-19 entre e dentro de regiões e países, buscando abordagens multidisciplinares para aprofundar algumas ideias sobre o significado e as lições dessa doença para a política de saúde e a saúde global. E isso nos interessa de perto, seja em relação à atual situação do Brasil ou mesmo do DF. Aliás, no referido trabalho, existem menções especiais à atual situação no Brasil, nada lisonjeiras, por sinal.
Continue Lendo “Comparando políticas e atuações de governos na Covid-19”A Pandemia e seus desdobramentos no mundo do trabalho
Não conto os mortos de faca nem os mortos de polícia; conto os que morrem de febre e os que morrem de tísica. Conto os que morrem de bouba, de tifo, de verminose: conto os que morrem de crupe, de cancro e schistosomose. Mas todos esses defuntos, morrem de fato é de fome, quer a chamemos de febre ou de qualquer outro nome. Morrem de fome e miséria quatro homens por minuto, embora enriqueçam outros que deles não sabem muito.
Ferreira Gullar teria que reescrever seu famoso poema para dar conta da situação atual, na qual a Covid mata mais do que a soma de todas as doenças que nele são arroladas. Mata por toxemia, por encharcamento de pulmões, por provocar a falência de órgãos diversos, por falha ou exagero do sistema imunitário, por comprometimento de funções vitais e mais ainda por retirar das pessoas condições de sobrevivência, por deixar famílias órfãs, por extinguir empregos, por dificultar a educação em exercer seu papel salvador de vidas, por desencadear quadros depressivos, de adição a drogas, de violência doméstica e até de autoextermínio. Sem esquecer que tem favorecido o aparecimento e a proliferação de profetas fajutos, líderes falsificados e psicopatas enrustidos. Não bastasse isso tudo, no Brasil o impacto de tal doença já comprometeu até a longevidade da população, com a expectativa de vida do brasileiro reduzida, em média, em praticamente dois anos, regredindo a patamares do início da década passada (link ao final) – para alegria de Paulo Guedes & Associados. Por tudo isso, trago aqui hoje discussão relacionada ao mundo do trabalho e dos empregos, onde residem fortes aliados do agente biológico da devastação que ora estamos assistindo.
Continue Lendo “A Pandemia e seus desdobramentos no mundo do trabalho”Na era pós Covid os serviços de saúde serão obrigados a se transformar
Como será amanhã? Responda quem puder. Esta semana descemos a mais um andar do Inferno: 7.494 mortos e 371.719 casos confirmados no DF, onde os vacinados com a 2ª dose pouco passam de 190 mil pessoas, menos de 10% da população. No Brasil 14.237.078 casos confirmados (69.105 nas últimas 24 horas) e 386.416 mortes. Vacinação a passos de cágado, enquanto a doença ainda avança na velocidade de um bólido. Cifras que nem nos nossos piores sonhos poderíamos admitir. Isso ainda vai passar, por certo, mas a cada dia vemos de forma cada vez mais remota a luz do final do túnel (ou seria um túnel no final da luz?). Mas não percamos as esperanças. Que tal começarmos, desde já, a pensar nas transformações que nos aguardam no futuro pós pandemia? Li por esses dias um artigo do arquiteto paulistano Nabil Bonduki (ver ao final), no qual ele faz um exercício deste tipo, mas apenas se atendo a questões de sua alçada profissional, ou seja, em relação ao urbanismo e vida nas cidades. Seguindo tal roteiro, tento aqui aprofundar questões da atenção à saúde em relação a um futuro próximo ou remoto. Penso que é preciso distinguir, em tais “augúrios”, o que deriva diretamente da situação pandêmica daquilo que já vinha sendo previsto como evolução da situação de saúde aqui e alhures, além da possível interação entre uma coisa e outra. Em qualquer uma dessas possibilidades os riscos de piora do que já está ruim não são desprezíveis. Portanto, não nos animemos muito, pois cabe pensar, acima de tudo, numa reorganização profunda dos serviços de saúde, para que se tornem adequados à era pós covid, ao mesmo tempo que deem resposta a problemas antigos da saúde da população. E vamos lá.
Continue Lendo “Na era pós Covid os serviços de saúde serão obrigados a se transformar”A Atenção Primária à Saúde no controle da Covid-19: experiências e análises no DF
Registro aqui hoje, com real satisfação, três artigos publicados na recém lançada Revista HRJ, sobre a qual já comentei aqui. A revista e também os autores de tais artigos são ligados à Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) da SES-DF e trazem à luz importantes contribuições ao entendimento das estratégias de atenção à presente pandemia. Com efeito, o panorama de informações sobre tal fenômeno, de um lado, digamos “do bem”, é muito enfático a respeito de uma tríade, constituída por medidas de isolamento, uso de máscaras e vacinação (quando esta estiver disponível). Do outro lado, este o mais maléfico possível, “capitaneado” por autoridades diversas, estão a prescrição de cloroquina, de ivermectina, do remédio israelense, além de desprezo e negligência face ao potencial incapacitante e letal do vírus. Mas mesmo naquelas recomendações “sensatas”, creio que tem faltado enfatizar uma cristalina verdade, confirmada nos quatro cantos do mundo, qual seja a relevância que possuem os sistemas de saúde organizados com base na atenção primária no controle da situação pandêmica que atravessamos e de seu enorme custo material e humano. É disso que tratam os artigos aqui analisados neste momento, com a vantagem que traduzem visão e também experiências que têm como sede a nossa cidade.
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