Há pouco mais de cem anos, inacreditavelmente, o Rio de Janeiro esteve mais perigoso do que é hoje. Nos primeiro anos do século XX a população carioca saiu às ruas com paus e pedras e, como se diz hoje, “botou pra quebrar”. Era a famosa “Revolta da Vacina”, contra as medidas saneadoras recém-implantadas por Oswaldo Cruz, que exercia então o cargo hoje equivalente ao de Ministro da Saúde. Mas, além das aparências, como pano de fundo estava o repúdio popular contra o desemprego, a estagnação, o descaso das elites da época (da época apenas?), a desilusão com as promessas republicanas. Como disse o cientista político José Murilo de Carvalho, “a revolta da vacina foi um exemplo paradigmático dos frequentes desencontros entre a virtude do governante e a virtude do povo”. Naqueles episódios, certamente, já estavam presentes alguns dos ingredientes que ainda hoje moldam a saúde pública, particularmente neste momento de pandemia e negacionismo, tais como os muitos sintomas de irresponsabilidade e autoritarismo das autoridades. Certamente, disso tudo ainda há muitas lições a retirar, mesmo considerando que em alguns aspectos a situação está, por assim dizer, invertida, eis que na ocasião o que motivava os protestos era exatamente a intransigência oficial em fazer as coisas acontecerem a ferro e fogo, enquanto hoje é da lavra oficial a negação das evidências da realidade. Mas o estado de revolta continua latente.
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