O Correio Braziliense, jornal com o qual colaboro esporadicamente, me pede um artigo sobre o que esperar do futuro governador do DF em matéria de saúde. Deve estar sendo publicado a qualquer momento, nesta véspera dramática de eleições, não só aqui em Brasília como no Brasil. Com os dois mil toques que me impuseram,não pude fazer nada melhor, mas pelo menos acredito que cansarei menos os leitores. Aqui vai.
Em primeiro lugar: saúde se organiza é pela porta de entrada, onde deve existir trabalho em equipe, cobertura ampla, sem soluções de continuidade, formadora de vínculos entre equipe e comunidade, longe da competição com a aquela coisa antiga que só funciona atrás do balcão.
Do ponto de vista gerencial, a descentralização orçamentária e decisória é imperiosa. Cada regional de saúde ou hospital deve dispor de orçamento próprio para que possa movimentar recursos sem enfrentar a poderosa e impermeável burocracia financeira centralizada. Isso deve ser associado a participação direta de usuários nas decisões.
O Entorno é um problema do DF e não deve ser considerado como mero transtorno à vida de quem mora aqui. É gente que ali está por ter sido atraída por políticas clientelistas e irresponsáveis. A solução deve passar pela gestão solidária e responsável por parte dos governos do DF e de Goiás, além das Prefeituras, assim como pela participação federal, através do Ministério da Saúde, que deve assumir um papel de coordenação de um sistema de saúde realmente integrado.
Blindagem política é uma expressão utilizada com mais frequência para indicar a vedação a cabos eleitorais de ocuparem cargos no governo. Isso precisa ser controlado com rigor, pois a máquina pública brasileira é muito permeável aos interesses privados, seja de empresas, de grupos políticos, ou de sindicatos. Estes, quando não são cooptados, optam por atitudes de bloqueio e grevismo – a tal blindagem deve alcançar tudo isso.
Os bons sistemas de saúde no mundo já fizeram opção de introduzir responsabilização, mérito e resultados como ingredientes da remuneração dos trabalhadores, valendo também para os contratos que o setor público estabelece com o privado. É claro que as lideranças sindicais não apreciam algo assim, a que acusam de “assédio moral”.
Por último, por óbvio que pareça, foco em quem precisa mais. É supérfluo, a meu ver, o que fazem os ditos “progressistas”, ao nomear exaustivamente os destinatários das políticas em listas que começam com LGBT, passam pelos indígenas do Setor Noroeste e terminam sabe-se lá onde. A soma de todas essas minorias, por mais carentes que sejam, não perfaz o todo social. Política pública se faz com foco em “mais para quem precisa mais”. No Brasil as carências são fundamentalmente econômicas, ou de oportunidades desiguais perante a vida.
