O lado B. do Brasil…

Pois é, o fatídico sétimo dia de outubro chegou e superou todas as nossas (más) expectativas… Quando digo “nossas” não estou falando de só mim, mas também de um monte de gente, muitos milhões de pessoas, que ainda acreditam, se não nos políticos, pelo menos em certas virtudes humanas, como tolerância, discernimento, capacidade de indignação, aceitação das diferenças.  Mas lamentavelmente somos minoria neste momento. Acho mesmo que vivemos uma situação ainda pior do que aquela de março-abril de 1964, quando ocorreu um golpe militar, que acabou por se esgotar e se arruinar progressivamente, embora só 20 anos depois. Mas agora, o monstro está para ser eleito! E quem o colocou em tal posição foi nosso vizinho, o cara do carro da frente, o moço que senta de nosso lado no ônibus, nossa faxineira, o balconista doa farmácia, o senhor aposentado que joga Damas na pracinha, a moça do caixa do supermercado. Foram eles que assim escolheram… Resignar? Talvez, provisoriamente, sim. Deu uma ajuda, também, para que tal coisa esteja acontecendo, a falta de juízo e de espírito público e de estadistas daqueles líderes que preferiram apostar em suas veleidades pessoais, ao invés de lutarem pela formação que fosse de uma geringonça, à moda portuguesa, para derrotar a Besta. Isso não nos consola em nada – e eles ficam nos devendo essa… Mas enquanto isso, vamos ver se na saúde o tal “mito” (está mais pra “mico”, se não um primata de maior porte) nos traz alguma novidade.

O programa de governo de tal sujeito é bastante vago, mas nisso ele até que não destoa de seus diversos concorrentes, mesmo do que vai com ele ao segundo turno. Mas, diferente deles, o capitão-que-não-debate fugiu de prestar esclarecimentos sobre o que pensa em eventos promovidos justamente para que os candidatos mostrassem a que vieram. No dia do debate final, alegou impedimento médico, mas não deixou de comparecer à entrevista soft que lhe aplicou a emissora concorrente, aquela do dízimo e do Templo de Salomão, cujo proprietário ganhou estatuto no Brasil de “líder religioso” – isso é que é jabuticaba, viu general?

Quatro páginas são dedicadas à saúde pelo capitão. Não chegam a ser textos, mas apenas slides, nos quais é repetido que “a saúde deveria ser muito melhor com os recursos que o Brasil já gasta!” E mais: “é possível fazer MUITO [em caixa alta mesmo] mais com os atuais recursos!”. Mais original (e falso) impossível…

Assim se fala em um “credenciamento universal” de médicos, através do qual “toda a força de trabalho da saúde poderá ser utilizada pelo SUS, garantindo acesso e evitando a judicialização. Isso permitirá às pessoas maior poder de escolha, compartilhando esforços da área pública com o setor privado”. E mais: “Todo médico brasileiro poderá atender a qualquer plano de saúde.” O novo liberal esqueceu de combinar isso com as corporações médicos, pelo visto. Além do mais, obrigar médicos a fazerem parte da base seja das operadoras de planos e seguros de saúde ou das unidades do SUS soa totalmente irreal, irresponsável, inócuo e até mesmo ilegal. Mas esta última parte não parece assustar muito e nem fazer recuar o capitão

Parece também incoerente, por utilizar o argumento de que o orçamento da saúde já é suficiente, o candidato não explicitar de onde arrancaria recursos para pagar tais consultas e procedimentos, em regime particular? Será que seria fechando serviços no SUS, para “economizar”? Algum esfaqueado em Juiz de Fora ou outra cidade do Brasil sentiria isso na carne imediatamente… Mas ele parece ignorar, também, que isso já foi tentado, no Brasil, com péssimos resultados, através dos “credenciamentos” nas priscas eras inampsianas, fontes de inesgotável corrupção.

O que não combina com falta de dinheiro é a criação de uma carreira de Estado para médicos, conforme defendem as entidades da categoria – sempre na contramão da expansão do sistema para quem precisa mais.  Seria no padrão do Judiciário e do Ministério Público, dos Auditores do Imposto de Renda, dos servidores do Legislativo? Vai custar caro…

O capitão prefere, contudo, recorrer à sua experiência como militar. Segundo ele, tais médicos da carreira única atenderiam em “áreas remotas e carentes do Brasil”. E ele explicou em entrevista na GloboNews, no seu linguajar tosco e claudicante de sempre: “Nós tínhamos no passado o Projeto Rondon. Eu servi no Mato Grosso do Sul por três anos. Era comum a gente receber leva de 15 médicos pra prestar o serviço militar obrigatório de um ano. E era comum pelo menos um médico casava-se (sic.) na cidade. Era tudo homem, não ia mulher. Casava-se na cidade e foi interiorizado dessa maneira. Com a carreira de Estado você vai botar no interior de Pernambuco – eu não conheço – (…) ele pode querer ficar lá, ou pedir demissão porque contraiu matrimônio e vai montar seu escritório lá. Isso pode acontecer (…) Essa interiorização vem por aí”.

Deu para entender? Então me expliquem: o fato de não ir mulher é bom ou é ruim? O que tem a ver Projeto Rondon com serviço militar obrigatório? Pelo visto, o candidato não “contraiu matrimônio” com a racionalidade e a verdade, mas apenas com o Sr. Paulo Guedes…

Ele também quer a inclusão de profissionais de educação física na Estratégia Saúde da Família. Finalmente uma proposta elogiável! Mas não é demais lembrar ao capitão que isso custa dinheiro…

Ele propõe ainda “treinar” agentes comunitários de saúde para se tornarem “técnicos de saúde preventiva”, coisa que já é possível, embora enfrente a resistência dos prefeitos, temerosos que tal upgrade na escolaridade dos ACS representem aumento de despesas. A política atual é de que esses agentes façam um curso técnico de enfermagem, não de “saúde preventiva”, coisa que nem existe de fato. Portanto, a “novidade” em foco não carrega nada de novo, além de ser inócua.

Diz ele ainda que “nossos irmãos cubanos” serão “libertados” do programa Mais Médicos. Puro alinhamento com as surradas bandeiras das entidades corporativas. Falta combinar com os médicos intercambistas…

Ah, ele quer que as “gestantes façam consultas com dentistas” para evitar os partos prematuros. Só isso, candidato? Os problemas realmente relevantes neste campo, como tabagismo, baixo nível socioeconômico, nutrição inadequada, infecções urinárias e malformações fetais, não constam se suas preocupações com as gestantes?

Aliás, sempre que pode, o candidato argumenta que defende as mulheres… Estranha defesa.

Pois é. Vejam onde chegamos: no lado B… B de  bisonho, bruto, bizarro, etc.  B. de Bolsonaro.

Encerro este texto lembrando que todos os argumentos que utilizei, embora negativos, para os eleitores do capitão serão considerados favoráveis. Inclusive os adjetivos do último parágrafo, que eles traduzem como “autenticidade”.

Veja também:

https://outraspalavras.net/outrasaude/2018/10/05/o-candidato-do-fim-do-mundo/

Deixe um comentário