Um caso de amor com o SUS

Fugindo à regra deste espaço, trago aqui hoje alguém “de fora”, um convidado. Mas não é qualquer um. É um cara que veio da Itália e que há trinta anos acompanha (e contribui para) o desenvolvimento do SUS. Conhece a nossa realidade e a de nosso sistema de saúde como poucos. Aliás, ele é um daqueles estrangeiros que é capaz de amar e compreender mais o nosso país do que nós próprios o somos.  E não é só por ser casado com uma brasileira, não! Veio para o Brasil num processo de cooperação técnica da Itália, nos anos 90, e a ele retornou outras vezes, como técnico da OPAS.  Ele está se aposentando na OPAS e compartilhou com seus amigos daqui e alhures uma verdadeira declaração de amor ao SUS e a este pobre país. Renato Tasca é o seu nome. Tenho a honra de tê-lo conhecido há quase 20 anos, de ter trabalhado diretamente com ele em algumas ocasiões e assim ter feito parte de alguns projetos importantes que ele desenvolveu ou articulou aqui. Nada como ler o texto de Renato para se convencer de que o SUS não será, definitivamente, um projeto perdedor ou uma irrealizável utopia. A militância de pessoas que acreditam nele, como Renato Tasca e tantos outros,  sempre fez e continuará a fazer a diferença. Menos mal que sua aposentadoria na OPAS não o retirará de nosso convívio.

A minha história de amor com o SUS, desde o jurássico até hoje
Renato Tasca

Caros amigos e caras amigas,
Desejo compartilhar com vocês, pessoas pelas quais tenho carinho e sinto empatia,
umas reflexões pessoais, chegando aos 62 anos de idade e me aposentando da OPAS, após doze anos de serviço. São apenas quatro páginas, o pobre resultado da impossível tarefa de resumir mais de três décadas de trabalho com o SUS.
Conheci o SUS ainda na época do jurássico. Tinha eu 30 anos exatos quando,
chegando de Lima (Peru), onde tinha passado três anos na OPAS como jovem profissional, desembarquei na cidade de Salvador da Bahia. O Enrico, Diretor da AISPO, a ONG italiana onde eu trabalhava, uma pessoa muito cordial e agradável, me buscou no aeroporto. Um dia de sol, maravilhoso, me lembro como se fosse hoje.
Era o dia primeiro de março de 1989. O SUS estava dando os seus primeiros,
incertos passos. O debate sobre modelos de atenção para concretizar o direito à saúde, consagrado pela recente Carta Constitucional, estava fervendo. Não tinha Saúde da Família.
Nesses anos, em Salvador, a APS era constituída basicamente pelos “postinhos de saúde” das periferias e das áreas rurais. Quase sempre, atenção pobre para os pobres. Os serviços de saúde da cidade eram segmentados entre unidades do município, do Estado e do INAMPS, com diferenças salariais absurdas, que causavam infindáveis discussões. Nessa época, era realmente atenção “básica”, ou menos do que isso. Muitas unidades sucateadas, sem equipamentos básicos, sem manutenção, sem segurança dos pacientes e dos profissionais. Pessoal desmotivado, com remuneração insuficiente, condições de trabalho inadequadas, sem qualquer incentivo tangível ou perspectiva de crescimento profissional.
Porém, naquela época, a Secretaria da Saúde da Bahia (SESAB) tinha um conjunto
de técnicos com enorme potencial intelectual e força inovadora. O Governador Waldir Pires tinha escolhido Luiz Humberto como Secretário de Saúde e este último tinha chamado técnicos e acadêmicos de altíssimos nível. Cito apenas alguns: Carmem Teixeira, Cristina Melo, Jairnilson Paim, Renilson Rehem. Numa visão grandiosa, a SESAB estava implementando projetos pilotos de “Distritos Sanitários” em Salvador. Pau da Lima, o bairro periférico da cidade onde atuava o projeto da ONG onde eu trabalhava, era um deles.
Fui logo atropelado pelos tsunamis de ideias inovadoras do Distrito, totalmente inspiradas pelos princípios deste novo sistema, o SUS. Eu me identifiquei imediatamente com este pensamento, sobretudo por ter nascido e me criado num país, a Itália, que contava com um sistema público universal, o Serviço Nacional de Saúde – SSN, muito parecido com o SUS, mas nascido dez anos antes, em 1978.
A experiência da Bahia foi extraordinariamente importante para a minha formação profissional e pessoal. Na Bahia conheci e me apaixonei por minha esposa Eliza, uma mineira que veio passar Carnaval em Salvador, sem saber que ia mudar completamente a minha existência, me acompanhando por estes anos todos com carinho, paciência e dedicação. Na Bahia, conheci muitas pessoas que foram determinantes na minha forma de pensar e enxergar o mundo. Renilson Rehem, o meu melhor amigo brasileiro, me mostrou os caminhos concretos que o SUS oferecia para garantir a todos o direito a saúde. Destaco Francesco Ripa de Meana, coordenador da Cooperação Italiana, fã de carteirinha assinada do SUS. Uma lembrança também para duas pessoas que já nos deixaram, que foram essenciais no apoio e orientação à equipe da SESAB: Ernesto Veronesi, um brilhante e sonhador economista da saúde italiano e Roberto Capote, carismático médico cubano da OPAS. E como não lembrar do genial Eugenio Vilaça, que valorizou os instrumentos inovadores que tínhamos desenvolvido em Pau da Lima, apoiando o processo de transformação que o SUS tinha desencadeado no Brasil. E não posso deixar de mencionar dois brilhantes italianos que acompanharam com amizade fraterna a minha jornada na Bahia, o informático Claudio Grego e o sociólogo Francesco Notarbartolo di Villarosa.
Saí da Bahia em 1991, quando o projeto de cooperação terminou. Dei muitas voltas depois: Chile, México, Bolívia, entre outros países, até que, em 1996 voltei para Itália, em Roma, trabalhando num programa nacional de modernização do estado. Foram anos muitos intensos, onde a minha experiência brasileira foi mais útil do que eu podia imaginar.
Construir o SUS é uma experiência concreta de modernização e de civilização de um país.
Pensar grande, não ter medo da mudança, enfrentar desafios gigantescos, no fundo, eram o meu dia a dia em Pau da Lima. Não me faltava peito para enfrentar o incrível desafio de modernizar uma máquina vetusta como o estado italiano dos anos noventa. De novo, tive a sorte de entrar numa equipe extraordinária, com gente como Mauro Bonaretti, Paolo Testa, Pia Marconi e Filippo Bucarelli, que souberam me dar as condições de trabalho necessárias para que os meus conhecimentos pudessem ser aproveitados da melhor forma possível. Trabalhei dez anos com essas e outras pessoas maravilhosas, sempre crescendo profissionalmente e me identificando com a missão do servidor público.
Na experiência italiana, me familiarizei com muitos instrumentos de apoio à formulação de políticas públicas. Hoje, me dou conta que esses conhecimentos foram de grande utilidade para o meu trabalho na OPAS.
Voltei para o Brasil em 2006, ainda para Bahia, para apoiar a SESAB na avaliação dos resultados do programa Saúde Bahia, financiado pelo Banco Mundial, de fortalecimento do SUS naquele estado. Foi um esforço importante de analisar os esforços dos municípios para fortalecer a própria rede de serviços, que me deu a possibilidade de conhecer em profundidade o impacto de uma política estadual abrangente. Uma experiência que me ajudou a entender melhor os delicados mecanismos de negociação e de regulação necessários para que a gestão regional do SUS se torne eficiente, numa lógica de redes de atenção. Um banho de realidade, de imersão nos problemas mais graves e difíceis do SUS, de compreensão das dificuldades e desafios do subfinanciamento do SUS e da precária gestão do sistema. E também aprendi a apreciar e compreender o valor daquelas equipes municipais que, apesar de ter restrições de recursos e contextos socioeconômicos difíceis, sabiam inventar soluções criativas e inovadoras para atender
melhor as famílias e comunidades do território.
No final de 2007, num jantar em Brasília na casa de Renilson, encontrei outra pessoa que marcou muito minha formação. Esta pessoa é Julio Suarez, médico cubano que nessa época trabalhava na OPAS Brasil. Me disse que estava saindo do Brasil para outro destino, e me aconselhou postular para o cargo dele, que ia ficar vazio.
A partir do mês de abril de 2008, assumi o cargo de coordenador de sistemas e
serviços de saúde da OPAS/OMS de Brasília. Um baita desafio, chegando aos 50 anos. No começo, custei a me adaptar ao modus operandi de uma organização complexa como a OPAS, mas fui gradualmente entendendo qual podia ser o meu caminho. Nessa época, a discussão era centrada no debate sobre as redes de atenção à saúde, inspiradas pelos trabalhos de Eugênio Vilaça. Entendi que, naquele momento, a cooperação da OPAS  precisava de uma agenda estratégica, para abrir um espaço importante para o debate entre os diferentes atores estratégicos do SUS e para valorizar e dar visibilidade às práticas inovadoras na organização de redes de atenção.
Nestes anos realizamos ciclos de debates, pesquisas e estudos de caso sobre redes de atenção no SUS, criando a metodologia de gestão de conhecimento denominada “Laboratórios de Inovações”, que funcionam ainda hoje e que foram utilizados também por outras instituições, como o CONASS e a ANS. Os laboratórios representam para a OPAS um novo modelo de cooperação, projetado para identificar, valorizar e divulgar o melhor que existe no SUS, dando visibilidade aos gestores e às equipes de saúde que trabalham silenciosamente, com responsabilidade, criatividade e dedicação. Considero os Laboratórios de inovação o meu brainchild, acho que foi um esforço que valeu a pena, e a OPAS me ofereceu as condições ideais para desenhá-lo e transformá-lo em realidade,
como uma equipe dedicada e competente, sem a qual não teria conseguido ir para lugar nenhum. Rosa Silvestre, Newton Lemos, Flávio Goulart e muitos outros me mostraram o caminho das pedras e me ajudaram a transformar os meus desejos de mudanças em programas concretos e viáveis.
A minha trajetória na OPAS teve uma mudança em 2012, quando aceitei o convite
para um cargo na área de políticas de saúde no escritório central em Washington. A
vivência nos Estados Unidos foi mais um momento de aprendizagem, muito rico e cheio de desafios. Neste período, o tema que mais me envolveu tecnicamente foi a formulação da estratégia OPAS de saúde universal. Foi um período de debates muito intensos. De novo, tive a sorte de trabalhar com pessoas extraordinárias, como Julio Siede, uma mente genial, que nos deixou prematuramente, e outros brilhantes colegas, como Soledad Urrutia, Gisele Almeida, Hernán Sepúlveda, Cristian Morales, Ricardo Fábrega, Rubén Torres e James Fitzgerald, com os quais passei horas e horas, dentro e fora do escritório, compartilhando visões e sonhos de sistemas de saúde melhores, universais, de qualidade, projetados para as famílias e as comunidades.
Em 2013, quando eu ainda estava em Washington, o governo Dilma lançou uma
das principais iniciativas de fortalecimento da APS na história do SUS: o Programa Mais Médicos para o Brasil. A OPAS participava de maneira relevante, gerenciando todo o contingente de médicos cubanos, que rapidamente tinha chegado a mais de dez mil profissionais espalhados nas regiões mais vulneráveis do Brasil. O mesmo dia em que li o e-mail que anunciava o concurso para o coordenador do Mais Médicos, preparei a documentação para postular. Era exatamente o tipo de desafio que estava esperando: mostrar que uma APS Forte era a melhor estratégia para o SUS. Os processos seletivos foram longos e complicados, mas finalmente fui selecionado para o cargo, que assumi em agosto de 2014.
Coordenar o programa Mais Médicos foi o maior desafio profissional da minha
carreira, com muitos momentos de entusiasmo pelo incrível sucesso da iniciativa e outros de decepção pelas objetivas dificuldades que o programa trazia, por ser contaminado por uma visão político-ideológica, que matava o debate antes de começar. Por ser um programa consolidado, com evidências robustas de impacto sobre a saúde da população, Mais Médicos resistiu ao impeachment da Dilma, mas desmoronou depois da vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018. Uma gravíssima perda para a saúde da população, que foi particularmente sentida durante a pandemia da Covid-19.
Com o apoio de pesquisadores com muita experiência na APS, apoiamos diversos
trabalhos científicos que produziram robustas evidências sobre o impacto positivo do Mais Médicos sobre a saúde da população. Tivemos o apoio de professores com grande experiência e compromisso com a APS, como Ligia Giovanella, Claunara Mendonça, Rosane Aquino, Luiz Facchini, Raquel Abrantes, Elisa Sguario Kemper, Erno Herzeim e muitos mais.
Eu tinha deixado o programa em maio 2017, com mecanismos de avaliação e de
gestão de conhecimento bem consolidados, além de uma equipe excelente e bem treinada, com destaque para Sabrina Baiocco, excelente gerente administrativa e Ariel Delgado, médico cubano de grande competência e humanidade. Sem o apoio deles, não teríamos conseguido a governança do programa e, consequentemente, o seu foco nos resultados.
No período de 2017 a 2019, voltei a coordenar a área de sistemas e serviços de
saúde, construindo uma agenda essencialmente de alerta contra as ameaças que o SUS estava vivendo, especialmente os riscos que as medidas de austeridade fiscal podiam representar para um sistema historicamente subfinanciado. Em 2018 publicamos e divulgamos vários textos científicos que, mediante microssimulações, estimavam os impactos negativos, com excesso de mortes e hospitalizações evitáveis. O Davide Rasella, pesquisador italiano mestre nos modelos estatísticos de simulação, foi extraordinariamente generoso conosco, oferecendo apoio praticamente incondicional com seus conhecimentos.
Aproveitando os 30 anos do SUS, publicamos o Relatório “30 anos de SUS – que
SUS para 2030?”. Este documento juntou a visão de vários atores estratégicos do SUS para avaliar o caminho destas décadas e desenhar cenários futuros.
Em 2019, a nossa agenda foi focada na promoção de uma Atenção Primária Forte
para o SUS, que culminou com um prêmio que contou com a participação de mais de mil e trezentas equipes de APS de todos os estados do Brasil. Mais uma vez, a realidade do SUS nos surpreendeu e mandou um recado àqueles que diziam que o SUS era um projeto perdedor, um fracasso, uma utopia. As experiências apresentadas mostravam um SUS “vivinho da silva”, com equipes motivadas, criativas e comprometidas.
O meu último ano com a OPAS, 2020, foi marcado pela pandemia. De novo, a
OPAS me deu os instrumentos para compartilhar conhecimentos, organizar redes de relações, criar espaços de intercâmbio. As inúmeras lives, teleconferências, webinars, debates virtuais, WhatsApp e outras ferramentas me ensinaram rapidamente como mudar a minha forma de trabalhar, sem perder o foco nos objetivos da agenda e nos resultados.
Mais uma vez, um grupo extraordinário me apoiou nesta última fase na OPAS.
Fernando, Sabrina, Rosane, Vanessa, Iasmine, Wellington e Adriana estiveram sempre ao meu lado, mesmo nos momentos difíceis, que não foram poucos. Eles tiveram paciência
quando eu a perdia, me escutaram mesmo quando falava demais, converteram minhas intuições em inciativas e projetos reais.
Hoje, chegou o momento da despedida. Tenho absoluta confiança na competência
da Mônica Padilha, excelente médica equatoriana, defensora do SUS, que assumirá o meu cargo. A Dra. Socorro não podia ter escolhido pessoa melhor.
Um adeus e um agradecimento à OPAS, que me proporcionou esta enorme
oportunidade e tornou possíveis os meus esforços.
Mas não é, de jeito nenhum, uma despedida do SUS. Vou continuar trabalhando
para concretizar o direito à saúde. O primeiro amor não se esquece, mesmo que tenha nascido lá no jurássico.
Brasília, 4 agosto de 2020

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Se preferir, acesse o arquivo em PDF:  Conheci o SUS no jurássico texto TASCA

2 respostas para “Um caso de amor com o SUS”

  1. Flávio, que rica a experiência do italiano! E se mostra grato às pessoas que encontrou, como você. Só me fica a dúvida se a bondade dele veio com ele ou se os amigos daqui é que o fizeram ser bom.

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