Boi voador, pode?

Um dia, em pleno ano de 1938, Orson Welles colocou em pânico a população americana com um programa de rádio no qual anunciava a invasão da terra pelos marcianos. Autêntica fake-news, potencializada pela ingenuidade, pelo ambiente conspiratório e pela falta de informação da população. Hoje achamos graça disso, apenas uma brincadeira inocente se comparada ao fenômeno assustador que se vê no Brasil e em toda parte. Assim, abundam os equívocos, melhor dizendo, as mentiras, sobre saúde e outros temas espalhados pelas redes sociais, tendo como emissores figuras graúdas da República, capitaneadas pela vergonha ambulante que ali ocupa o primeiro posto.  Sabe-se lá até onde chega a credulidade (em combinação com a irresponsabilidade) humana. O “mito”, aquele que de há muito espalha factóides e “pós verdades”, prontamente replicados por sua horda, não cansa de dizer e postar coisas alarmistas, inusitadas, espetaculares, escatológicas, padrão “ouvi-dizer” – e principalmente mentirosas – que geralmente insistem em que tal conteúdo seja passado adiante, para o bem de todos, naturalmente… Entre muitas outras, a área da saúde parece ser favorita. E tome remédios ineficazes, alarmes falsos, estatísticas desvirtuadas, fontes suspeitas, manipulação de fatos, transferência de responsabilidades, aniquilação simbólica (por enquanto) de desafetos e assim por diante. [Texto em parceria: Flavio Goulart e Henriqueta Camarotti]

O que está por trás de tais notícias falsas ou falaciosas, que parecem ter atingindo status verdadeiramente epidêmico nos dias atuais? Por certo, não seria um fenômeno brasileiro, como o carnaval ou a ascensão evangélica através das igrejas-negócio. Mas o certo é que entre nós mostrou seu potencial tóxico, por exemplo, com o resultado das eleições de 2018. Aliás, não é por acaso que o indivíduo (e respectiva família) que ocupa a Presidência da República, já se declarou totalmente contrário à regulação das redes sociais, segundo seu membro zero-zero, por ser “favorável à liberdade de expressão”. Como se sabe, as últimas eleições no Brasil foram decididas pela combinação exótica entre a veiculação de notícias falsas espalhadas roboticamente e uma facada em momento estratégico, embora não no sítio corporal almejado pelo aloprado que a desferiu.

Os especialistas apontam muitas causas para o problema, quase todas ligadas a uma motivação definida, particularmente no campo político e ideológico. Mas tal fenômeno tem também outras raízes, calcadas naquilo que um adágio popular tradicional denomina de “espírito de porco”, embora isso não faça justiça aos pacíficos suínos. Poderia ser uma negação daquilo que os pensadores mais otimistas consideram a respeito da suposta bondade (ou, digamos, da neutralidade) que o ser humano traz consigo ao nascer, sendo depois corrompido pela sociedade. Pode ser, mas o grau de maldade e irresponsabilidade que algumas dessas falsidades carregam não parecem vir de nenhuma pressão ou práxis social, e sim de possíveis mentalidades deturpadas, delinquentes ou delirantes. Por exemplo, as informações falaciosas e deturpadas (que na realidade exprimem exatamente o oposto do que é verdade) sobre os efeitos das vacinas, os feitos da saúde pública, a preservação da floresta amazônica, a falibilidade das urnas eletrônicas, ou aquela já manjada distribuição de mamadeiras infantis de formato fálico. Há sempre quem acredite nessa massa que não lê jornais, escuta rádio e TV apenas de forma seletiva e prefere se informar por aplicativos de mensagens ou redes sociais que se concentram em notórias bolhas ideológicas.

Isso tudo de certa forma se alinha com a antológica expressão de Umberto Eco, a respeito da voz conferida pela internet aos imbecis de maneira geral, fazendo com que o que foi um dia apenas conversa de botequim assumisse foros de verdade irrefutável, transformando eventuais divergências em questões de vida ou morte.

Mas deve ser mais do que simples imbecilidade… Será que a espécie de gente que produz este tipo de coisa não pertenceria ao mesmo estofo de quem comandou campos nazistas de extermínio ou que já disse que vai “metralhar” seus adversários políticos, ou “mirar na cabecinha” de quem for (apenas) suspeito de algum crime; aqueles que acham que Paulo Freire não passa de um “energúmeno” e que dão a um astrólogo radicado em Virginia (USA) o estatuto de “filósofo” e que se fiam em “bancadas” de boi, bíblia, bola e bolada.

Quem sabe se não seria o caso de pararmos um pouco para indagar por que uma notícia falsa tem muito mais chance de ser apreendida, seguida e propalada do que uma verdadeira. Isso, aliás, já está na pauta dos cientistas sociais e do psiquismo. Assim é que estudo recente publicado na Revista Science demonstrou que as fakes news têm 70 % mais de chance de atingir os leitores do que as informações verdadeiras.

Vamos refletir sobre isso. Comecemos pelo lado mais negativo, ou seja, quando há consciência do fato de que a notícia que alguém recebeu e até mesmo propaga a terceiros é falsa e tem potencial causar prejuízos morais, sanitários, financeiros etc. Neste caso, entram em cena emoções e sentimentos do receptor, entre eles a culpa e o medo, que representam a base de desencadeamento de sentimentos negativos, como estagnação, apego ao velho, desistência, falta de esperança e de criatividade para mudança.

O medo permeia nossas vidas, sempre pronto para ser acionado diante do menor vestígio de algo ameaçador. Não precisa muito para que uma notícia que traz no seu bojo uma ameaça, uma maldade embutida, uma intenção de desavença e desarmonia, apresente todos os ingredientes para acionar o sistema amigdaliano cerebral e todas estruturas integradas do sistema límbico responsáveis pela defesa instintiva natural do comportamento humano. 

Assim, sentimento de culpa e arrependimentos relativos a coisas feitas ou deixadas de fazer, representariam um caldo de cultura ideal para fermentação não só de punição e destruição, não apenas a si próprio, mas também a terceiros, ou seja, terreno propicio para absorver e acreditar muito mais no que prejudica, ameaça e destrói. Assim, crenças preestabelecidas que detonam a autoestima e desqualificam os demais são alimentadas muito mais pelas mensagens maldosas do que por mensagens positivas e compassivas.

Mesmo que a pessoa não perceba conscientemente que aquela fake carreia um viés destrutivo, seu inconsciente rastreia essa roupagem maléfica e aciona uma verdadeira reação em cadeia em sua mente, com percepção inconsciente e potencialização entre os sentimentos de culpa e medo. Isso tem implicações na eletrofisiologia cerebral, especialmente no sistema límbico, onde são mantidas as memórias desagradáveis e traumáticas, com consequente ativação do hipotálamo e seus núcleos controladores dos hormônios e metabolismo corporal, descarga das moléculas da emoção na corrente sanguínea, acionamento do hormônio do estresse cortisol pela suprarrenal e, na esteira, todas as consequências sobre um corpo estressado e psiquicamente maltratado.

Mas por que, afinal, uma reação da unidade corpo-mente que poderia ser natural e homeostática propiciaria maior crença nas informações falsas veiculadoras de intencionalidade destrutiva? Este é o ponto central da nossa reflexão: como na sociedade contemporânea o sistema cerebral do medo e da culpa já está em alerta constante e pronto para ser disparado, o menor aceno de perigo, de ameaça ao status quo, à verdade estabelecida já é suficiente para se instalar e dominar no campo psíquico, reforçando as crenças de desmerecimento, desvalorização de si e dos outros, associados a sentimentos de baixa autoestima, de rejeição e desamor.

Nossa reflexão nos leva a pensar que em um país, como o Brasil, onde os cidadãos não se sentem, e não são protegidos de fato pelo Estado, se transforma em um paraíso das tais fake news. Reforça-se, assim, a afirmação do historiador Marc Bloch, quando diz que um erro só se propaga se encontrar um caldo de cultivo favorável na sociedade.

Mas há também aquelas notícias falsas voltadas supostamente “para o bem”, como nos casos da divulgação de curas milagrosas, de medicamentos extraordinários ou mesmo de alertas em relação a supostos erros da ciência. Nestes casos, certamente a questão não passaria necessariamente por culpa e medo, mas por um conjunto de fatores outros, entre os quais se incluiria a falta de senso crítico, a valorização de emissores equivocadamente tidos como ”credenciados”, a crença inabalável no senso comum (apesar de seus eventuais acertos), o déficit ético seja de compromissos com a verdade ou com o bem estar comum e também uma certa credulidade naif que parece ser bastante comum no ser humano, além, é claro, de falta de informação pura e simples.     

Mas, o que fortalece um grupo humano? O fortalecimento de uma sociedade e de um país está na capacidade de pensar, de refletir sobre as ideias, de alargar os horizontes de percepção. Isto começa nas crianças, na educação de base, na preparação da pessoa para ser um agente crítico, pensante, construtivo, responsável. Então, o que nos protege das informações falsas com intencionalidades destrutivas é a construção da cidadania verdadeira, escudo inabalável aos ataques de grupos manipuladores e ambiciosos.  

Mas como saber, de fato, que um boi não voa? Existem dicas sobre como diagnosticar (e não propagar) as “verdadeiras” fake-news. Algumas delas: (a) sempre buscar a fonte original; (b) fazer buscas na internet em busca de desmentidos; (c) checar sempre a data, pois a “novidade” pode ser antiga; (d) ler a notícia inteira para se certificar de sua coerência e indícios de veracidade (ou não); (e) verificar o histórico (ou o prontuário) de quem publicou ou lhe enviou.

Enfim, se a notícia não tem fonte conhecida, é melhor não passar adiante. Tipo assim: se a informação veio de pessoa que volta e meia posta em rede assuntos totalmente sem pé nem cabeça, desconfie! E, principalmente, não passe pra frente. Se for possível, bloqueie tal pessoa, mesmo que seja aquela sua velha tiazinha ou a comadre tão boazinha de sua mãe…

Sobre o título deste post e a figura que o ilustra: boi voador, pode? Na internet, certamente que sim…

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ADENDO:

Nem sempre é preciso frequentar as chamadas redes sociais para se ter acesso a tais notícias perniciosas. Ou pelo menos, de notícias que parecem ter tais características, como as seguintes: esta unidade estará fechada por motivo de falecimento da sogra da funcionária “X”; o doutor fulano não atenderá hoje por ter sido convocado para uma cirurgia de urgência no hospital onde trabalha; não haverá expediente durante toda a semana porque haverá treinamento da equipe; mulheres interessadas em implantar o DIU deverão aguardar a próxima chamada, em julho do ano que vem; não serão realizados exames de Papanicolau durante o próximo mês por falta de espátulas de coleta; a limpeza deste ambulatório não está sendo realizada por motivo do vencimento e não renovação do contrato com a empresa terceirizada; as famílias deverão trazer alimentos para seus pacientes hospitalizados devido a não renovação do contrato com a empresa terceirizada; idem para roupas de cama e fraldas de adultos; o centro cirúrgico permanecerá fechado por tempo indefinido por motivo de goteiras; o expediente hoje se encerra ao meio dia (sem outras explicações); maltratar funcionário público é crime – e por aí vai.

Que nos desculpem os leitores, mas isso foi apenas uma pegadinha. As notícias do parágrafo acima são todas completamente verdadeiras, fazendo parte do dia a dia dos serviços de saúde, aqui no DF, então, nem se fala! Não se tratam de fake-news, infelizmente.

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ATUALIDADES (AINDA NO CLIMA DO “BOI VOADOR”)

Em seu livro mais recente, O ocaso da clínica – a Medicina de dados, o cardiologista Luiz Vianna Sobrinho narra a mais recente mudança na tecnologia associada à Saúde. Não se observam nem apenas o corpo e seus dados clínicos, nem exames como os de imagem. “Acompanham-se também os dados financeiros de cada tratamento ou linha de cuidado; os custos; os insumos. Tudo é reduzido a um grande banco de processamento de dados, onde se faz a gestão clínico financeira de cada paciente, de cada grupo de pacientes, de cada cidade”.

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