Novos tempos na Saúde

[Retornando agora nossas postagens semanais, depois de um mês de recesso, em um panorama de acontecimentos os mais diversificados e a anunciadores de novos e melhores tempos para a Saúde no Brasil – pelo menos é o que esperamos.]

A gente até se belisca para ver se não está sonhando. Mas não há dúvida, aqueles pazuelos, digo pesadelos, acabaram. Queirogas também fora do jogo… Os verde-oliva que estão acampados no Ministério da Saúde com o tempo terão alta (ou darão baixa). Com certeza, não há mais meios-fios a serem caiados por ali… E ainda tem a grande novidade: no cargo de Ministro, pela primeira vez na história, tem assento uma mulher: Nisia Trindade. E não é qualquer uma: socióloga, doutora, conhecedora da saúde pública, ex-presidente da Fiocruz, onde construiu uma ilha de resistência contra o negacionismo, a irresponsabilidade e a incompetência dos bolsonaristas de farda ou jaleco. Depois de seis anos de desastres sucessivos na saúde teremos oportunidade, a partir de agora, de usufruirmos de alguma alegria – ou pelo menos de uma forte esperança. Vamos ver o que a nova Ministra da Saúde está propondo, em entrevista coletiva recente, 10 de janeiro pp, na qual os jornalistas, por mais perguntas que fizessem, foram tratados com urbanidade, respeito – e até carinho em alguns casos. Tudo muito diferente do que era antes…     

A primeira coisa, como não poderia deixar de ser, é uma revogação ampla de medidas das gestões anteriores desastradas, anticientíficas, mal-intencionadas ou que feriam os princípios do SUS, inclusive relativas a direitos humanos. A nova Ministra reafirmou que, apesar do apagão de dados e dificuldades em fechar um balanço do que se herdou, haverá tal revogaço.

Frisou também a defesa prioritária do fortalecimento do SUS, sem esquecer da atenção aos que ficaram desprotegidos durante a era das trevas agora encerrada: negros, indígenas, mulheres, vulneráveis em geral.

Seguem alguns tópicos contemplados na entrevista.

Sobre vacinação: “Temos um comitê reunido para dar início a uma campanha de vacinação em fevereiro. Além da vacinação teremos a estratégia de comunicação e organização dos serviços para atender o objetivo. Não falamos só de covid, que estará no calendário regular de vacinas, mas da tarefa de recuperar as taxas de vacinação, inclusive da infância”.

Para iniciar as ações, retomadas da farmácia popular, com ampliação da lista de medicamentos do programa. Além disso, ações emergenciais em relação à saúde negra e indígena, diante do descuido do governo passado, especialmente em relação à população Yanomami.

A ministra mostrou-se aberta a dialogar com o poder legislativo e reivindicou sua experiência como presidente da Fiocruz em meio à pandemia para conseguir mediar as diferentes demandas que chegarão à sua mesa. Em tal condição, disse ela, recebeu parlamentares da base de governo e da oposição e prometeu que isso será rotina em sua gestão, em busca de uma agenda bem construída.

Quanto às polêmicas e guerras ideológicas do bolsonarismo, Nísia evitou as armadilhas do governo que não aceitava sua derrota eleitoral e anunciou a retomada do Mais Médicos, dentro dos primeiros 100 dias de gestão, com prioridade e incentivo aos profissionais brasileiros e admissão de estrangeiros apenas quando as posições não forem ocupadas pelos nacionais. De forma discreta mencionou o fracasso absoluto do programa bolsonarista Médicos pelo Brasil, que na prática sequer foi executado, e que foi inventado para substituir o Mais Médicos. Aliás, a comissão de transição detectou marcante fragilização em tal área, deixando um enorme vazio de assistência médica em muitos municípios, não só naqueles de difícil acesso, mas também nas periferias das cidades. E a meta do Governo Lula é reverter esse quadro, ressaltou ela.

Ainda sobre a gestão anterior: “Temos um programa político a cumprir, aprovado pela maioria da sociedade, que no caso da saúde visa o fortalecimento do SUS, seu acesso de qualidade, cuidado com a população, principalmente diante do efeito do aumento da pobreza e seus determinantes sociais e ambientais. É importante dizer: devemos ter componentes técnicos, valorizamos a atividade científica, mas sabemos que isso está orientado por uma visão programática, que também valoriza a democracia”.

Por fim, sua condição de primeira mulher ministra foi tema da coletiva e Nísia usou deste gancho para se referir às mais vulneráveis do país. “Espero poder fortalecer a agenda da equidade de gênero na saúde e na sociedade em geral. Precisamos de mais equidade, cuidado com as mulheres, ações em saúde, não podemos deixar de falar da violência de gênero e sobretudo o que afeta as mulheres negras e indígenas na nossa sociedade, como apontam todos os indicadores sociais. O Brasil aumentou a mortalidade materna e considero isso inaceitável. Vamos recuperar a Rede Cegonha, que vinha tendo efeitos muito positivos na redução da mortalidade materna”.

É claro que isso é apenas uma entrevista, assim mesmo preliminar. Certamente haveria muitas outras coisas a considerar, a questão dos modelos assistencial e gerencial, o financiamento, as relações federativas, por exemplo. Mas isso está contemplado no relatório da transição (ver abaixo) e certamente será considerado em seu devido tempo.

Assista a entrevista completa: https://preview.mailerlite.com/z1u8a3j3e5/2126102308151366830/l2d3/

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Tem gente batendo na porta…

Vejo que alguns setores privados na saúde também querem participar deste novo momento da vida nacional, Acho isso alvissareiro, mas é preciso discutir o assunto, com profundidade e sem preconceitos. É o que farei no post da próxima semana. Enquanto isso, acesse o link : https://saudenodf.com.br/2022/12/14/a-saude-que-devemos-ter/

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Lixo bolsonarista

Foi publicada, no dia 13 de janeiro, assinada pela ministra Nísia Trindade, a Portaria 13 do ministério da Saúde, que revoga dispositivos assinados por Bolsonaro e seus ministros, mais especificamente Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga. Em linhas gerais, ela reverte políticas que apenas serviam para esvaziar outras já existentes. É um bom começo, sem dúvida. Há muito lixo a ser descartado no Brasil.

Acesse o texto na íntegra: https://mail.google.com/mail/u/0/?pli=1#inbox/KtbxLrjGRbjkpzTKmlsGCLrMJDSbzQxLtg

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Relatório da Transição

A quem possa interessar, segue o link para o Relatório da Transição governamental. O diagnóstico da área de saúde está lá.

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Milicos, micos e mitos

A notícia não tem nada a ver, diretamente pelo menos, com saúde. Mas é com prazer que leio nos jornais que o governo Lula devolve a caserna pelo menos quatro dezenas de militares em desvio de função no entorno presidencial. Gente que estava lá para cuidar da segurança do Palácio do Planalto e foi desmascarada pelos acontecimentos do dia oito de janeiro – que mico…. Que tal moda pegue e chegue de fato ao Ministério da Saúde! Escrevi sobre isso há algum tempo, já na era bolsonarista (ver link), provando que a suposta probidade e competência dos fardados na gestão pública não passa de um mito. Aliás, já dizia o velho político francês Clemenceau, que até mesmo a guerra é assunto sério em demasia para ser confiado a esta gente, muito bem representada pelo trapalhão Sargento Tainha.  

Leia mais: https://saudenodf.com.br/2020/05/21/o-mito-da-administracao-militar/

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Nota final

Estamos felizes (eu particularmente estou…) com a mudança de governo. Mas é preciso deixar claro duas coisas: 1. As tarefas que Lula e sua equipe terão pela frente não serão nada fáceis, principalmente diante do quadro de terra devastada e profundo ódio ideológico que encontrarão em muitos setores da administração pública. 2. Apoiar o atual governo não significa deixar de ser crítico em relação às posturas do mesmo, quando elas assim o justificarem. Estaremos alertas quanto a isso aqui no blog.   

 
   

2 respostas para “Novos tempos na Saúde”

  1. Com certeza Flavio, são novos tempos, mais do que isso nova força que resurge em nossos corações; sentimento de que é possivel arrebanhar as forças de todos que acreditam em um Brasil e um mundo mais justo e mais pacífico. Estou totalmente alinhada e disponivel para esse novo momento. Imagino que cada um na sua área e no seu âmbito de ação, mas todos agindo de forma complementar, equipes publicas e privadas, organizações da sociedade civil, todas as pessoas que se sentem interpeladas pelo Bem, justiça social e estado de direito.

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