O Sábio, o Tolo, a Lua e a Dengue

O bom senso (não o senso comum vulgar), além da honestidade intelectual, são coisas meio esquecidas no Brasil de hoje, principalmente entre a chamada “nata” da sociedade, mas também nos vários níveis de profundidade do conteúdo de tal continente. Mandam os bons preceitos daí derivados que a gente só deve dar opinião sobre assuntos sobre os quais tenhamos certeza ou, no mínimo, algum conhecimento dos mesmos, assim mesmo baseado em fontes confiáveis, geralmente situadas em terrenos científicos. Como veem, tudo distante do que podemos encontrar na vida real no mundo de hoje, embora até mesmo os conceitos de vida e de real sejam, hoje em dia, objeto de muita especulação e dúvidas. Ou, tomando como exemplos: (1) já é de fato vida aquilo que acontece quando uma célula, sendo invadida por outra, logo depois de um contato entre corpos reais, sofre mecanismos bioquímicos que nela desencadeiam multiplicações sucessivas? (2) são realmente reais aquelas imagens de Trump, Lula e Kim Jong Un dançando uma animada salsa em alguma praia orlada de coqueiros, ou de um cidadão contemporâneo em animada confraternização com Napoleão, Rasputin e Alexandre, o Grande? Quem ainda não viu tais coisas é só procurá-las na web que elas está lá, além de muitas outras, perfeitas, com aparência de realidade verdadeiramente massacrante.   

Voltemos ao que hoje me traz aqui: a situação atual da dengue no Brasil, longe do achismo e de alguma idolatria governamental ou antigovernamental, esses exageros de extração ideológica, sabem como é? De forma associada, principalmente, ao que nos traz a boa ciência, coisa na qual ainda podemos confiar, sem deixar de lado alguma reserva. Aliás, é melhor manter o pé atrás com quase tudo o que circula hoje nos meios de informação que temos disponíveis. Mas feitas tais ressalvas, vamos em frente.

Em 2025, o Brasil registrou mais de um milhão de casos prováveis da doença, com quase setecentas mortes confirmadas, além de outras tantas em averiguação, cifras assustadoras, sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, vimos a obtenção, em laboratórios de fato respeitáveis em termos de credibilidade científica, da primeira vacina em dose única contra tal doença. Mesmo com dados que assustam tanto, ainda assim se pode dizer que a situação melhorou, porque no ano anterior, 2024, ocorreram, em nosso país, cerca de quatro milhões de casos e quase quatro mil mortes. De fato, não é mole… Mas tem mais: a maioria dos casos atuais se localiza nas faixas etárias de engajamento maior ao mercado de trabalho, ou seja, entre 20 e 25 anos.

A boa notícia é realmente esta que a vacina vem aí. Ela protege contra os quatro tipos do vírus da dengue, sendo destinada a pessoas entre 12 e 60 anos, já tendo o Butantan cerca de um milhão de doses na agulha, além de mais 25 milhões a serem disponibilizadas ao longo do ano de 2026. Sem mimimi e principalmente sem kkkk, como vimos em passado recente.

E a vida (a da variedade normal, não a fake-imaginada ou pós-verdadeira) continua, com o Ministério da Saúde buscando implementar medidas de controle, como a vacinação e o monitoramento, fincadas na verdade real, ou seja, que a dengue é uma doença que mata, incapacita e tem reflexos expressivos sobre a força de trabalho.

Pois é, diante dessas informações, fiz uma prospecção de textos antigos meus, sobre tal assunto e resgatei este, abaixo anexado, que se encerra com a seguinte reflexão:

A Saúde Pública faliu? Os governos não fazem o que deviam? O problema da dengue, bem como das outras doenças endêmicas, não é apenas uma questão de vetores, de hospedeiros e de ambiente natural inadequado. Os governos, embora tenham papel importante e intransferível no controle da doença, pouco podem fazer face a alguns problemas culturais e mesmo políticos que permeiam a estrutura social. As polarizações ideológicas encobrem a verdade, acarretando riscos de culpabilização das vítimas ou, quem sabe, de apreensão nas malhas de um discurso ideológico destituído de consequências palpáveis. É preciso avançar além do senso comum para se ter respostas adequadas. A gente que trabalha no campo da Saúde e mesmo da Educação precisa incluir novas coisas na mente para agir. Um ditado oriental alerta para os riscos que correm os que insistem em se ater apenas às aparências e às revelações do senso-comum: ‘o sábio aponta a lua; o tolo não vê mais que o dedo’…

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