Nem vou falar das manifestações desastradas do Presidente da República, ou de seu novo Ministro da Saúde, este, coitado, mais perdido do que cego em tiroteio. Mas as cenas de cemitérios brasileiros, com aquelas centenas de covas à espera de novos inquilinos, nem de longe são coerentes numericamente com os anúncios de mortes pela pandemia vistos em estatísticas oficiais. A verdade é uma só: está morrendo muita gente no Brasil, mais, muito mais do que o habitual. Trago, a este respeito, algumas informações impactantes, a partir de fonte que me parece confiável, ou seja, um site que congrega dados dos cartórios de registro civil de todo o Brasil. Dizem elas, sobre nossa cidade: em todo o ano de 2019, 864 pessoas morreram de pneumonia ; já em 2020, de janeiro até a abril, em apenas quatro meses, portanto, foram 931 mortes. Sob o diagnóstico de insuficiência respiratória, no ano passado, faleceram 478 pessoas. Em 2020, pasmem, já são 544 casos nos quatro primeiros meses do ano. Mas tem mais! Continue Lendo “Covid-19: fenda na caverna ou luz no fim do túnel?”
Coronavirus: o GDF estaria fazendo a coisa certa?
O Governo do Distrito Feral se antecipou nacionalmente, ao decretar isolamento e quarentena desde meados de março. Manifestei-me em contrário na ocasião, achei precipitado, mas depois dei o braço a torcer. Nestes tempos “pandemônicos” mudar de opinião pode ser uma virtude… Pena que para muitos, por exemplo para a mais alta autoridade da República, isso não esteja sob cogitação. Ou melhor, mudar de opinião até que este aí sempre muda, mas sempre para pior… Mas feita a ressalva de que Ibaneis e sua equipe de fato tinham razão, em que pese o desembarque (ou seria defenestração?), neste meio tempo, do Secretário Okumoto, por razões não esclarecidas, cabe analisar, agora com o olhar neutro do cidadão e sanitarista preocupado com a saúde em nossa cidade, como anda a epidemia por aqui, não só em termos da curva do número de casos, como também na razoabilidade das medidas tomadas pelas autoridades. Continue Lendo “Coronavirus: o GDF estaria fazendo a coisa certa?”
Cenas (possíveis) em uma quarentena
Quem deveria dar o exemplo, ignora os fatos. E o que faria as pessoas comuns obedecerem os ditames da ciência ou, pelo menos, do bom senso? Para uns, a mais valia; para outros o pão de cada dia… E vamos nos aproximando da perigosa esquina, da qual não haverá mais retorno. A arte já se antecipou à vida há tempos. Vejam esta narrativa: <<Maior era o espetáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma redenção. Várias expiravam na via pública, de dia ou de noite; muitas outras, que expiravam em casa, os vizinhos percebiam que estavam mortas mais pelo fedor do corpo em decomposição do que por outros meios; e tudo se enchia destes e de outros que morriam por toda parte>>. Continue Lendo “Cenas (possíveis) em uma quarentena”
Viagens ao Brasil-real
No século XIX foram marcantes as viagens de europeus pelo Brasil, estimulados pelo exotismo de nossa terra e pelas facilidades então abertas pela abertura do país às chamadas “nações amigas”. Na época, Saint-Hillaire, Langsdorff, Burton, Von Martius e muitos outros narraram aos seus compatriotas ávidos de informações suas observações sobre aquele mundo ignoto, em tons que variavam do maravilhado ao perplexo. A era das viagens ao Brasil, entretanto, não acabou. Eu mesmo tenho feito algumas, por Minas Gerais e também por Goiás, passando por lugares tão variados como Andrequicé, São João da Aliança, Serro, Niquelândia, São Gonçalo do Rio Preto, Vila Propício, Senador Modestino Gonçalves, Forte, Itamarandiba, Cavalcanti, Capelinha, Muquem, Araçuaí, Padre Bernardo, Itacambira, além de outras comarcas remotas e pouco conhecidas. Conto agora a vocês uma parte do que vi e senti, no que poderia chamar de autênticas viagens ao “Brasil-Real”. Continue Lendo “Viagens ao Brasil-real”
Cultura organizacional e saúde
Leio nos jornais a notícia que já parece fazer parte da paisagem: um homem com uma faca enterrada no tórax teve que esperar quase 48 horas para ser operado em um dos hospitais do DF. Hospital público, no caso, mas poderia ser também privado. Coisas assim não são exclusivas do SUS. Se procurarmos bem, é possível encontrar um feixe de monstruosidades deste tipo também nos hospitais com nome de santa que existem por ai. Mas o certo é que ninguém fala das inúmeras vidas que são salvas diariamente – e não são poucas! – nos hospitais do DF, tanto públicos como privados. Algo assim se aplica também, segundo pesquisas recentes, à divulgação de fake news maliciosas (existiria uma variedade “do bem”?), capazes de circular mais rápida e eficazmente do que as notícias realmente verdadeiras de utilidade pública. Assim funciona a humanidade. Mas é preciso prestar atenção nos contextos. Por exemplo, naquele cartaz habitual na entrada nos serviços de saúde que ameaça “maltratar funcionário público é crime”. Essa turma é realmente “maltratada”? Com frequência? Acredito que sim, mas não vejo preocupação idêntica e recíproca quando a questão é “maltratar usuários”, que também é um evento frequente. Internamente, nos serviços de saúde, há uma história contumaz: o mandatário culpa o subordinado e o subordinado dirige a culpa para mais abaixo, de tal forma que a culpa de tudo o que acontece de ruim na repartição corre o risco de vir a ser da moça do cafezinho. Enquanto isso todos culpam o governo – qualquer governo – e da mesma forma os governos culpam os cidadãos (“por que raios foram votar na gente?”) ou então a “herança maldita” que receberam. Uma coisa é certa: ninguém se assume diretamente culpado. Aquela história de ministros se suicidando de vergonha em frente a câmeras de TV só acontece mesmo entre os japoneses, eita povo bárbaro! É cultural, eu diria… Mas afinal, que cultura é essa? Continue Lendo “Cultura organizacional e saúde”
