O Distrito Federal acaba de realizar, entre 5 e 7 de junho (2019), a sua Conferência de Saúde, a décima de uma série. Os números já não são tão expressivos quanto nas anteriores: cerca de duzentos participantes, embora fossem esperados mais de trezentos delegados, após uma dezena de etapas regionais. Seja como for, é uma festa de democracia. Mas será que só uma ‘festa’ seria o bastante? Não seria o caso de discutir se tais eventos, previstos na legislação do SUS e celebrados em prosa e versos pela militância, estariam contribuindo concretamente não só para o desempenho do sistema, como da própria noção de participação social na saúde? Haveria outras e melhores maneiras de se fazer isso? Ou se deveria insistir na dinâmica do “mais do mesmo”? Sem querer ser pessimista, ao contrário, tentando abrir novos caminhos para aquilo que se denomina no Brasil, equivocadamente, por sinal, de ‘controle social em saúde’, apresento neste texto algumas ideias sobre formas mais legítimas e profundas de participação social (o verdadeiro nome de tal processo), particularmente em relação às conferências de saúde. Continue Lendo “Conferências de Saúde (como a recente no DF): “mais do mesmo”, “nós participamos, eles decidem” ou aperfeiçoamento real da Democracia?”
Atenção Básica no DF: ilhas de tranquilidade em oceano de tormenta
Por mais que isso incomode os aficionados por grandes novidades, a maior inovação em termos da organização de sistemas de saúde já vai completar um século de existência e há pelo menos 70 anos está na base do sucesso dos sistemas de saúde que realmente fazem a diferença no mundo. Refiro-me à Atenção Primária à Saúde (APS), que no Brasil é também chamada de Atenção Básica (AB), tendo sua expressão corporificada na Estratégia de Saúde da Família. Ela vem dando certo em países tão diferentes como Reino Unido e Canadá; na Escandinávia, bem como em remotos e pobres rincões da África. Em Cuba também (mas, atenção: não é coisa de comunistas!). Nestes lugares, a aplicação de tal “novidade” gerou sistemas de saúde mais equitativos, eficientes, produtores de benefícios reais para as populações e muito bem aceitos por elas. O Brasil aderiu um tanto tardiamente, com a referida Saúde da Família (SF), mas mesmo assim os resultados obtidos são notáveis, conforme atesta a literatura especializada internacional. E aqui no DF, como andam as coisas? Continue Lendo “Atenção Básica no DF: ilhas de tranquilidade em oceano de tormenta”
No DF: controle da dengue e cultura organizacional
Leio nos jornais locais que o funcionário da SES-DF responsável pelo controle da dengue, ou pelo menos pelas operações de “fumacê” foi destituído de suas funções, aparentemente devido aos maus resultados obtidos com seu trabalho. Dias antes foi a vez da diretora do Hospital de Sobradinho, sobre a qual a gentil manifestação do Governador foi, textualmente “ou ela sai ou cai o secretário”. Como se vê, aquele interessante estilo “deixa que eu chuto”, do qual tem ser observado presença marcante no Palácio do Planalto, já subiu o Eixo Monumental e alcançou, gloriosamente, também o Buriti, pouco mais de um km acima. Trata-se de uma história de longo curso na nessa curiosa civilização subequatorial que é o nosso país: o mandatário culpa o subordinado e o subordinado dirige a culpa para mais abaixo, de tal forma que a culpa de tudo o que acontece de ruim na repartição possa vir a ser da moça do cafezinho. Ah! Enquanto isso todos culpam o governo – qualquer governo – e da mesma forma os governos culpam os cidadãos (“por que raios foram votar na gente?”). Uma coisa é certa: ninguém se assume diretamente culpado. Aquela história de ministros se suicidando de vergonha em frente a câmeras de TV só acontece entre os japoneses mesmo, aquele povo bárbaro! Continue Lendo “No DF: controle da dengue e cultura organizacional”
Mais um relatório na saúde (para a crítica devoradora dos ratos…)
Deu na mídia local que entidades da área da saúde realizaram vistoria em um hospital no DF e encontraram situações perturbadoras. Especificando, tais entidades são o Ministério Público; os Conselhos Regionais e Sindicatos de Médicos, Enfermeiros, Dentistas, Farmacêuticos e Engenheiros; o Conselho de Saúde do DF, além da OAB. O hospital abordado foi o HR de Ceilândia. O dia da visita (porque ela se deu em um único momento) foi 14 de maio pp. As unidades visitadas: emergência, pediatria, UTI neonatal, centro obstétrico, além de odontologia, UPA e uma “sala vermelha”, seja lá o que isso for. As conclusões apontaram para superlotação, falta de equipamentos, déficit de pessoal, más condições gerais de atendimento. Outro relatório semelhante havia sido produzido em 2012, trazendo essencialmente as mesmas conclusões. Cabe indagar: haveria alguma novidade nisso? Ou o mais importante: o que as entidades promotoras pretendem fazer com tal informação?
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Um “bom governo” seria possível, de fato, no DF (ou alhures)?
O poeta russo Maiakowski disse, num poema famoso, ter ouvido dizer que em alguma parte do mundo haveria um homem feliz, “ao que parece, no Brasil”… Se sua procura fosse por um governo bem aceito pelos cidadãos, penso que as dificuldades em encontrá-lo seriam ainda maiores. No Brasil – ou no DF, por exemplo – isso seria praticamente impossível, pois se há uma coisa rara nos dias de hoje, aqui e alhures, é o que se poderia chamar de “um bom governo”. Mesmo homens (ou mulheres) felizes já seria uma raridade… Maus exemplos é o que não falta. Na República, por exemplo, um “meme” recente, mas já consagrado, diz que seria fácil enumerar os defeitos do atual governo, o problema mais difícil seria enumerar seus acertos. Temos realmente um cenário de administrações em condições adversas, operadas por gente equivocada e convencida que “ideologia” é só a dos outros, além do mais produzidas por um eleitorado dividido e mal informado, em um campo minado não apenas pela crise econômica, mas também por um cataclismo simbólico e moral que acomete os políticos de todos os naipes e matizes ideológicos, como acontece no Brasil de hoje.
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