Saúde nas eleições para Presidente

Penso que está havendo pouca clareza e profundidade nas discussões do tema da saúde para as próximas eleições presidenciais. Para falar a verdade, nas locais também. Neste sentido, trago aqui aos leitores a chamada Agenda Mais SUS, uma realização do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde e da Umane que tem o objetivo de contribuir com o debate público eleitoral e subsidiar a próxima gestão do Governo Federal a partir de propostas concretas para o Sistema Único de Saúde (SUS). A Agenda se destina também a gestores(as) públicos, pesquisadores(as), organizações da sociedade civil e à toda a sociedade. Este documento apresenta as propostas da Agenda para garantir uma melhora do bem-estar de todos os brasileiros e brasileiras através de uma expansão qualitativa e quantitativa do SUS. As proposições foram formuladas e priorizadas a partir dos principais achados da coletânea “Mais SUS em Evidências” em conjunto com organizações parceiras, especialistas em saúde pública e gestores públicos, atendendo a critérios de viabilidade técnica e política, bem como uma base de princípios norteadores. Esses achados foram sintetizados em quatro desafios: i) o crescimento da tensão entre necessidades financeiras e sustentabilidade do SUS, frente ao baixo nível de gasto público na saúde; ii) o sucesso da expansão da Estratégia de Saúde da Família na Atenção Primária e a estagnação desse processo em anos recentes; iii) a piora da saúde mental dos brasileiros e brasileiras nos últimos anos, simultânea à uma desconfiguração gradual das principais políticas públicas de acolhimento e tratamento, e; iv) o legado de procedimentos represados durante a pandemia, que elevará a demanda por saúde nos próximos anos e pressionará o SUS por mais financiamento e uma organização mais eficiente. Saiba mais…

Continue Lendo “Saúde nas eleições para Presidente”

A invasão evangélica na Saúde Mental

Trago aqui matéria publicada na Revista Questão de Ciência (ver link ao final), que trata de assunto absolutamente pertinente ao momento brasileiro atual, quando um projeto de poder que mistura militarismo, autoritarismo e religião (não necessariamente nesta ordem) vem passando por tentativas de ser implementado no Brasil. Trata-se da questão do uso/abuso de drogas, objeto de respostas simplistas por aqui, como se isso fosse possível. Com efeito, o foco tem sido, nos últimos anos, na defesa da abstinência, com a criminalização e estigmatização dos usuários, o que está no cerne da atuação das chamadas “comunidades terapêuticas” (CTs) dedicadas ao atendimento de pessoas com uso problemático de drogas. Elas são em grande parte mantidas e administradas por organizações religiosas e têm sido alvo de diversas denúncias de violações dos direitos humanos de seus “internados”, ao mesmo tempo que os gastos públicos com sua utilização explodem. De olho nisso, Paula Napolião e Giulia Castro, pesquisadoras da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, realizaram um profundo estudo sobre tais instituições, destacando que elas são geralmente inseridas em denominações religiosas e que vêm conquistando espaço neste campo, graças, sobretudo, à sua aproximação com órgãos públicos e à sua inclusão privilegiada nas políticas de drogas nacionais e locais, com a consequente possibilidade de obter recursos do Estado, em um processo repleto de tensões e ambivalências, com ações mais superficiais do que estruturais, além do mais  inclinadas a conservar o sentido de tais espaços de difusão de princípios morais e religiosos tradicionais, como se isso fosse necessário e suficiente para o processos de cura ou recuperação desses pacientes.

Continue Lendo “A invasão evangélica na Saúde Mental”

Ainda é tempo de pandemia..

Mais de 700 mil vidas perdidas no Brasil e o patético troglodita do Palácio do Planalto propaga que fez a coisa certa, entre uma ou outra referência à cloroquina e um lampeiro beija-mão concedido ao Conselho Federal de Medicina. Mas há coisas mais sérias no cenário. Por exemplo, matéria divulgada no The Lancet (não se trata de uma publicação comunista…), no qual se propõe novas estratégias para conciliar políticas de saúde e de desenvolvimento sustentáveis no período pós pandemia, que começa a raiar no horizonte. Seu conteúdo, naturalmente, se coloca em sentido totalmente contrário ao que divulgam as autoridades brasileiras, em seu notório charlatanismo mal informado e sobretudo mal-intencionado, que multiplica nossa vergonha perante o mundo. Ali se fala da construção de um futuro pós-pandêmico, no qual se deverá promover e proteger a saúde de todos os cidadãos, dentro da pressuposição de que os eventos atuais têm muito a ensinar. Os autores, especialistas de uma ampla variedade de origens institucionais e geográficas, foram reunidos pela Organização Mundial da Saúde, e se alinham a uma agenda ambiciosa para alcançar um futuro saudável e seguro para todos. Eles começam falando de como crises como os ataques de 11 de setembro de 2001, as consequências do conflito e da migração, a crise financeira de 2007 e a pandemia COVID-19 afetaram a situação social no mundo. A pandemia, como se sabe, se espalhou rapidamente entre os países, embora nem todos tenham sido afetados da mesma forma.

Continue Lendo “Ainda é tempo de pandemia..”

No Brasil, já não se adoece e nem se morre como antigamente…

Não sou tão velho, mas ainda na minha infância, nos anos 50, havia varíola na própria vizinhança de minha casa em Belo Horizonte e eram frequentes e temidas, além lamentadas em prosa, verso e reportagens de jornal, esta e outras doenças que matavam e inutilizavam muitos brasileiros, principalmente crianças, entre elas também o sarampo, o tétano, as gastroenterites, a esquistossomose. Hoje elas fugiram das estatísticas. Mas o que foi feito delas, afinal? Porém, antes de cantarmos vitória, devemos lembrar que surgiram outras moléstias, algumas delas ainda mais terríveis. A Covid 19 está aí para nos lembrar. Temos que entender tais mudanças nos cenários de doenças à luz não só do perfil demográfico da população, mas também das transformações que estão ocorrendo nas percepções das pessoas, nos fatores ambientais e também na estrutura das instituições de saúde. O certo é que no futuro – se é que não já agora – pode -se prever sérias implicações para os cenários e práticas de saúde, bem como para a estrutura dos sistemas de saúde como um todo, revelando mesmo uma premente necessidade de novos modelos de prestação de cuidados.

Continue Lendo “No Brasil, já não se adoece e nem se morre como antigamente…”

Aperfeiçoar o SUS não significa negar o SUS

Acabo de ler um interessante artigo, no qual são discutidas questões relativas à eficiência e à sustentabilidade do gasto público com saúde no Brasil, com autores brasileiros com projeção internacional na área de Economia da Saúde (ver link). Eles demonstram que mesmo com as inegáveis conquistas das últimas décadas, o SUS ainda enfrenta problemas estruturais muito sérios. O senso comum e as estatísticas mostram que o Brasil gasta pouco com a saúde, mas a pergunta fundamental é: gasta bem ou gasta mal? Em termos comparativos, os gastos públicos com saúde no Brasil são menores que os de países com sistemas de saúde com caraterísticas semelhantes, embora em termos per capita cresçam a taxas maiores do que o PIB. A questão central é a da eficiência de tal gasto, nem sempre devidamente considerada, já que a ineficiência presente acarretaria, estima-se, prejuízo ao SUS de quase R$ 40 bilhões por ano, afetando principalmente os componentes de média e alta complexidade. Ganhos de eficiência podem ser de fato alcançados no sistema , por exemplo, com o aprimoramento de escala na estrutura e operação de hospitais; com a integração dos serviços em redes de atenção; conferindo densidade e melhor distribuição da força de trabalho; aprimorando os mecanismos e incentivos entre pagamentos e resultados em saúde, além da incorporação de inovações gerenciais, por exemplo, parcerias público-privadas. Tudo isso tendo fazendo da Atenção Primária à Saúde o vetor organizador do sistema. Nem tudo isso é objeto de consenso, claro, principalmente entre os defensores mais radicais do papel do Estado na gestão do sistema. Mas uma coisa é certa: a sobrevivência do SUS, em suas ideias matrizes, dependerá certamente de profundas melhorias na eficiência e na qualidade dos serviços que o mesmo oferece à população do país.

Continue Lendo “Aperfeiçoar o SUS não significa negar o SUS”