Como disse Portinari ao Duque de Edinburgh: Não pinto flores, só pinto miséria… Está difícil NÃO falar de Covid aqui no DF, onde a doença já matou até o dia 1º de abril último (e não é mentira) , 6.150 pessoas, com quase 350 mil casos confirmados. Não há rigorosamente flores, ou melhor, notícias boas no cenário. Vasculhando, porém, a internet, verifico que há uma informação que não chega a ser rigorosamente nova, mas sim de meados do ano que passou, mas que continua merecendo divulgação e louvor – ainda mais em momento com o presente. Eis que a nossa cidade conquistou o primeiro lugar em índice denominado de Município Amigo da Primeira Infância (Imapi), através do qual são avaliados 31 indicadores sociais e de saúde, que incluem a oferta de políticas públicas e de ações, serviços e práticas familiares voltados ao desenvolvimento infantil em termos de saúde, nutrição, cuidado responsivo, aprendizagem inicial, segurança e proteção. Isso foi obtido através do Programa Criança Feliz Brasiliense, o qual, ao contrário do que eu, pelo menos, esperava, NÃO se trata de uma ação da SES-DF, mas sim da Secretaria de Desenvolvimento Social. Tudo bem, desde que aconteça de fato, o locus institucional não importa. Em tal programa, a finalidade é apoiar as famílias em seu papel protetivo, além de ampliar a rede de atenção e cuidado para o desenvolvimento integral das crianças na primeira infância, contando, para isso, com visitas domiciliares, articulação intersetorial, fomento de habilidades das mães com o cuidado relacionados à vacinação em dia; nutrição, a alimentação diária adequada por fase da vida; incentivo à capacidade dos responsáveis, pais ou cuidadores em perceber, entender e responder os sinais das crianças de maneira apropriada, além de foco na oportunidade de integrar pessoas, locais e objetos no acesso à escola na faixa etária adequada e também segurança e proteção, ofertando ambientes seguros dentro e fora de casa. Este programa atua em nada menos do que 100 creches, públicas ou conveniadas, nas quais são atendidas atendem mais de 23 mil crianças, com componentes de educação precoce e acompanhamento especial desde os primeiros dias de vida,
Continue Lendo “No meio de tanta desgraça, coisas boas acontecem no DF”O evangelista Mateus nos anuncia o que trará o futuro pós pandemia…
Recebo de mais de um de meus “correspondentes” do Whatsapp, um texto com propostas sobre o que estaria por vir depois desta pandemia, que teria sido elaborado por cerca de 50 especialistas reunidos pela revista The Economist. Não confirmei se a matéria é verdadeira quanto à sua origem – hoje em dia nunca se sabe – mas sem dúvida ela traz conclusões que me pareceram razoáveis, embora pecando por certo otimismo, que me pareceu sem total correspondência com a realidade. Mesmo assim me senti tentado a aproveitar para expandir a tal conversa por minha conta e risco, com foco na saúde, seja no tocante às pessoas, individualmente, seja à maneira como organizá-la, socialmente. Eis que o futuro desta nossa área é certamente preocupante. Baseio-me, especialmente, no epílogo de tal documento, que nos alerta que inovação, tecnologia, além de um modo integrado de pensar serão a base da nova realidade e que assim, continuar fazendo o que sempre se fez é um caminho para a perdição, no que os autores, sejam eles quem forem, fazem um convite ao encontro de novas maneiras e vias de ação, individuais e coletivas. Veja a matéria completa (muito mal traduzida, por sinal) depois de meus comentários. Se que saber como Mateus entra nesta história, leia até o final…
Continue Lendo “O evangelista Mateus nos anuncia o que trará o futuro pós pandemia…”Na Saúde filas não podem fazer “parte da paisagem”
É possível acabar ou minimizar as filas nos serviços de saúde? Antes de tentar desenvolver esta questão, é bom avisar: as filas na saúde já existem, são históricas no Brasil, seja na variedade virtual ou física, e na gestão da atual pandemia, diante da incúria e da incompetência do governo federal, seja no conjunto da obra ou no caso específico da vacinação da população, sua tendência é aumentar, radicalmente. Já se disse que a guerra é assunto muito sério para ficar nas mãos de militares; mas e a Saúde, seria séria o bastante? O ministro da saúde (em minúsculas na atual conjuntura), apresentado como autoridade no campo da logística, talvez tenha obtido seus maiores feitos no provimento de “ranchos” para unidades militares na Amazônia, assim mesmo adquirindo suprimentos em algum mercadinho de esquina ou, quem sabe, fazendo campanhas para que os recrutas trouxessem marmitas de casa. Sob a gestão militar da saúde o país garantiu o suprimento de vacinas para não mais do que 20%, não exatamente da população como um todo, mas apenas dos grupos de maior risco. Então, podemos nos preparar para medir as filas de vacinação em quilômetros, da mesma forma que os engarrafamentos de final de tarde em Sampa. Mas vamos ao foco que interessa: o triste espetáculo das grandes filas na porta das Unidades de Saúde, formadas muitas vezes durante a madrugada, presentes não só aqui no DF como em muitas partes do Brasil, ao ponto de terem se tornado “partes da paisagem” urbana, certamente a serem incrementadas a partir de agora, reflete o estado de desorganização e precariedade dos nossos serviços de saúde. Mas não é só isso: caberia indagar, sem dúvida: será que alguns dos que estão ali não deviam ou não precisariam estar? E para os demais, os realmente necessitados, o que importa de fato?
Continue Lendo “Na Saúde filas não podem fazer “parte da paisagem””“Carteira de Serviços” em saúde: sim ou não?
No final dos anos 80 começamos a prestar atenção, no Brasil, ao que acontecia no Quebec em matéria de saúde. Eu fazia mestrado na ENSP/Fiocruz e começava uma dissertação sobre a construção do SUS. A experiência canadense, já com uma década de consolidação, já nos parecia sob medida para melhor compreender tal objeto. Fui, vi e aprendi muito por lá, embora as diferenças culturais e políticas entre os dois países sejam imensas. Uma coisa me chamou a atenção especialmente: a preocupação geral com a informação aos citoyens usagers . Pra começar, no Canadá, desde as embalagens de pastas de dentes e refrigerantes até os manuais complexos dos equipamentos de informática – é tudo compulsoriamente bilíngüe. Nas unidades de saúde me fartei em recolher folders, folhetos e outros tipos de materiais muito bem impressos, para levar de lembrança e mesmo me inspirar, a começar por uma inédita (para nós) Chart des Usagers, na qual todos ficam sabendo do que é oferecido ali, dos direitos dos que frequentam o serviço, para onde dirigir reclamações, além dos nomes dos responsáveis e demais membros das equipes locais. Achei refinado e de muito bom gosto, também, o costume de que, na porta dos serviços públicos, de qualquer natureza estejam afixadas as fotos (de pessoas sorridentes, em atitude receptiva, não aqueles 3×4 burocráticos) dos que ali trabalham, com os respectivos nomes, funções e horários de trabalho. Isso me voltou à mente há alguns meses, ainda naqueles tempos em que quem ocupava o Ministério dito “da Saúde” era uma equipe de profissionais da área, não um plantel de fardados sob o comando de um pretenso “especialista em logística”, quando foi anunciada uma proposta de “carteira de serviços” em cada unidade do SUS. Isso seria bom ou ruim?
Continue Lendo ““Carteira de Serviços” em saúde: sim ou não?”Questão de Ciência….
Há pouco mais de um ano (29 de agosto 2019) postei aqui um texto no qual comentava políticas das SES-DF e do próprio Ministério da Saúde que visavam oferecer ao público as chamadas praticas alternativas, integrativas ou complementares. E arrematei questionando: seriam elas também efetivas? Tal pergunta segue ecoando, impertinente. Com efeito, eu alertava: colocar ao alcance de todos, coisas como apiterapia, aromaterapia, cromoterapia, geoterapia, imposição de mãos e terapia de florais, chazinhos diversos de quintal é coisa de maior responsabilidade. No limite, já se saberia: para os pobres os chazinhos de quintal; para os mais ricos as drogarias comerciais e os fármacos que bem ou mal os livrarão de suas mazelas. Afinal, o que ninguém esclarece é que para um determinado princípio ativo vegetal se transformar em medicamento ativo são necessários anos de pesquisa e outros tantos de desenvolvimento industrial – além de investimentos de centenas, milhares ou até milhões de Dólares ou Euros. Na ocasião me deparei com a existência de um Instituto Questão de Ciência (IQC), sediado em São Paulo, cuja diretriz é “trazer a ciência para os grandes diálogos nacionais e globais em torno da formulação de políticas públicas. Ciência e tecnologia formam os alicerces da vida contemporânea. Por causa disso, questões de ciência estão por toda parte no mundo moderno, e têm papel crucial na alocação responsável de recursos públicos ou privados”. Hoje trago mais novidades a respeito de tal instituição, que considero das mais necessárias, ainda mais nestes tempos de negacionismo e ilusão frente àquele “museu de grandes novidades” de que falava Cazuza, que nos é apresentado a cada momento.
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