Questão de Ciência….

Há pouco mais de um ano (29 de agosto 2019) postei aqui um texto no qual comentava políticas das SES-DF e do próprio Ministério da Saúde que visavam oferecer ao público as chamadas praticas alternativas, integrativas ou complementares. E arrematei questionando: seriam elas também efetivas? Tal pergunta segue ecoando, impertinente. Com efeito, eu alertava: colocar ao alcance de todos, coisas como apiterapia, aromaterapia, cromoterapia, geoterapia, imposição de mãos e terapia de florais, chazinhos diversos de quintal é coisa de maior responsabilidade. No limite, já se saberia: para os pobres os chazinhos de quintal; para os mais ricos as drogarias comerciais e os fármacos que bem ou mal os livrarão de suas mazelas. Afinal, o que ninguém esclarece é que para um determinado princípio ativo vegetal se transformar em medicamento ativo são necessários anos de pesquisa e outros tantos de desenvolvimento industrial – além de investimentos de centenas, milhares ou até milhões de Dólares ou Euros. Na ocasião me deparei com a existência de um Instituto Questão de Ciência (IQC), sediado em São Paulo, cuja diretriz é “trazer a ciência para os grandes diálogos nacionais e globais em torno da formulação de políticas públicas. Ciência e tecnologia formam os alicerces da vida contemporânea. Por causa disso, questões de ciência estão por toda parte no mundo moderno, e têm papel crucial na alocação responsável de recursos públicos ou privados”. Hoje trago mais novidades a respeito de tal instituição, que considero das mais necessárias, ainda mais nestes tempos de negacionismo e ilusão frente àquele “museu de grandes novidades” de que falava Cazuza, que nos é apresentado a cada momento.

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Tremores e trevas em meio à pandemia

Acabo de tomar conhecimento do lançamento do livro No tremor do mundo – ensaios e entrevistas à luz da pandemia, da Editora Cobogó, no qual diversos autores brasileiros, de várias áreas de conhecimento, tratam da repercussão social deste acontecimento que está mudando nossas vidas, qual seja esta fatídica pandemia de Sars-Covid-19. A obra procura não só construir em tempo real memórias desta época tão estranha, como também partilhar imaginações para o futuro, tentando antever o que nos aguarda como humanidade. Ainda não li e creio que a questão da saúde está sendo tratada ali, já que alguns dos autores são de tal área, como o neurocientista Sidarta Ribeiro. Mas de toda forma, diante de uma iniciativa tão necessária, me senti tentado a refletir também sobre o assunto, dentro do foco sanitário, o que ora compartilho com vocês, leitores. Penso que sempre é bom jogar um pouco de luz sobre as trevas e tentar alcançar estabilidade diante de um mundo que se agita em tremores e no qual nada mais parece ser sólido, tal e qual assistimos no presente momento.

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Deu no New York Times…

O New York Times mostrou no dia 27 último (27/10/2020) como manchete simplesmente o seguinte: Trump e Bolsonaro destruíram as defesas da América Latina contra covid, denunciando para o público americano e para o mundo em geral o comportamento tosco dos dois presidentes negacionistas durante a pandemia, contrariando o bom senso e as orientações de autoridades sanitárias. A manada certamente dirá que se trata apenas de uma mentira “daquele jornal comunista”, se recusando a ver que mais uma vez se colocam a nu as atitudes irresponsáveis desses dois mandatários, que infelicitam mais de 500 milhões de pessoas acima e abaixo da linha do Equador. Para o irresponsável do hemisfério Norte a hora está chegando; para o daqui, esperamos, não passe de 2022.  

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Máquinas na medicina: melhor não tê-las?

Hoje não vamos falar de Covid… Tornou-se proverbial a afirmativa que a medicina moderna, com suas máquinas e procedimentos mágicos, nem sempre se faz acompanhar de atenção mais qualificada, em termos humanos, aos pacientes. Tem tudo para ser verdade, mas convém tentar ir um pouco mais fundo em tal questão. Começo por um exemplo pessoal: por esses dias (e por esses caprichos dos jovens médicos que dominam as tecnologias clínicas e querem que seus pacientes sejam revirados pelo avesso diante de uma simples falta de ar) me vi submetido a uma série de exames de imagem do coração, com e sem contraste radiativo, com e sem esforço, com ou sem a minha vontade. Não que eu seja avesso a tais exames – nem de longe! – mas minha ignorância frente a tal arsenal, totalmente impensável em meu tempo de médico, salvo em alguma sessão de cinema ou romance de ficção científica, confesso que me deixa desconfiado e ansioso. Se não em relação à sua eficácia, certamente à sua capacidade de trazer à luz coisas ruins, em outros tempos de detecção impossível. Sabem, quando gente morria nas trevas da mais completa ignorância a respeito do que se tinha ou se deixava de ter e talvez fosse feliz mesmo assim, ou apesar disso? Mas uma vez adentrado a tal cenário de ficção científica, com direito ao ar condicionado siberiano; luzes frias; banheiros de descarga automática e luzes que não precisam ser apagadas nem acesas; aparelhinhos e aparelhões de diversas qualidades; telas de LED de todos os tamanhos pelos quatro cantos; apitos e sibilos eletrônicos perpassando a atmosfera; luzinhas faiscantes por todo lado, tive uma sensação no mínimo estranha, quase uma epifania, qual seja a de que eu não estava me sentindo “objetificado” ou meramente processado por máquinas; ao contrário, eu até me sentia bem no meio daquilo tudo! Por uma razão muito simples…

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UnB: meio século de formação médica

Acabo de receber o livro comemorativo do cinquentenário da primeira turma de médicos que se formou na UnB. Material muito bem elaborado, virtual (como, aliás, tudo ou quase tudo hoje deveria ser), organizado pelas mãos competentes de um dos egressos de então, o Dr. Marcus Vinicius Ramos, que também é presidente da Academia de Medicina de Brasília. Não estudei com eles e até conheço algumas pessoas do grupo, mas minha formatura, pela UFMG apenas um ano depois, me autoriza a comentar este evento tão significativo, além de me congratular com estes coetâneos. Meio século de formação e prática médica em outros países, de primeiro mundo, já seria algo muito significativo, mas aqui no Brasil os acontecimentos correspondentes são verdadeiramente alucinantes! Vale a pena se deter sobre o tema, sem maior pretensão de esgotá-lo.

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