Tenho sido bastante crítico em relação ao que se denomina no Brasil, impropriamente a meu ver, de “controle social em saúde”, mas em relação a esta 16ª Conferência Nacional de Saúde, realizada nesta última semana em Brasília, é preciso começar pelos elogios. Ela foi agraciada pela militância com o epíteto “8+8”, em homenagem ao grande evento de 1986, a Oitava CNS, que está na origem do SUS. Seu grande feito é o de ter sido realizada apesar do momento obscurantista, antidemocrático e contra participativo que se vive no Brasil, devidamente impulsionado pelo bolsonarismo. Nisso estão de parabéns seus realizadores, representados pelo Conselho Nacional de Saúde, demais conselhos de saúde e entidades civis de todo o país. O Ministério da Saúde, no qual está inserido o Conselho Nacional de Saúde (embora seus militantes prefiram considerá-lo externo ou estranho ao mesmo) garantiu em seu orçamento os recursos, que certamente não foram poucos, para que o evento ocorresse – é bom lembrar. O Ministro da Saúde compareceu e foi profusamente vaiado na abertura do encontro, mas ao que tudo indica, o mesmo fez questão de provocar tal reação, com suas alusões à Venezuela, lava jato, prisão de Lula e outros temas semelhantes, sem dúvida pouco sintonizados e adequados ao momento. A militância deve ter achado tal vaia o máximo, certamente arrolando isso como uma das “conquistas” do evento. Da mesma forma, o Ministro, como bom seguidor do ex-Capitão, talvez tenha encarado isso como ponto para si, pelo menos perante as milícias ideológicas governistas, um atestado de macheza e de destemor em enfrentar o segmento escolhido para ser responsável pelas mazelas do país, ou seja, a esquerda. De minha parte, lamento, pois coisas assim não fazem parte das boas normas democráticas e assim se desperdiçou o que seria bom momento para debate, não para troca de hostilidades. Aliás, nisso, a egrégia plenária do “controle social em saúde” se equiparou, lamentavelmente, ao bolsonarismo mais “raiz”. Mas vamos ao que interessa… Continue Lendo “Oito mais oito, noves fora, zero…”
Como evoluiu a situação de saúde no DF nos últimos anos?
Em número especial da revista Ciência & Saúde Coletiva, conforme já divulgado neste blog (ver link), especialistas da UnB, da UFG e da Codeplan-DF analisam a evolução da situação de saúde no Distrito Federal entre 2005 e 2017, comparando alguns indicadores com os da região Centro-Oeste e do país como um todo. Os números mostram que o DF apresenta melhoria na taxa de mortalidade infantil entre 2006 e 2016, de 18,3% para 10,3%, uma das menores do país. A detecção de AIDS apresentou tendência de queda (21,3%) no mesmo período, resultado também positivo quando comparado aos dados da região CO e do Brasil. Em relação tuberculose, constatou-se um dos menores coeficientes de incidência e mortalidade do país, bem abaixo da média nacional. Da mesma forma, na hanseníase ocorreu importante redução da taxa de detecção anual bem como de incapacidade. No caso da sífilis congênita em menores de um ano, ocorreu aumento nos últimos anos no Brasil, eCO, mas também no DF, com taxas de 2,56 e 4,7/1.000NV no período considerado. Qual a importância de tais informações? Veja a seguir. Continue Lendo “Como evoluiu a situação de saúde no DF nos últimos anos?”
Mais médicos, mais do mesmo?
Após desqualificar ideológica e tecnicamente os profissionais cubanos que trabalhavam no Brasil através do Programa Mais Médicos, levando à ruptura unilateral da cooperação técnica, o desgoverno Bolsonaro se deu conta da estupidez de tal medida e agora procura um jeito de consertar mais este seu mal feito. Assim, o Ministério da Saúde admite que existem mais de seis milhões de pessoas a descoberto em matéria de saúde no Brasil, em quase oitocentos municípios com altos índices de vulnerabilidade, e que elas deverão ter de volta sua assistência médica em Atenção Primária. É claro que não se fala em reparar a perda de quase um ano na assistência dessas pessoas. Desta vez, se vai priorizar a participação de médicos formados e habilitados, com registro em qualquer CRM do Brasil, bem como eventuais titulações de especialistas ou portadores residência médica em Medicina da Família e Comunidade. E aos cubanos, antes demonizados pelo ativismo ideológico bolsonarista, poderão finalmente entrar com pedido de autorização para morar no Brasil por dois anos, tempo que pode ser estendido de forma indeterminada, de forma a “atender ao interesse da política migratória nacional”, conforme ato assinado pelos notórios Sérgio Moro e Ernesto Araújo. Mas não para trabalhar como médicos, embora isso tivesse sido também cogitado. Continue Lendo “Mais médicos, mais do mesmo?”
Por uma Atenção Primária à Saúde forte no Distrito Federal!
A prestigiada revista Ciência & Saúde Coletiva, publicada pela ABRASCO, nos brindou com um número especial sobre nosso tema predileto, ou seja, a Saúde no DF, com reflexões e diferentes pontos de vista sobre os avanços, limites e desafios enfrentados pelo setor saúde em nossa cidade. Tal publicação foi organizada em três eixos, agrupados por áreas temáticas importantes para a consolidação do SUS, a saber: 1. gestão, regionalização, planejamento e avaliação; 2. atenção à saúde: construções, avanços e desafios; 3. formação profissional. Seus autores são pessoas convidadas de diversas instituições brasileiras e estrangeiras, além de a(u)tores dos próprios serviços de saúde. Assim, nas palavras dos elaboradores do artigo de apresentação (Gerson Penna, Daniel Soranz, José Agenor Alvares e Luiz Felipe Pinto) “trabalhou-se evitando a endogenia, selecionando 100 autores de cerca de 20 instituições da comunidade científica, das escolas locais, dos serviços de saúde. O resultado está expresso em 25 artigos científicos agora entregues à literatura científica nacional e internacional”. Veja abaixo a lista de artigos. Continue Lendo “Por uma Atenção Primária à Saúde forte no Distrito Federal!”
Mais fácil um boi voar: Max Weber e a Gestão da Saúde no DF
Nestes estranhos tempos (para dizer pouco), em que as ciências, particularmente as humanas, são desprezadas, não deixa de ser surpreendente alguém recorrer aos ensinamentos da Sociologia para explicar qualquer coisa, como vou tentar agora. Faço isso após ter lido na imprensa que a SES- DF cuida de que servidores cedidos ao Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (IGES-DF), se manifestem sua opção pela remoção a outras unidades ou permanência no local de origem. Parece coisa banal e rotineira – e aliás deveria ser – mas tem sido, por aqui, objeto de incômodo e apelo a prerrogativas e conveniências corporativas, devidamente apoiadas, amplificadas e dramatizadas pelos sindicatos das diversas categorias. É aí que entra Max Weber, considerado um dos pais da Sociologia, que produziu sua obra no último quartel do século XIX, sendo contemporâneo de Marx, portanto. Continue Lendo “Mais fácil um boi voar: Max Weber e a Gestão da Saúde no DF”
