Em breve seremos três milhões e meio no DF. E a nossa Saúde?

A Codeplan divulga que o DF terá 3,4 milhões de habitantes em 2030, ou seja, mais 430 mil em relação ao momento atual. Entre estes, haverá cada vez mais idosos e cada vez menos jovens. Atualmente a população local é de 2,97 milhões. Se em 2010 os idosos representavam 7,6% da população, em 2030 chegarão a 16,6%; já os jovens cairão de 24,7% para 17,5%. São mudanças que seguem uma tendência nacional, e até universal, dado que as famílias estão tendo cada vez menos filhos, ao mesmo tempo em que se vive mais. E a saúde dessa gente?

É claro que toda essa transformação exigirá dos governos melhoria nas políticas públicas para idosos, não só na saúde como em outras áreas, como assistência social, serviços urbanos, transporte etc. Ao contrário do que muita gente pensa, isso não afetará só as áreas mais ricas de Brasília, como Lago Sul e na Asa Sul, mas se reflete também nas cidades mais pobres.

Quem vai crescer mais serão Riacho Fundo II, Paranoá e São Sebastião. Ao contrário Sobradinho, Candangolândia e Cruzeiro, além de outras áreas, poderão ter encolhimento da população neste período. As regiões do DF mais populosas em 2010, ou seja, Ceilândia, Samambaia, Plano Piloto, Taguatinga e Planaltina, serão as mesmas em 2020.

É preciso, portanto, pensar em uma política de saúde capaz de atender esta população que envelhece. As condições crônicas e degenerativas, entre elas o câncer e as doenças cardiovasculares, assim como os problemas de saúde mental, como o Alzheimer e o Parkinson, aumentarão. Essa população necessitará de serviços mais acessíveis, em termos físicos e geográficos, considerando que sua taxa de uso já é bem superior à da população em geral. Os cuidados dedicados a elas custarão mais caro também, o que, diante do cenário de desfinanciamento da saúde vigente, chega a ser preocupante, se não assustador, inclusive aqui em nossa cidade.

Mas não é só para os mais velhos que as mudanças devem ser programadas. Estudos internacionais têm demonstrado que nos sistemas de saúde de maneira geral se impõem mudanças de enfoque dos cuidados, basicamente de doença agudas em jovens para doenças crônicas em idosos, com deslocamento do objeto das práticas, ou seja, de indivíduos para famílias, de cura para prevenção e o enfoque da promoção da saúde, o que certamente envolve novas abordagens voltadas para hábitos e estilos de vida.

Da mesma forma, é preciso desenvolver novas concepções e práticas educativas, com especial ênfase no papel feminino, buscando o autocuidado e apoio ao grupo familiar, o que implica na necessidade de capacitação de provedores de cuidados na própria família, com especial ênfase no cuidado ao idoso, mas também na maternidade e na perimaternidade, O abandono de menores e de idosos será outro problema relevante e, para isso, será necessário colocar maior ênfase na ação social, (mais que sanitária), visando a preservação da estrutura familiar.  Caberá também a busca de novos cenários para a atuação em saúde, seja das famílias ou dos profissionais, aí incluídos os domicílios, os locais de trabalho, as creches e escolas, os lares de idosos, a população de rua, etc., promovendo assim uma efetiva política de promoção da saúde.

Tais cenários, no contexto brasileiro, nos levam a refletir sobre a necessidade de uma adequação dos objetivos institucionais do sistema de saúde e das funções e papéis que os profissionais de saúde terão que desenvolver nesse contexto de mudanças e ajustes. Assim, alguns aspectos tópicos que se esperam das estruturas de saúde de modo geral, incluem, por exemplo, a ampliação dos ambientes organizacionais, das jornadas de trabalho e das estratégias de atendimento, incentivando-se, por exemplo, como já vem acontecendo em alguns países, inclusive no Brasil, o cuidado domiciliar, além do incremento qualitativo dos processos de captação das necessidades sociais e sua tradução em ações de saúde, resposta que já vem sendo dada, também em nosso país, com a Atenção Primária à Saúde.

Novas estruturas organizacionais terão que surgir em resposta à necessidade de se ter estruturas mais flexíveis nos órgãos gestores de saúde. Desta forma, os quadros profissionais terão que adaptar-se as normas e regras organizacionais dessas instituições responsáveis (ou responsabilizadas), que terão que prestar contas socialmente dos serviços prestados.

A incorporação de novos agentes de saúde como por exemplo o incentivo ao papel da mulher como provedora de cuidados para a família, bem como outros, como monitores em saúde mental, terapeutas de família, além de outros profissionais alternativos certamente deverão ser dotados de mais ênfase do que foram até agora.

O trabalho programado, visando a atenção a grupos de risco, como estratégia de se obter a equidade deverá ser uma das tônicas dos novos sistemas. Assim, o estabelecimento de grupos-alvo para a atenção, como mulheres grávidas, crianças até seis anos e famílias de baixa renda deverão ocupar atenção especial dos tomadores de decisão em saúde. Da mesma forma, o desenvolvimento de estratégias e capacitação para atenção a idosos, adolescentes, desempregados, pessoas que vivem nas ruas, refugiados e outros grupos vulneráveis.

A ação intersetorial, envolvendo educação, assistência social, judiciário, empregadores e a sociedade organizada em geral é outro aspecto a ser destacado. Neste campo se insere, ainda, o desenvolvimento de redes formais e informais de apoio. Clareza nas prioridades é fundamental: ações de promoção, prevenção e reabilitação face a problemas emergentes, tais como, violência doméstica, outras violências, órfãos da AIDS, doença mental, gravidez na adolescência e de alto risco, riscos ambientais, passam a ser considerados com uma ótica de compromisso de resultados.

Outro aspecto marcante dos novos sistemas de atenção à saúde deverá ser a criação de novos cenários para provisão dos cuidados (domicílios, locais de trabalho, etc.), com o consequente desenvolvimento de facilidades para desospitalização. Em tais estruturas, não seria demasiado insistir, a família passa a ter um papel diferenciado e estratégico. Em outras palavras, deve ser reconhecida como autêntica parceira do sistema oficial nos cuidados à saúde.

Deve ser lembrado, também, que as bases tecnológicas atuais da prática médica, enfrentam o dilema de produzirem pouco benefício para a maioria da sociedade, alijada que está do acesso aos serviços de saúde, ou os recebendo apenas marginalmente. O apelo individualista, calcado na relação médico-paciente inspirada no juramento hipocrático e gerador de um modelo artesanal de prestação de serviços de indiscutível eficácia em épocas passadas, transformou-se em verdadeiro anacronismo. A medicina contemporânea é fortemente intermediada em termos institucionais, burocráticos e econômicos e as escolas médicas parecem não se dar conta de tal fato, realizando suas atividades docentes e assistenciais como se os tempos ainda fossem outros.

Trata-se, enfim, de um panorama extremamente mutante, complexo, conflitivo, com soluções ainda mal vislumbradas no horizonte. Mas apesar das dificuldades, tentando ser otimista, o campo da saúde está aberto para mudanças, pela sua transcendência na existência de cada indivíduo e pelas implicações que possui na vida social.

Há muita luta pela frente. Será que nossas autoridades dão conta disso?

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Para maiores informações, acessar:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/12/12/interna_cidadesdf,724876/df-tera-3-4-milhoes-de-habitantes-em-2030-segundo-a-codeplan.shtml

E também (texto de minha autoria) : DESAFIOS AOS SISTEMAS DE SAÚDE NO SÉCULO XXI

 

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