João de Deus e as Armas da Razão

Postei há poucos dias aqui no blog um comentário a respeito das crenças das pessoas sobre as chamadas terapias alternativas ou, em linguagem mais moderna, integrativas e complementares (PIC), deixando claro que tinha sérias dúvidas sobre a eficácia das mesmas. Citei o pesquisador Edzard Ernst, da Universidade de Exeter (Reino Unido), um crítico da homeopatia, a qual considera não só uma ilusão como “um dos piores exemplos da medicina baseada na fé”, deplorando o apoio estridente que a mesma recebe de celebridades e outros lobbies poderosos “no lugar de um desejo genuíno e humilde de explorar os limites de nosso conhecimento usando o método científico”. Os acontecimentos recentes envolvendo o “médium” (entre aspas mesmo, pois não sei exatamente o que significa isso e como se mede tal fenômeno) João de Deus, de Abadiânia, que além de seus eventuais méritos de cura (ou capacidade de sugestão) e de sua facilidade em acumular bens, se revelou um Don Juan implacável com suas pacientes e até mesmo uma filha. Tudo bem, a história ainda está sendo investigada (pela Polícia de Goiás, não por alguma entidade sobrenatural), de tal forma que devemos conceder a este senhor o benefício da dúvida. Mas não deixa de ser um ponto a mais para aqueles, como eu, que defendem que a boa e velha Ciência ainda tem seu lugar no mundo.  

Ah, os mistérios nada divinos de João de Abadiânia…
Alguém disse, acho que Abraham Lincoln,  que é possível enganar alguns por muito tempo; muitos, mas por pouco tempo; mas nunca todos, por todo o tempo. Este João “de Deus” quase contradisse o patriarca estadunidense: enganou muitos – e talvez continue enganando – por tempo demasiado. Mas olhando bem, tinha alguma coisa errada ali. Aquelas “cirurgias espirituais” que depois passaram ao plano físico e cruento; as receitas de alta densidade tecnológica, aviadas em boticas cujo proprietário era o próprio curador; os múltiplos interesses comerciais do demiurgo, sua evidente acumulação material… Olhando bem, o próprio nome com que batizou o lugar de suas práticas, “Dom Inácio de Loiola”, sei não, parece falso. Com efeito, Inácio, o autêntico, nascido Iñigo, na Região Basca da Espanha atual, teve infância e juventude abonadas, mas abandonou tudo com duas décadas de vida para se transformar em um cruzado pela salvação de almas. Fundou a Companhia de Jesus, com hierarquia calcada em seus tempos de nobre e militar, com fundamento maior na educação e conversão de almas. Não teve cargos na hierarquia da Igreja Romana, do que se depreende que este título de “Dom” que o homem de Abadiânia lhe arranjou pareça falso. Se o chamasse de “Santo”, que ele é de fato no catolicismo, estaria tudo bem. Além disso, não consta que Inácio tenha se dedicado à medicina, mas sim, em termos terrenos pelo menos, à educação. Custa a crer que os Jesuítas brasileiros não tivessem dado conta disso e se movido em contraposição ao curandeiro. Mas aqui, malgrado nosso, é o país daquela pretensa “cordialidade”, em que o erro quando é visto, cai na vala comum do “deixa pra lá”. Agora é o leite derramado…

Ver também:

https://saudenodfblog.wordpress.com/2018/11/17/as-praticas-integrativas-e-complementares-e-as-boas-armas-da-razao/#more-424

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