Vacinar ou não vacinar: o que está em jogo?

Teria sido um mundo ideal aquele que conhecemos até algum tempo atrás? Poderia me estender sobre diversos tópicos, mas falarei hoje do ato de vacinar, que virou um gesto cheio de meandros, suspeições, supostos perigos. Quando nada, dentro de um território de ideologia ou crença religiosa. Quando garoto, nos anos 50, fui testemunha ocular (além de potencial vítima) de dois grandes flagelos sanitários, hoje dominados (embora já não se saiba até quando): a varíola e a poliomielite. Com efeito, era relativamente comum ver gente de todas as idades com diversos graus de paralisia pelas ruas, e mesmo nas escolas onde estudei. Parecia fazer parte da paisagem. Havia também pessoas profundamente marcadas pelas cicatrizes da varíola na pele ou no rosto, sem contar aqueles que tinham falecido ou ficado cegos. Muitos desses aí estavam nos cemitérios, outros recolhidos em casa, e assim ficavam, por assim dizer, invisíveis aos olhos gerais. Nem que fosse por tais motivos tão óbvios e assustadores, a afetar colegas de escola e vizinhos de muro ou de corredor, as pessoas se vacinavam. Vacinar, então, fazia parte de um verdadeiro cardápio de cuidados nas famílias, com as eternas mães zelosas a garantir que isso fosse cumprido à risca pela filharada e mesmo pelos demais membros da família. Na ocasião, seria um fato absolutamente excepcional algum político ou pastor se meter em tal história. mas isso mudou em tempos recentes, como todos sabemos…

Com efeito, com a pregação bolsonarista, ampliada pela multidão de papagaios por ela influenciada, isso começou, lamentavelmente, a mudar, com a aparição do movimento antivacina, da desinformação galopante, da ignorância presunçosa, com a captura da verdade por lideranças políticas e religiosas. Naquele tempo, do qual hoje se pode ter saudades, eram as vacinas aprovadas pelo uso, amplamente testadas e demonstradas como seguras e eficazes em todo o mundo, além de referendas pelas mães vigilantes, sem que se opusessem a elas alguma malta de políticos e pastores irresponsáveis. Em que pesassem as dificuldades culturais, logísticas e geográficas marcantes na ocasião, as garantias para a adesão aos calendários oficiais e vacinação estariam, ao que parece, mais garantidas do que agora. Houve, por certo, a revolta da vacina, cerca de 1904, mas ela foi um fenômeno passageiro.

Vejamos o caso da Covid. Em situação ideal, vacinar contra tal doença potencialmente fatal, demonstrado como seguro e eficaz, deveria ser gesto de autopreservação, para não dizer preocupação com a saúde pública. Entretanto, foi em tal momento que fomos agredidos pela ascensão do movimento antivacina, com a suspeita de que as pessoas seriam transformadas em jacarés ou sujeitas a mutações genéticas, toda aquela peroração desconjuntada do “mito” e seus seguidores. Isso tudo veio a tumultuar o cenário, mais uma vez em um quadro de imitação de coisas que aconteciam lá fora, para ser mais claro nos EUA, transformando o ato de vacinar num complexo de argumentos de negação, deixando de lado as provas de eficácia, a relativização de riscos, a duração da proteção, em troca de fatores até então estranhos, trazidos à luz pela irresponsabilidade boquirrota do ex-capitão, tendo como tópicos as considerações sobre país de origem da vacina, além de aspectos de fundo ideológico e religioso, entre outros.

Dentro de tal assunto, encontrei um artigo revelador, de autoria do jornalista Cesar Baima, publicado na Revista Questão de Ciência, cujo link vai ao final, que procurei resumir.

  1. Trata-se de um estudo de um tipo conhecido como Experimento de Escolha Discreta, no  qual a uma amostra de pouco mais de três mil participantes é apresentada uma matriz de cenários com sete variáveis, com questões também relativas ao nível de confiança nas autoridades de saúde, posicionamento político e outros dados socioeconômicos como religião, escolaridade e renda, bem como seu status vacinal contra a COVID-19.
  2. Foram identificados quatro grandes grupos com diferentes padrões de preferência: (a) esquerdistas favoráveis à exigência de vacinação (62,4%); (b) esquerdistas favoráveis às restrições (19,5%); (c) centristas cautelosamente pragmáticos (11,4%); (d) direitistas recusadores de vacina (6,7%).
  3. Em termos da adesão à vacinação, o fator gênero foi um dos preditores mais fortes, com as mulheres significativamente mais propensas a se vacinar do que os homens.
  4. Renda mais alta também se mostrou como fator positivo, enquanto declarar-se cristão evangélico se destacou como negativo.
  5. Quanto à orientação política, os participantes que se identificaram mais à esquerda se mostraram mais propensos a se vacinarem.
  6. A confiança nas autoridades de saúde mostrou associação positiva à vacinação, enquanto escolaridade, idade e região de moradia não tiveram influência significativa.
  7. Entre os “esquerdistas” houve notável preferência pela obrigatoriedade de vacinas mais eficazes e de proteção mais longa, com alta propensão a se vacinar e confiança nas autoridades de saúde.
  8. Grupos mais ao “centro”, todavia, demonstram menores níveis de confiança nas autoridades e de adesão à vacinação, embora ainda assim superiores aos dos direitistas, mostrando, porém, resistência à obrigatoriedade das vacinas e maior preferência por produtos vindos de EUA, Reino Unido e União Europeia.
  9. À direita os níveis de confiança nas autoridades de saúde pública são reduzidos e seus integrantes tendem a aderir menos à vacinação e a optar por não se vacinar em diversos dos cenários propostos, indicando desde uma forte hesitação vacinal até uma postura completamente antivacina.
  10. Descreve-se também um fenômeno de contágio ideológico dentro do quadro geral de polarização política, mostrando que a orientação ideológica orienta as preferências por vacinação, mesmo dentro de cenários hipotéticos, não apenas como reflexo de comportamento retrospectivo de vacinação contra a COVID-19.
  11. Ainda no campo do alinhamento ideológico foi percebido que isso deslocou os determinantes sociodemográficos tradicionais da aceitação vacinal no Brasil, tendo como única exceção a religiosidade, o se demonstrar que evangélicos mostraram tendência maior do que o restante da população em termos da recusa à vacina contra a covid, o que significa no contexto brasileiro, que se trata de fator estreitamente entrelaçado com a identidade política de direita.

Você terá muito mais informações no link abaixo. Mas em resumo pode-se dizer que bons tempos foram aqueles em que o acesso à vacina dependia mais de fatores geográficos e estruturais do sistema de saúde do que da ideologia política e religiosa ou dos interesses eleitorais.   

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Saiba mais: https://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2026/04/09/estudo-revela-fatores-para-adesao-vacinacao-em-futura-pandemia-no-brasil

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