Tentando resumir o que aconteceu comigo nesta última semana, fui arrebatado por um encontro entre o previsível e o surpreendente… Comecemos pelo primeiro termo. A Universidade de Brasília resolveu homenagear alguns de seus ex alunos, que se notabilizaram em atividade profissional, social ou científica. Na verdade, trata-se de coisa inédita, embota devesse ser previsível, porque a corporação universitária (como a dos médicos e dos advogados, entre outras) é muito voltada para si mesma e quando homenageia alguém é dentro daquele famoso rótulo de honoris causa, ou seja, acaba contemplando quem até pode ser uma pessoa “de fora”, mas com toda possibilidade pertencente à mesma geração e estatuto social dos homenageantes.
Entretanto, a cerimônia à qual compareci, como convidado de uma das homenageadas, era visivelmente de outra natureza, com seu foco em ex alunos notáveis na arte, na ciência ou na gestão pública. Isso foi feito no âmbito de uma reunião do Conselho Universitário, com toda pompa e circunstância, por exemplo, com o uso de becas e da expressão “Magnífico(a)” em larga escala.
E foi assim que tal fato, previsível, porém excepcional, me teve como convidado. Minha ex aluna, e pra sempre admirada amiga, Michele Lessa de Oliveira era uma das tais pessoas que passaram pelos bancos da UnB e que vêm marcando de forma distinguida e competente sua atuação na sociedade, como uma das pessoas de proa na política nutricional do país. E ela muito me honrou com tal convite, que eu com muito orgulho atendi.
Michele, formada em Nutrição, foi monitora de uma das disciplinas que eu ministrava na ocasião, anos 90, para alunos de diversos cursos na Faculdade de Ciências da Saúde de então, subtraída, depois disso, do curso de Medicina, onde se dava minha lotação. Eu costumava dizer, na ocasião, numa imagem que para mim continua sendo real, que eu tinha um trabalho dobrado, quando comparado ao de colegas de outros ramos das tais ciências da saúde. Isso porque não me bastava preparar aulas, encontrar lugares de visita temática, aplicar e corrigir provas, desenvolver metodologias, etc. Não. Era muito mais do que isso: eu tinha muitas vezes me esforçar para convencer aquela moçada de que aquilo que eu ensinava era importante na vida profissional deles.
Com efeito, naquelas disciplinas de denominações diversas, tais como Introdução à Saúde Pública (ISP), cuja sigla maldosamente às vezes era interpretada como Introdução ao Sono Profundo; Organização e Administração de Serviços de Saúde (esta, felizmente, sem traduções capciosas) eu me via diante de um monte de alunos com olhares cinzentos, além de perdidos, na imensidão do Planalto, através das acanhadas janelas das salas de aula da FS.
Em tal momento, aquela menina, talvez de recém completados 18 anos, me chegou como monitora, com um respeito quase filial (coisa já muito rara naquele tempo) não sem antes indagar de mim se poderia me ajudar em alguma coisa. – Sim, pode – esclareci, logo passando para ela as listas de chamadas e outras atividades prosaicas do dia a dia acadêmico
Felizmente logo percebi que a tal menina, na verdade, era uma pessoa madura, repleta de bom senso, responsabilidade e capacidade operacional. Ela era capaz de mais do que aquilo. Muito mais!
E foi assim que juntos fizemos pesquisas, redação de comunicados, relatoria de eventos na área da saúde (já em uma etapa verdadeiramente profissional), além de interação intensiva no campo pedagógico propriamente dito. Devo a ela, sem nenhum favor, certa superação daquela categoria barbitúrica de indutor de sono que alguns alunos mais maldosos me dedicavam.
Em certo momento de nossa convivência entre em cena o Jorge, na ocasião namorado e depois marido de Michele. Não é por acaso que continuam juntos e criaram uma família maravilhosa. Desde aquela ocasião eu já percebia que aquela era uma parceria preciosa e feita para durar. Sem medo de exagerar devo dizer que Michele soube aproveitar muito bem as habilidades e o carinho de seu companheiro para trazê-lo, sem maior cerimônia, a se envolver e colaborar em muitas das coisas que fizemos juntos. Pobre rapaz…
Minha gratidão, portanto, se estende também ao Jorge.
Acho que o ponto alto de nossa interação se deu quando obtive financiamento da Organização Panamericana de Saúde – OPAS, em meados dos anos 90, para pesquisar o status da gestão da saúde nos municípios do Entorno de Brasília. Foi uma iniciativa inteiramente inédita que creio ter fornecido subsídios ao parlamentar que na época propôs a criação da Região Integrada (RIDE-DF) correspondente. Este pelo menos recebeu em tempo hábil o trabalho que divulgamos através da OPAS e embora nunca tenha se manifestado a respeito ainda assim creio que tenha utilizado o mesmo em seus esboços. Na ocasião viajamos (Michele mais do que eu) por quase três dezenas de municípios, colhendo informações locais através de entrevistas e análise de documentos, preparando, afinal um texto síntese, que foi publicado pela OPAS como texto oficial.
Muito bem, falei até agora do que era previsível, embora nem sempre evidente ou a cumprir-se automaticamente. É hora de falar do que foi, a mim pelo menos, totalmente o surpreendente.
Foi o seguinte: na referida sessão do Consuni a semana passada foi dado aos ex alunos homenageados alguns minutos para agradecerem e se manifestarem sobre a escolha com que foram agraciados. Foi então que tive a satisfação – misturada com um certo pudor, devo dizer – de ver Michele dedicar a mim talvez 50% do tempo a ela destinado.
– Explode, coração! Foi de Gonzaguinha que me lembrei nesta hora. E sem nenhum favor ou exagero digo ainda que tive que passar quase três décadas como docente universitário, seja na UnB, na UFMG ou na Universidade Federal de Uberlândia, para receber uma homenagem como esta.
Obrigado, Michele! Fico-lhe muito grato por ter compartilhado comigo um pedaço importante deste prêmio que lhe foi conferido, com toda justiça, aliás, pela Universidade de Brasília.

