O bolsonarismo e o SUS

Vivemos um momento delicado na vida brasileira. Aliás, delicado é pouco, melhor falar em vertiginoso, ou melhor perigoso; extremamente perigoso. Amanhã, afinal, nada poderia ser como antes, podendo até ser pior, muito pior. Entre outras dúvidas está aquela subentendida no título acima: o que será do SUS em um eventual governo do filho de tal pai? Para início de conversa, políticas públicas não fazem parte do cardápio dessa turma, gente que um dia apregoou, como vantagem, a isenção de impostos para a compra de jet-skis, entre outras façanhas. Por exemplo, para falar de algo ligado diretamente ao campo da saúde, a negação da existência e depois da responsabilidade sobre o surto da covid, que roubou 700 mil vidas ao país. O que esperar, então, de pessoas de tal quilate? A primeira questão é sobre se ele, o Filho do B, por acaso, teria proferido algo sobre tal assunto, de forma inteligível, pelo menos. Pode ter dito alguma coisa, sim, mas de forma genérica e descosturada, sempre sujeita a algum autodesmentido logo após. Sendo assim, o melhor é analisar, em tal candidato, as ações dele e de seu grupo, mais do que que suas palavras, sendo estas algo como um “risco n’água”, ou seja, coisa que em poucos minutos desaparece ou simplesmente é desmentida.

Uma coisa é certa, coragem para detonar o SUS, em palavras claras e objetivas, certamente ele não teve e nem terá. Pai, filho e também a sua caterva de acompanhantes, são gente que pratica à exaustão atos de covardia e dissimulação, em relação à Democracia, por exemplo, palavra, aliás, que no léxico bolsonarista passou a ser utilizada com significação exatamente oposto àquela dos dicionários. O fato é que desmonte na saúde, para além das entrelinhas, é coisa que ele já promete de fato, quando anuncia, por exemplo o tal tesouraço, que acontecerá já nos primeiros dias de seu mandato – se ele chegar lá (tomara que não chegue). A tesoura deles, é claro, não alcançaria a importação de jet-skis nem o apoio a bancos e empresas do capital faria-limer, ao contrário, suas vítimas estarão entre as políticas públicas que o bolsonarismo despreza, entre elas a Saúde, a Educação, a Proteção Social em geral.

O bolsonarismo bem que gostaria de apontar no SUS suas origens socializantes, e portanto “comunistas”, mas estão redondamente enganados, para variar. O SUS na verdade se inspira nas reformas sociais que deram origem ao conceito de Estado de Bem Estar Social, que surgiu na Inglaterra capitalista nos primeiros anos do século XX e que foi desenvolvido exatamente para salvar o capitalismo, não para acabar com ele,

É esta sem dúvida a bagagem que essa gente carrega e é nela que devemos concentrar nossas preocupações, pois costumam ignorar as lições da História e o que falam está a serviço da mentira ou simplesmente da dissimulação dos fatos.

O negacionismo deles, por exemplo, foi flagrante no caso da covid, e se estende ao conhecimento da Medicina em geral, além de outras ciências, como a Economia, o Direito e a Administração, para não falar de preceitos éticos e humanistas que deveriam marcar a boa gestão governamental. As altercações de B-pai com seu então Ministro da Justiça, questionando a atuação da Polícia Federal a correr nos calcanhares dos filhos e apaniguados, ainda são bem lembradas, sendo bom exemplo da noção de coisa pública que essa gente professa. Eles são ideológicos até a raiz dos cabelos, embora tratem a ideologia como “coisa de esquerdistas”. Aliás, o seu negacionismo se aplica mesmo à Constituição Cidadã, que bem ou mal construímos no Brasil, com a qual ele e a família não estão definitivamente sintonizados e o filho-do-B já ameaça arrebentar.

A noção de relações federativas entre eles é peculiar. Nas ações de governo, o B-pai discriminava abertamente, como coisa normal e aceitável, os governadores e prefeitos de oposição, como se a gestão pública fosse apenas um negócio entre amigos, como também era o modo como considerava os EUA de Trump. Este aí, aliás, era tão “amigo” que quando B-pai fugiu para os EUA, nem o mesmo foi convidado para passar a temporada (ou pelo menos uns míseros dias) em Mar-a-Lago.

Governança, para eles, não é coisa a ser levada a sério. Veja-se, por exemplo, a extraordinária gestão que o general fulano cometeu no Ministério da Saúde, acompanhado de sua notável equipe de lugar-tenentes (além de coronéis, majores, capitães e outros, de menor patente). A capacidade intelectual e operativa dessa gente para sempre ficará marcada, em uma instância já foram mandatários um Adib Jatene, um José Serra, um Waldir Arcoverde, uma Nizia Trindade, além de outros.

Financiamento, como se sabe é um dos nós críticos do SUS. Mesmo os governos progressistas recentes não deram conta de solucioná-lo totalmente. Nos quatro anos de B-pai o que houve foi muito discurso e pouquíssima ação concreta, ao contrário, a destruição de programas consagrados, como a imunização e outros. Entre as ameaças que agora traz o B-filho está o tal tesouraço, dentro do qual, com certeza, as primeiras amputações alcançarão, fatalmente, a área social. E para consolidar a intenção, é anunciada a nomeação de um grande empresário da área hospitalar e de alta tecnologia para ser Ministro da Saúde.

Clientelismo é outra especialidade da família B. Além dos fardados, nunca o MS se viu ocupado por uma tropa tão bisonha e inexperiente, e também agressiva, dando expediente por lá apenas para dar vazão à multiplicidade de articulações paroquianas da tal família. E tome desmonte de programas pelo Brasil a fora.

Eles adoram falar em meritocracia, lembrando-se dela muitas vezes quando tratam do “problema” das cotas nas universidades. Entretanto cabe indagar o que querem dizer com isso, se nos lembrarmos dos eméritos Pazuelos, Araújos, Weintraubs, Ribeiros, Damares, Salles e outros de igual estatura, que emprestaram seu talento a tal governo. Que se cuidem os seus antípodas Jatenes, Serras, Arcoverdes, Trindades e que-tais…

A participação social, uma das tônicas mais significativas do SUS é coisa capaz de provocar urticária nessa gente. No governo do B-pai o Conselho Nacional de Saúde foi solenemente ignorado e nada indica que com o filho isso será diferente. Participação, para eles, é coisa de nós com nós mesmos, quando não coisa de comunista, e não essa balbúrdia como um dos próceres “do B” nomeados acima um dia classificou essa diretriz, não só do SUS enquanto boa e democrática política pública.

O SUS como uma de suas marcas principais o cuidado aos grupos sociais em estado de vulnerabilidade, tais como, indígenas, favelados, quilombolas, portadores de patologias específicas e, acima de tudo, os mais pobres. A aniquilação de políticas públicas com tal objetivo, entretanto, foi uma marca nas gestões do governo “B”, haja vista a devastação que ocorreu entre o grupo Ianomani, para não falar da correspondente carta branca concedia a garimpeiros e madeireiros, dos ataques aos programas de Saúde da Família, de Imunizações, de Medicamentos, entre outros. Quem ainda se lembra da cloroquina?

Para resumir, bolsonarismo é igual a maniqueísmo, discriminação, restrição de direitos, subserviência, clientelismo, autoritarismo, caciquismo, cooptação, arrogância, desinformação, reacionarismo. E mais, representa negação de direitos, culto à personalidade, negação à ciência, militarização da sociedade, restrição de políticas públicas, obediência cega, “nós contra os outros”, manipulação de sentimentos religiosos, vislumbre de fantasmas, desconfiança do que é diferente, aparelhamento de instituições públicas, privilégio aos mercados, restrição à ação estatal.

Será que é isso que quase 50% dos brasileiros desejam para o país? Eles estariam, de fato, bem informados das consequências de seu voto? Ou apenas estão sendo iludidos? Ou tudo isso, talvez? É preciso, enquanto é tempo, salvar o SUS, a Democracia e mesmo a Nação…

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