A frase que dá título a este post é na verdade um plágio. A versão original fala de “fim do mundo” e seu autor é o mineiro Ailton Krenak, liderança indígena pertencente à etnia que lhe dá o sobrenome. Para quem ainda não o conhece, ele surgiu para o mundo em 1987, quando fez um pronunciamento na Assembleia Nacional Constituinte, em defesa dos direitos indígenas, com o rosto pintado com tinta preta de jenipapo. Na obra em foco ele denuncia a ideia de humanidade como algo separado da natureza, criticando com ironia sutil o modo de viver adotado pelos brancos, arrancados que foram de seus grupamentos originais para serem “jogados nesse liquidificador chamado humanidade”, abrindo mão da liberdade do contato e da harmonia com a natureza, deixando de respeitá-la como mãe. As tais “ideias para adiar o fim do mundo” referem-se ao fato de que os indígenas sempre usaram sua criatividade e sua poesia para resistir à barbárie da dita “civilização” que lhes foi imposta, com a suposta integração a uma espécie de clube selecionado, dentro do modo branco e europeu de ser. Foi assim que, segundo ele, os indígenas lograram postergar o Apocalipse, através de sua resistência continuada, fazendo com que sobrevivam hoje no Brasil cerca de 250 etnias e 150 diferentes idiomas. “A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos”, diz ele. E na Saúde, o que se pode oferecer de resistência para vencer o holocausto anunciado, que para muitos brasileiros já chegou? Antes de prosseguir nessas divagações inspiradas nos escritos de Krenak, cabe lembrar uma de suas frases, e tentar ser mais modesto: “Não é a primeira vez que profetizam nosso fim; enterramos todos os profetas”. Nada de profecias ou fantasias desejosas, portanto, pretendo me ater à realidade…
Direita, Esquerda e Covid-19: reflexões à luz de Norberto Bobbio
Cloroquina é de direita; isolamento é de esquerda. A morte, que deve ser ambidestra, espreita igualmente a todos. Entre tantos prejuízos que a presente pandemia já nos legou – e com reflexos inquestionáveis para o futuro – está a da polarização ideológica. Como falou Chico Buarque, esta é com certeza mais uma “página infeliz de nossa história”. Nada poderia descrever, como em tal frase, o momento de desdita, desgoverno e desvario em que estamos imersos. Um presidente intelectualmente tosco e irresponsável, com seguidores tão ou mais ignorantes do que ele, que conseguem politizar a seu favor, num balaio só, a cloroquina, o confinamento, o distanciamento social, o uso de máscaras e as verdades científicas, sem que isso tenha mudado em nada após tal personagem de ópera bufa, mas trágica em suas consequências, ter contraído a doença. Enquanto isso, coveiros fazem hora-extra para abrir sepulturas suficientes para as vítimas do vírus e multidões marcham alegremente para as praias e as baladas. O ponto a que chegamos: acreditar em microbiologia, imunologia, epidemiologia, metodologias de análise e na ciência, enfim, virou coisa de esquerdista, enquanto sua negação é ostentada orgulhosamente pelos que se dizem de direita. E morrer de Covid, é de direita ou de esquerda? Tristes tempos, nos quais todos nós, seja de uma banda ou de outra, os que acham que ideologia é só a dos outros e os que a reconhecem e aceitam, estaremos pagando um alto preço por tanta besteira. Continue Lendo “Direita, Esquerda e Covid-19: reflexões à luz de Norberto Bobbio”
Saúde: pensamentos na contramão
“Toda unanimidade é burra”; “ninguém de perto é normal”; “assim é se lhe parece”; “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”. Há uma infinidade de adágios sobre as contradições entre a aparência e a realidade das coisas. Eu, por conta própria, já acrescentei um corolário a tal coleção: “a unanimidade faz mal à saúde”. Para mim, tal discussão entre realidade e aparência, quando se tem em foco a Saúde, ou, como prefiro dizer em relação ao SUS, entre o “sonhado, o real e o possível”, pode ser incômoda para alguns, mas certamente é necessária. Tenho me debruçado sobre isso há tempos e a lista de textos meus que mostro em link ao final bem o comprovam. Recentemente resolvi levantar, sob a forma de um decálogo, as principais “apostasias” cometidas por mim sobre o nosso sistema de saúde . Como as submeti preliminarmente a meu amigo Vitor Gomes Pinto, emérito pensador nas coisas da saúde, resolvi acrescentar ao presente texto os comentários com que ele me brindou sobre tais heresias. Assim, vamos lá. Continue Lendo “Saúde: pensamentos na contramão”
Interesses singulares, prejuízos plurais
Esta semana as manchetes da imprensa, locais e nacionais, reproduzem o que já vai virando rotina no Brasil: a cúpula inteira da Secretaria de Saúde do DF foi parar na cadeia. Entre os presos o Secretário de Vigilância à Saúde, a quem inclusive elogiei aqui no blog, recentemente. Mas esclareço: não o condenarei por ora; continuo sendo um dos que acreditam que todo mundo é inocente, até prova em contrário. Aguardarei tal confirmação, portanto, antes de antepor algum veredito ou opinião pessoal. No país da Lava Jato tal atitude não é só uma questão de bom senso, mas de justiça verdadeira. Continuarei acreditando nisso mesmo que alguém venha ameaçar de “encher minha boca de porrada”. Mas cabe a pergunta: por que neste país tudo tem que ser sempre assim? Seria um dito Bíblico: onde houver Poder Público que haja sempre corrupção? Seria uma lei natural? Sempre me recordo daquele terremoto seguido de tsunami no Japão, alguns anos atrás. O aeroporto da cidade de Narita tinha lama na altura do segundo andar e aviões virados de ponta cabeça. Em uma semana voltou a funcionar de forma quase regular. Será que havia boas leis do tipo da brasileira 8.666 (Contratos e Licitações) por lá? Ou seriam outros os ingredientes, de fundo moral e de consciência política?
Dante Allighieri reservou, em seu Inferno, um lugar especial para os corruptos. eles seriam açoitados por um punhado de demônios, mergulhados em um tonel de piche fervente. Não chego a tanto, mas cá entre nós, penso que já era hora de esta turma ter um pouco de medo…
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O Aprendiz de Feiticeiro, história também levada às telas pela Disney, com Mickey no papel principal, é um poema de Goethe, no qual um velho feiticeiro sai à rua e deixa um aprendiz com tarefas de limpeza a realizar em sua oficina. Este, lá pelas tantas, cansado da monotonia da faxina, usa seus parcos conhecimentos de magia para fazer com que um esfregão trabalhe sozinho para ele. Um pandemônio logo se instala quando o atrevido rapaz se dá conta que não é capaz de parar o instrumento e, pior ainda, ao tentar parti-lo em pedaços, cada um destes torna-se capaz de se transformar em um novo esfregão, o que só aumenta a desordem no ambiente da oficina do feiticeiro. Estes tempos de hoje, com Covid na vanguarda, sádicos no comando do país, ideias obscurantistas pululando, cientistas sendo desacreditados e um tanto de gente fazendo terrorismo religioso, sinceramente, me trazem a impressão que alguém buliu em algo que não entendia e cujo controle está agora impossível de se obter. O tal “esfregão” que 57 milhões de brasileiros resolveram libertar de sua bizarra magia própria já produziu milhares de ativos pedaços seus e a cada dia surgem novas barbaridades perpetradas por tal legião. O achincalhe daquela pobre garota estuprada, humilhada e agredida publicamente, a quem negavam o direito de interromper uma gravidez não só indesejada como arriscada, é apenas uma mostra de acontecimentos que viraram rotina e mesmo se repetem por toda parte neste pobre (nos vários sentidos do termo) País. Procuro aqui refletir sobre tal tema à luz do que a filósofa Hannah Arendt chamou de “banalidade do mal”, à vista de figura macabra do carrasco nazista Adolf Eichmann. Ela conheceu de perto Eichmann, mas não Jair “E daí?” Messias e seu cortejo rastejante. Se isso tivesse sido possível com toda certeza escreveria mais sobre o assunto.
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