Saúde um Portugal (II): por que eles sim e nós não?

Como comentado em texto anterior, as coisas da saúde em Portugal estão longe de serem perfeitas, persistindo desigualdades diversas entre as regiões do país, nas várias faixas etárias, entre os dois sexos, etc. Mas mesmo assim, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) português, criado após a Revolução dos Cravos de 1974, dentro de uma proposta racionalizadora, unificadora e garantidora de direitos, parece avançar sem grandes retrocessos. Já no Brasil, como se sabe e se vê todos os dias, o nosso pobre SUS, criado com lógica semelhante, é assaltado a toda hora por ameaças diversas, que vão desde a descrença geral, seja dos usuários e dos seu servidores, para não falar dos agentes políticos, até o corte puro, simples e sistemático dos recursos destinados a ele. Continue Lendo “Saúde um Portugal (II): por que eles sim e nós não?”

Saúde em Portugal (I) – Da troika ao caminho da redenção

Daqui de minha janela em Cascais, a Terra Lusitana me chega aos sentidos através de várias imagens: pinheiros e oliveiras nas encostas; pés de couve nos quintais; ovelhinhas em apriscos; patos e galinhas ciscando em terreiros; algumas ruínas; casarões senhoriais; modernos conjuntos habitacionais. O mar onipresente no país apenas envia sua brisa, pois não é possível enxerga-lo daqui. Tudo ao mesmo tempo, agora! Junta-se assim o moderno e o arcaico; o natural e o construído pelo homem; o simples e o complexo; a gente rica e a remediada, pois não chego a ver pobreza por aqui. Continue Lendo “Saúde em Portugal (I) – Da troika ao caminho da redenção”

SUS, o santo de casa que não faz milagre

Criança, em BH, me lembro da história de um vizinho de bairro, o qual, gerente da Cia. Antarctica, mas apreciador da cerveja Brahma, passava por apuros sérios quando queria saborear sua favorita, pois não poderia ser visto, em hipótese alguma, cometendo tal tipo de infidelidade, ao mesmo tempo profissional e etílica. Lembrei-me da história ao ler na mídia que o servidor da saúde do DF, como, aliás, já acontece em outras paragens do Brasil, não precisará mais usar o SUS. Em outras palavras, SUS apenas para “os outros”, o povo, os comuns, os não-ungidos… Eis que agora, por obra do Governador que se despede, a turma do GDF terá seu próprio plano de saúde. Deduzo, então, que aquele lugar onde se trabalha, assim como no caso da cervejaria rival, não dispõe da confiança de quem ali presta serviços. “O que eu faço para os outros não é o bastante para mim” – para mim é clara a mensagem. Continue Lendo “SUS, o santo de casa que não faz milagre”

João de Deus e as Armas da Razão

Postei há poucos dias aqui no blog um comentário a respeito das crenças das pessoas sobre as chamadas terapias alternativas ou, em linguagem mais moderna, integrativas e complementares (PIC), deixando claro que tinha sérias dúvidas sobre a eficácia das mesmas. Citei o pesquisador Edzard Ernst, da Universidade de Exeter (Reino Unido), um crítico da homeopatia, a qual considera não só uma ilusão como “um dos piores exemplos da medicina baseada na fé”, deplorando o apoio estridente que a mesma recebe de celebridades e outros lobbies poderosos “no lugar de um desejo genuíno e humilde de explorar os limites de nosso conhecimento usando o método científico”. Os acontecimentos recentes envolvendo o “médium” (entre aspas mesmo, pois não sei exatamente o que significa isso e como se mede tal fenômeno) João de Deus, de Abadiânia, que além de seus eventuais méritos de cura (ou capacidade de sugestão) e de sua facilidade em acumular bens, se revelou um Don Juan implacável com suas pacientes e até mesmo uma filha. Tudo bem, a história ainda está sendo investigada (pela Polícia de Goiás, não por alguma entidade sobrenatural), de tal forma que devemos conceder a este senhor o benefício da dúvida. Mas não deixa de ser um ponto a mais para aqueles, como eu, que defendem que a boa e velha Ciência ainda tem seu lugar no mundo.   Continue Lendo “João de Deus e as Armas da Razão”