Interesses singulares, prejuízos plurais

Esta semana as manchetes da imprensa, locais e nacionais, reproduzem o que já vai virando rotina no Brasil: a cúpula inteira da Secretaria de Saúde do DF foi parar na cadeia. Entre os presos o Secretário de Vigilância à Saúde, a quem inclusive elogiei aqui no blog, recentemente. Mas esclareço: não o condenarei por ora; continuo sendo um dos que acreditam que todo mundo é inocente, até prova em contrário. Aguardarei tal confirmação, portanto, antes de antepor algum veredito ou opinião pessoal. No país da Lava Jato tal atitude não é só uma questão de bom senso, mas de justiça verdadeira. Continuarei acreditando nisso mesmo que alguém venha ameaçar de “encher minha boca de porrada”. Mas cabe a pergunta: por que neste país tudo tem que ser sempre assim? Seria um dito Bíblico: onde houver Poder Público que haja sempre corrupção? Seria uma lei natural? Sempre me recordo daquele terremoto seguido de tsunami no Japão, alguns anos atrás. O aeroporto da cidade de Narita tinha lama na altura do segundo andar e aviões virados de ponta cabeça. Em uma semana voltou a funcionar de forma quase regular. Será que havia boas leis do tipo da brasileira 8.666 (Contratos e Licitações) por lá? Ou seriam outros os ingredientes, de fundo moral e de consciência política?

Dante Allighieri reservou, em seu Inferno, um lugar especial para os corruptos. eles seriam açoitados por um punhado de demônios, mergulhados em um tonel de piche fervente. Não chego a tanto, mas cá entre nós, penso que já era hora de esta turma ter um pouco de medo…

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“E daí?”: tempos de coronavírus e a banalidade do mal: reflexões à luz de Hannah Arendt

O Aprendiz de Feiticeiro, história também levada às telas pela Disney, com Mickey no papel principal, é um poema de Goethe, no qual um velho feiticeiro sai à rua e deixa um aprendiz com tarefas de limpeza a realizar em sua oficina. Este, lá pelas tantas, cansado da monotonia da faxina, usa seus parcos conhecimentos de magia para fazer com que um esfregão trabalhe sozinho para ele. Um pandemônio logo se instala quando o atrevido rapaz se dá conta que não é capaz de parar o instrumento e, pior ainda, ao tentar parti-lo em pedaços, cada um destes torna-se capaz de se transformar em um novo esfregão, o que só aumenta a desordem no ambiente da oficina do feiticeiro. Estes tempos de hoje, com Covid na vanguarda, sádicos no comando do país, ideias obscurantistas pululando, cientistas sendo desacreditados e um tanto de gente fazendo terrorismo religioso, sinceramente, me trazem a impressão que alguém buliu em algo que não entendia e cujo controle está agora impossível de se obter. O tal “esfregão” que 57 milhões de brasileiros resolveram libertar de sua bizarra magia própria já produziu milhares de ativos pedaços seus e a cada dia surgem novas barbaridades perpetradas por tal legião. O achincalhe daquela pobre garota estuprada, humilhada e agredida publicamente, a quem negavam o direito de interromper uma gravidez não só indesejada como arriscada, é apenas uma mostra de acontecimentos que viraram rotina e mesmo se repetem por toda parte neste pobre (nos vários sentidos do termo) País.  Procuro aqui refletir sobre tal tema à luz do que a filósofa Hannah Arendt chamou de “banalidade do mal”, à vista de figura macabra do carrasco nazista Adolf Eichmann. Ela conheceu de perto Eichmann, mas não Jair “E daí?” Messias e seu cortejo rastejante. Se isso tivesse sido possível com toda certeza escreveria mais sobre o assunto.

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Covid-19 não é para principiantes…

Através da Deputada Arlete Sampaio, que tem divulgado com presteza diária e muita responsabilidade um boletim sobre o andamento da pandemia de coronavirus em nossa cidade, fico sabendo que o DF tem hoje (dia 14 de agosto) 133.166 casos confirmados da doença, praticamente dois mil casos a mais em apenas 24h. As mortes já chegam a 1.935, das quais 30 confirmadas neste mesmo dia. A situação dos leitos de UTI é a seguinte: na rede pública, 749  leitos com respiradores, sendo 492 ocupados (70,39% ); na rede privada, são 281 (89,05% de ocupação). É realmente um momento crítico, concordam não só a Deputada como o próprio Secretário de Saúde do DF, Francisco Araújo, em que pese ter o governo local liberado missas, cultos e outras celebrações religiosas. Cerveja com os amigos também está permitido. Aulas, não. E assim, como não há outro assunto relevante no cenário, resolvi manusear (mas não manipular…) os números disponíveis, buscando, mais uma vez, comparar a situação do DF com a de outras cidades. Sim, porque como venho afirmando aqui, a comparação mais lógica é com cidades (como de fato Brasília é), e não com estados. Tomei algumas capitais, de todas as regiões do país, para fazer tal análise.

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Por quem os sinos dobram?

“Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, o continente fica diminuído, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”. Meditação XVII (John Donne). Mas por quem os sinos de agora dobram, afinal? Continue Lendo “Por quem os sinos dobram?”

Um caso de amor com o SUS

Fugindo à regra deste espaço, trago aqui hoje alguém “de fora”, um convidado. Mas não é qualquer um. É um cara que veio da Itália e que há trinta anos acompanha (e contribui para) o desenvolvimento do SUS. Conhece a nossa realidade e a de nosso sistema de saúde como poucos. Aliás, ele é um daqueles estrangeiros que é capaz de amar e compreender mais o nosso país do que nós próprios o somos.  E não é só por ser casado com uma brasileira, não! Veio para o Brasil num processo de cooperação técnica da Itália, nos anos 90, e a ele retornou outras vezes, como técnico da OPAS.  Ele está se aposentando na OPAS e compartilhou com seus amigos daqui e alhures uma verdadeira declaração de amor ao SUS e a este pobre país. Renato Tasca é o seu nome. Tenho a honra de tê-lo conhecido há quase 20 anos, de ter trabalhado diretamente com ele em algumas ocasiões e assim ter feito parte de alguns projetos importantes que ele desenvolveu ou articulou aqui. Nada como ler o texto de Renato para se convencer de que o SUS não será, definitivamente, um projeto perdedor ou uma irrealizável utopia. A militância de pessoas que acreditam nele, como Renato Tasca e tantos outros,  sempre fez e continuará a fazer a diferença. Menos mal que sua aposentadoria na OPAS não o retirará de nosso convívio. Continue Lendo “Um caso de amor com o SUS”